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Além da Netflix: o mundo do vídeo on demand

Além da Netflix: o mundo do vídeo on demand


Explosão de produtoras altera hábitos de consumo e cria serviços de streaming para nichos.

Você chega em casa e já são 20h43. O Jornal Nacional está no meio de uma reportagem sobre o Planalto – sem pegar do começo, fica muito difícil entender qualquer coisa. Então, você vai para a TV a cabo, mas são 20h45, qualquer série ou filme já vai estar próximo do final. E, sinceramente, são episódios aleatórios de séries que já fizeram sucesso e filmes hollywoodianos.

A TV não mais condiz com os hábitos e demandas contemporâneos de valorização do tempo real e do on demand (literalmente, sob demanda, onde e quando o usuário quiser). Plataformas feitas para você sob medida com base nos seus gostos. Quer algo mais conveniente do que isso?

“Mudou a relação do consumidor com as programações. Hoje cada pessoa monta a sua própria ‘televisão’, corta propagandas, escolhe filmes, etc.”, disse Letícia Herrmann, pós-doutora em comunicação, pesquisadora e professora na UFPR. As pessoas estão cada vez mais adeptas desse tipo de consumo. Divulgado em 2018, no PlayTv Fórum, um estudo revelou que a Netflix, maior streaming do mundo, também se tornou o maior serviço de TV paga no Brasil, na frente de tradicionais companhias de assinatura como NET e SKY.

Além da quantidade de assinantes – que cresce a cada dia – os streamings tornaram muito mais fácil o binge-watching. Muitas vezes, as plataformas disponibilizam temporadas inteiras de séries, tornando possível que o usuário possa assisti-las de maneira sequencial, sem precisar esperar semanas pelos próximos capítulos, como acontece na TV. O pesquisador Anderson Lopes da Silva, em seu artigo “A prática do binge-watching nas séries exibidas em streaming: sobre os novos modelos de consumo da ficção seriada”, classifica que essa forma de relacionamento entre a série e o receptor evidencia uma nova forma de consumo midiático.

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Giuliano Braga, mestrando em Ciência Política no DCP/FFLCH-USP, hoje em dia parou de assistir televisão e usa apenas serviços de streaming. Ele observou que agora passa muito mais tempo consumindo conteúdo do que assistindo TV. “A opção de binge-watching oferecida pela plataforma foi essencial para essa mudança em meu comportamento ao consumir conteúdo”, completou ele.

Diferente de maratonar, o binge-watching tem a ver com o consumo de algo inédito, de maneira quase viciosa, independente da forma de exibição tradicional televisiva. Os episódios são construídos de forma a incentivar essa prática, sempre com um gancho no final que leva o telespectador a assistir mais um episódio e mais um e, juro, só mais um até a temporada acabar e você perceber que está há 12 horas deitado na mesma posição e até esqueceu de jantar.

Giuliano vê isso como algo bom e ruim ao mesmo tempo. “Foi uma libertação e ao mesmo tempo um encarceramento”, disse ele. Não estar preso ao conteúdo fixo da TV, que geralmente inclui programas que não são do seu gosto, é libertador, mas os streamings e a possibilidade do binge-watching faz com que ele se prenda a conteúdos extremamente parecidos, o que cria uma espécie de bolha, uma zona de conforto.

Letícia acredita que isso não é o futuro, mas sim o presente. E a tendência é que o conteúdo fique cada vez mais personalizado. Um exemplo disso é a recente tentativa da Netflix em fazer um filme interativo. Parte da franquia Black Mirror, Bandersnatch (2018) se assemelha a um videogame e oferece diversas oportunidades para o telespectador fazer escolhas sobre a narrativa, além de disponibilizar cinco finais diferentes para a história.

Agora há a possibilidade de acompanhar algo em qualquer tipo de tela, independente do lugar. “Terminou de modificar a relação que havia entre consumo de audiovisuais e grades de sala de cinema e grades televisivas. Agora os produtos vão aonde as pessoas estão”, disse a historiadora, jornalista e pesquisadora da área de comunicação, Mirian Rossini. Segundo ela, discussões sobre a autonomia do telespectador diante da grade de programação já existiam desde a invenção do controle remoto e depois com a popularização de fitas VHS, DVDs e, mais tarde, Blu-Rays. Até mesmo a TV vem flexibilizando a sua programação e oferecendo serviços como o NET Now, o qual disponibiliza vários programas, filmes e séries para o assinante assistir quando quiser.

Ainda comparando sua vida pré-streaming e pós-streaming, Giuliano nota muitas diferenças. “A presença em múltiplos aparelhos, como celular, tablet e televisão, fez com que o streaming entrasse em momentos do meu dia em que eu não estaria assistindo televisão”, disse ele.

Sim, as plataformas tiveram grande impacto no consumidor, mas e quanto ao outro lado da moeda?

A produção de conteúdo mudou depois da Netflix, Amazon Video Prime, entre outros. Mirian destaca que, com os streamings, observa-se a possibilidade de mais produções, inclusive de baixo custo, facilitando e democratizando o acesso a novos discursos, imagens e formatos: “Essa é uma mudança não apenas cultural, mas social, de representação e de inclusão. Temos acesso a imagens e sons de lugares distantes, que eram praticamente invisíveis”. Quando que você imaginaria ser possível uma série, por exemplo, espanhola fazer sucesso no Brasil? Ou o público ficar cativado por produções alemãs, francesas, etc?

 Serviços de streaming menores vem surgindo no Brasil também. Um deles é o Darkflix, que entrou no ar em março. A proposta, idealizada pelo empresário Ernani Silva, é oferecer um catálogo focado em filmes do gênero terror, horror, fantasia e ficção científica. Além disso, o streaming também inclui um “canal de TV” gratuito com programação 24 horas e, em alguns meses, vai lançar uma plataforma de leitura de quadrinhos desses mesmos gêneros. Ernani já tem experiência com a distribuição de filmes no Brasil, tendo trabalhado, em 1980, como representante de vendas em distribuidoras e, em 1993, com a distribuição de selos próprios. No final dos anos 90, ele até passou a distribuir esses conteúdos em bancas de revista em formato colecionável.

 Segundo a própria Darkflix, a intenção é trabalhar para que a plataforma suporte o acesso de 1 milhão de pessoas ao mesmo tempo. A inclusão do canal de TV tem a intenção de interagir com o público e conhecer os seus gostos e, de acordo com a equipe, a TV é a forma mais democrática de fazer isso no Brasil. Entre os planos futuros, está a produção e coprodução de conteúdos e o investimento no mercado audiovisual e, mais para frente, a expansão do serviço para outros países.   

Além dos fãs de terror e ficção científica, os amantes da sétima arte brasileira também já possuem um streaming para chamar de seu: o Spcine Play. Sendo o único streaming público do Brasil e voltado para a produção nacional, a plataforma contém os títulos das principais mostras e festivais de São Paulo, além de shows, espetáculos e raridades do cinema clássico brasileiro. O Spcine Play não conta com assinatura, os filmes são de graça ou alugados por um período de tempo.

Tanto a Darkflix quando o Spcine Play não tem como objetivo atingir aos grandes públicos de streamings globais. “Oferecemos conteúdos segmentados, diferentes dos que você encontra nesses outros streamings”, explica Marina Baião, da Spcine. Desde outubro de 2018, a plataforma paulista já acumula 12.000 visualizações e vê possibilidade de crescimento: “A Spcine Play ainda é uma plataforma muito nova, com muito caminho para percorrer. Acabamos de realizar e transmitir ao vivo alguns shows da Virada Cultural de São Paulo 2019 e foi uma experiência muito positiva”.

As empresas também investem cada vez mais em conteúdo exclusivo, feito unicamente para o assinante. Rossini diz que os grandes e tradicionais estúdios americanos estão tentando não ficar para trás no meio de tanta mudança, por isso se juntam à Netflix e Amazon Prime na produção de selos originais. No entanto, a pesquisadora pensa também a longo prazo: “Como é possível assinar tantos pacotes de conteúdos exclusivos?”. Com esse modelo de negócios ficando tão popular, uma série de streamings vem surgindo. Os pequenos já mencionados, mas também algumas emissoras de TV disponibilizam seus programas online e gigantes como a Disney (que recentemente comprou a Hulu) também já planejam entrar no mercado.

Até a TV aberta, muitas vezes tradicionalista, entrou na onda das plataformas On Demand – a Rede Globo lançou o Globoplay em 2015 e a TV Record, que em 2018, estreou o PlayPlus. Assim como seus concorrentes, tanto o Globoplay quanto o Playplus já contam com conteúdo exclusivo para os assinantes, além da possibilidade de ver a programação televisiva a qualquer hora.

Se por um lado, a variedade de opções é uma coisa boa, por outro o consumidor fica refém de ter que assinar vários serviços diferentes se quiser aproveitar todos os conteúdos produzidos. “A TV aberta funciona há tanto tempo porque não temos que pagar pelos canais, individualmente”, comentou Mirian. Giuliano vê esse desenvolvimento como uma consequência normal do livre mercado, mas como consumidor vê essa diversidade como um problema devido ao fato de ter que fazer várias assinaturas diferentes. “O consumidor final médio muito possivelmente não vai conseguir acompanhar essa guerra pelo trono dos streamings”, finalizou ele.

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Beatriz Salvia e Madalena Derzi – Fala!Cásper

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