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Ágoras Contemporâneas e a inserção da periferia nos debates sociais

Ágoras Contemporâneas e a inserção da periferia nos debates sociais

Ágoras: palavra que tem origem no verbo agorien, e que significa discutir, deliberar e tomar decisões, as ágoras foram praças públicas que, na Grécia Antiga, se desenvolveram com o objetivo de que os cidadãos de encontrassem para discutir diversos assuntos que diziam respeito à pólis. 

Naqueles espaços, tanto filósofos como pessoas “comuns” expunham seus pensamentos com o intuito de tornar a pólis um lugar melhor e, mais especificamente, consolidar uma democracia na região.

Mas, se pudéssemos destacar uma característica das ágoras, provavelmente seria a oralidade, expressada através do discurso.  Muitos dos discursos lá realizados serviram de base para o conhecimento nas culturas ocidentais e suas respectivas democracias.

Mas, apesar de as sociedades terem sofrido muitas transformações desde a Grécia Antiga, a oralidade não deixou de ser um fator de impacto quando reproduzida de maneira eficiente.

Discursos de presidentes, autoridades, e ativistas que lutam por seus direitos dentro das civilizações sempre marcaram gerações ao longo da história.

E nos últimos anos a oralidade vem ganhando força entre os jovens através de movimentos que, por disponibilizarem espaços que os permitem expor seus pensamentos acerca da sociedade, estão sendo comparados com as ágoras gregas.

Entre eles podemos destacar movimentos que acontecem, em sua maioria, nas periferias das cidades, e são compostos predominantemente por jovens negros que buscam externar, ali, as suas indignações sobre o ambiente urbano que os sufoca a cada dia. São eles os slams, batalhas de rap, e saraus, as “ágoras contemporâneas”.

Slams

Os slams são campeonatos de poesia falada onde, geralmente, os poetas têm cerca de 3 minutos para declamarem seus textos, sem adereços ou acompanhamento musical. O júri é escolhido na hora do evento, e dá notas de 0 a 10 para os competidores.

Aqui, no Brasil, esses campeonatos foram introduzidos por Roberta Estrela D’Alva através do ZAP! (Zona Autônoma da Palavra) em 2008, depois de a poeta viajar para os Estados Unidos, onde nasceu o Slam (mais especificamente em Chicago) para estudar mais de perto esse movimento. O primeiro slam do Brasil ocorre toda segunda quinta-feira do mês, em lugares variados.

Depois do ZAP!, o segundo slam brasileiro foi o Slam da Guilhermina. Criado e organizado por Emerson Alcalde desde 2012, o evento acontece toda última sexta-feira do mês, ao lado da estação Guilhermina Esperança do metrô.

Emerson, que já foi finalista da Copa do Mundo de Slam (FR), em 2014, destaca que a carência de eventos culturais na periferia o impactava bastante. “Em 2012, quando só havia um slam, eu resolvi fazer um na zona leste de São Paulo. Eu sentia falta disso estar na periferia, onde normalmente não chega uma estrutura cultural do governo”.

Slam da Guilhermina (Arquivo pessoal)
Slam da Guilhermina (Arquivo pessoal)

O organizador do Slam da Guilhermina também ressalta que, assim como as batalhas de rap e saraus, os slams buscam se instalar em locais de grande circulação pública. “Quando começamos a fazer na rua, nos inspiramos nas batalhas de rap e nos saraus, mesmo estes últimos sendo realizados, inicialmente, em bares e bibliotecas”.

No slam já podemos observar a influência dessas “agoras contemporâneas” nos movimentos que buscam alterar estruturas da sociedade que não funcionam da maneira como deveriam.

Logo, enquadram-se em uma das principais características das ágoras, a de, através de debates, mudar o rumo de polis. “É um espaço de luta. Como você tá na rua, não tem como não falar de como o Estado nega o acesso aos equipamentos de sociais. Ali também fazemos reuniões para tentar abrir postos de saúde que estão fechados, reivindicar uma escola melhor, por exemplo. Os movimentos sociais estão envolvidos nessas rodas de cultura”.

Batalhas de rap

As batalhas de rap surgiram quase que ao mesmo tempo em que o rap se popularizou entre as mais diversas sociedades, principalmente no Bronx, nos Estados Unidos, por volta dos anos 70.

Em terras brasileiras, o rap passou a ganhar maior visibilidade a partir dos anos 90 e, assim como no país norte-americano, as batalhas estavam intrínsecas à dissipação do gênero entre os amantes de música.

Contudo, foi em 2003, com o nascimento da Batalha do Real, no Rio de Janeiro, que as batalhas de rima passaram a ter uma organização maior, para logo depois esses eventos começarem a ter mais adeptos em outros lugares do país, como em São Paulo.

Entre os Paulistas a batalha que mais teve destaque durante o crescimento da aceitação do público de rap diante dessas disputas entre os MCs foi a Batalha do Santa Cruz, que ocorre ao lado da estação de metrô da Linha Azul que possui o mesmo nome.

Sendo disputada há mais ou menos 12 anos, a famosa “rinha de MCs” já revelou nomes para o cenário do rap nacional como Rashid, Bivolt e Emicida, e acontece todo sábado a partir das 20:30.

As regras de disputa da batalha consistem em 30 segundos para cada MC rimar, eles têm dois rounds para fazer isso. Caso haja empate, haverá um terceiro round, onde dali certamente sairá um vencedor.

Outra importante batalha do cenário paulistano é a Batalha Racional, que ocorre toda sexta-feira à noite na esquina da Avenida Paulista com a Augusta. Ela surgiu em 2011, e foi a primeira batalha de rap de São Paulo que fugiu das características das “batalhas de sangue”, que é onde um oponente tem de ofender o outro para ganhar mais votos do público.

“Criamos uma batalha onde não existiam ofensas ao adversário mas somente discussões sobre quaisquer temas, lembrando que a única regra da batalha é ‘sustente suas palavras’, você é livre para dizer o que quiser.  Nosso foco principal é a educação, disseminar conhecimento e a liberdade”, destaca Harrison, um dos fundadores dessa batalha.

 Participantes da Batalha Racional (Arquivo Pessoal)
Participantes da Batalha Racional (Arquivo Pessoal)

Quando questionado sobre a relação entre as ágoras gregas e as ágoras contemporâneas, e como essas últimas podem influenciar o pensamento dos jovens na atualidade, Harrison analisou que “as batalhas de rap podem ser espaço para qualquer tipo de discussão, de cunho político ou não.

Mas não somente discussões, como podem ser também espaço para atividades práticas de organização popular”, e completou a sua afirmação dizendo que “é muito importante observar cada vez mais a ocupação dos espaços públicos por jovens através das mais diversas atividades culturais. Essa ocupação acaba induzindo a um intercâmbio de atividades entre as diferentes regiões da cidade”.

Saraus

Muito comuns no século XIX,  principalmente entre grupos de aristocratas e burgueses, os saraus são reuniões que têm como principal objetivo o compartilhamento de experiências culturais e de convívio social.

Com a origem da palavra derivada do latim seraneus, que significa entardecer ou pôr do Sol, a maioria desses eventos acontece à noite, e seus adeptos comparecem com o intuito de realizar atividades lúdicas como dançar, ler livros e recitar poesias.

Hoje, os saraus já ganharam espaços como escolas, bibliotecas e associações artísticas, e têm como principal expoente os saraus literários. Estes consistem na leitura de trechos de livros e no recital de poesias de autoria, ou não, da pessoas que as declama. Normalmente, após esses eventos lúdicos, acontecem debates que tem como principal objetivo aprofundar ainda mais os participantes nos temas antes abordados.

Raquel Almeida, uma das organizadoras do Sarau Elo da Corrente, afirma que os saraus “são espaços que nos proporcionam questionamentos, pensamentos, criatividade, que nos capacita enquanto cidadãos. Coisas que poderiam ser feitas em espaços como bibliotecas, escolas e centros culturais”. Ela completa dizendo que, “na realidade nós conseguimos, a partir das nossas especificidades, substituir minimamente essas lacunas que existem em nossos territórios”.

 Sarau Elo da Corrente (Tally Campos)
Sarau Elo da Corrente (Tally Campos)

Acontecendo desde 2007 no bairro de Pirituba, zona oeste de São Paulo, o Elo da Corrente tem como princípios resgatar a aproximação das pessoas com as suas culturas de origem que, por muito tempo, foram deixadas de lado pela sociedade em geral. “Nossos princípios sempre foram o resgate dessas culturas e o incentivo a leitura, o incentivo a novas escritoras e escritores. A comunicação com o nosso bairro”, destaca Raquel.

Outro importante nome dos saraus é Alessandro Buzo. Com passagem pela globo, sendo repórter do SPTV no quadro SP Cultura, Alessandro organiza desde 2010 o Sarau Suburbano Convicto. Com sede na Bela Vista, o evento, segundo Buzo, nasceu da ideia de levar o público para a livraria que há no andar de cima de onde ocorre o sarau.

A livraria Suburbano convicto, além de abrigar o sarau, também é a casa do Suburbano em debate, outro evento que busca trazer o público para espaços de debate, mas sempre tendo como foco a poesia. “Muitas vezes a discussão está dentro da poesia”, afirma Alessandro. Ele destaca ainda que “através desses eventos, o jovem tem muita chance de encontrar um caminho do pensamento crítico, baseando-se no conhecimento”.

Fato é que, mesmo os três movimentos tendo as suas particularidades, todos eles unem-se num ponto crucial: o da oralidade sendo instrumento de debate e, consequentemente, de busca da alteração de estruturas da sociedade. Sejam em caráter de competição, como no caso dos slams e batalhas de rap, ou como uma atividade puramente lúdica, como os saraus, os três eventos conseguem levar para seus espaços uma gama muito diversa de pessoas que pretendem discutir pontos de suma importância para a sociedade.

Estes podem ser saúde pública, educação, preconceitos e desigualdades presentes em todas as instâncias da sociedade. Portanto, essa tríade de atividades estão tentando  levar para a periferia debates que há tempo foram tirados de lá e, mais do que isso, estão buscando inserir os jovens nesse processo de reestruturação social. As ágoras contemporâneas representam o início da mudança do centro dos debates. Saem os bairros de centro e os trintões engravatados, e entram os bairros periféricos com os jovens embermudados.

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João Guilherme de Lima – Fala! PUC

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