A paz atômica: leia a resenha do livro 'Hiroshima'
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A paz atômica: leia a resenha do livro ‘Hiroshima’

A paz atômica: leia a resenha do livro ‘Hiroshima’

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A obra de John Hersey que retrata as consequências da guerra de sua perspectiva mais desumana: a tragédia de Hiroshima

Casas, hospitais, pessoas e famílias foram destruídas no dia 6 de agosto de 1945. A paz forçada americana havia chegado ao Japão, a bomba explodiu. Tudo em um ato desprovido de humanidade. A partir deste ponto, John Hersey conta precisamente a história de seis pessoas que sobreviveram à catastrófica bomba atômica em sua obra Hiroshima.

Primeiramente, o texto foi publicado como artigo na revista The New Yorker, em 1946, ocupando a edição inteira. Após o feito, tornou-se livro e, em 2002, saiu a primeira edição, que contava com os depoimentos das seis pessoas após quarenta anos da explosão. O autor inovou o jornalismo, fator que o configurou como precursor do new journalism ou jornalismo literário.

Hiroshima
Capa da revista The New Yorker, edição na qual saiu a primeira publicação de Hiroshima. | Foto: Reprodução.

Livro Hiroshima

Hiroshima retrata o caos estabelecido na cidade japonesa no final da II Guerra Mundial. O modo escolhido para o livro ser feito reflete — mais do que qualquer outro fator — a personificação da tragédia. Hersey relata a história de seis pessoas diferentes afetadas pela bomba atômica, o que confere proximidade do leitor com a situação.

O jornalista busca, por meio do testemunho de seis personagens reais da tragédia, traçar o que foi ser vítima de uma experiência cruel da barbárie humana. As experiências de Toshiko Sasaki, Masakazu Fujii, Hatsuyo Nakamura, Wilhelm Kleinsorge, Terufumi Sasaki e Kiyoshi Tanimoto são mais que histórias. São testemunhos do caos, da desgraça e da maldade humana. A voz dessas pessoas percorre a obra inteira, de modo a proporcionar uma perspectiva detalhada sobre o que foi o ataque norte-americano no Japão.

John Hersey
Capa do livro lançado em 2002. | Foto: Reprodução.

No decorrer do livro a mensagem a ser passada se torna evidente: gerar empatia e humanidade a partir da difusão do horror na guerra. A luta de cada um para a sobrevivência, os esforços do senhor Tanimoto em ajudar a todos e as consequências da bomba quarenta anos depois.

Os fatores citados circundam efeitos que provocam a sensibilização do leitor com os hibakusha (como são chamados os sobreviventes no Japão). O sofrimento da senhora Sasaki, que esperou dias para ser atendida no hospital com a perna extremamente ferida. O trabalho incessante do doutor Sasaki. A senhora Nakamura e sua luta para manter os filhos vivos. Não há um fato, um detalhe que fuja à emoção e à tristeza do ocorrido naquele dia 6 de agosto de 1945.

Quarenta anos após a explosão, as consequências mostram que aquele dia não ficou para trás. Os hibakusha sofreram preconceitos constantemente. Além de rejeitados por empresas, também desenvolveram deficiências, a exemplo de tonturas constantes, mal-estar e cansaço rápido. Some-se a isso a leucopenia, que deixou o padre Takakura (nome do padre Kleinsorge ao naturalizar-se japonês) extremamente fraco antes de seu falecimento.

A obra e o jornalismo

A obra é compreendida como um marco para o jornalismo moderno, considerada por alguns como inaugural do jornalismo literário. O livro apresenta-se de maneira simples que pode levar a uma primeira impressão negativa para os preciosistas da língua. Entretanto, é a simplicidade que carrega o valor do texto. Ela mantém os relatos fiéis das testemunhas, além de proporcionar o acesso direto do leitor ao vivido. Uma experiência quase que direta, sem intermediários.

Imagens fortes chocam o leitor imerso no contexto de caos das vítimas. A primeira edição surge no pós-guerra, com a missão de evidenciar a realidade que não era vista pela população ocidental. O contexto estabelecido destaca a importância da obra que cumpre seu papel enquanto arte ao apresentar seu poder contestador e reflexivo.

O texto provoca o sentimento de empatia, humanidade e paz necessários, mas perdidos na guerra pacificada por uma bomba atômica. Não haveria melhor maneira de evidenciar que a paz estabelecida é provinda da dor do outro.

O livro-reportagem cria, desse modo, um enorme desconforto na sociedade e demonstra toda sua relevância na arte, no jornalismo e, acima de tudo, na comunidade pós-guerra. Hersey carrega em suas palavras o sofrimento dos hibakusha como modo de gerar humanidade e esperança em meio à escuridão contemporânea ao livro.

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Por Thiago Hideki Baba -Fala! Cásper 

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