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A Cinco Passos de Você – Tendemos ao Cinema Sensível

A Cinco Passos de Você – Tendemos ao Cinema Sensível


Por Miller Ludgerio – Fala! Anhembi

A Cinco Passos de Você (Five Feet Apart, 2019) está em cartaz nos cinemas e trata da realidade de dois jovens doentes. Como conta o Jornalismo Junior, a personagem Stella Grant (Haley Lu Richardson) se define como uma controladora compulsiva. Ela faz listas de tarefas e programa aplicativos para ajudá-la no consumo de inúmeros remédios que precisa tomar para controlar a fibrose cística. Will Newman (Cole Sprouse), entretanto, gosta de quebrar regras para sentir que tem controle sobre a própria vida. Ele também é um paciente de fibrose cística, mas não possui esperanças e está sempre desrespeitando as orientações de seu tratamento experimental. Para motivá-lo, Stella propõe que ambos façam o tratamento em conjunto. Essa aproximação acaba por mesclar suas características e, conforme a conexão aumenta, a regra de manter seis passos de distância torna-se  insuportável.

A Cinco Passos de Você é a mais nova obra de um conjunto que se realiza enquanto suscita maiores emoções quando vinculadas ao público. Por sua vez, traz compaixão e empatia pela vontade de viver, respeitando as carências das personagens taciturnas de modo quase que penoso, e, não menos importante, garantindo lucro para a indústria.

Verdade é que, por relações afetivas, há inúmeras possibilidades de explorar isto nas histórias. Além disso, poder sujeitar o grande público numa perspectiva unificada, que independe de contextos maiores por se tratar, basicamente, da humanidade que teme à solidão, principalmente quando relacionadas aos espectadores adolescentes que reafirmam sua identidade e independência enquanto passam pela puberdade.

Entre os vários exemplos, há filmes mais aclamados e antigos, como Romeu e Julieta (1968), baseado na tragédia de Shakespeare dos jovens que não podiam se relacionar. Também posso citar Morte em Veneza (1971), da novela de Thomas Mann, que exibe o poente de um velho compositor, que mantém certo fascínio pela juventude de um rapaz. Dentre outros mais recentes que ilustram o que digo, temos: A Culpa é das Estrelas (2014), que fala das personagens com câncer que encontram ânimo uma na outra para lutar contra a doença; Como Eu era Antes De Você (2016), sobre uma menina que se apaixona pelo aristocrata tetraplégico para o qual trabalha; P.S. Eu Te Amo (2007), que conta a história de uma mulher que precisa superar a morte do marido. Todas estas são obras adaptadas, homônimas de um livro antecessor, e que de tempos em tempos são substituídas por outras que se assemelham. Isso sem nem entrar na questão dos filmes  nos quais a personagem busca por uma vida afetiva e, ao mesmo tempo, luta pelo sucesso profissional, como em Simplesmente Acontece (2014).

Com tudo, questiono o quão saudável e ético sou ao procurar filmes como estes. Creio que a vontade de encontrar histórias que sensibilizam é algo bacana para o equilíbrio regular da vida, e que chorar vendo um filme pode ser algo prazeroso se levarmos em consideração que se trata de uma circunstância na qual o modo expressivo é aceito socialmente – que nos permitimos chorar sem medo de sermos julgados por se tratar de um filme.

Das analogias entre os filmes e seu público, o sofrimento é romantizado no intuito único e exclusivo de lucrar financeiramente, sem mesmo uma furtiva possibilidade de maiores reflexões. Isso revela uma camada humana que ultrapassa a empatia que disse anteriormente, tornando-se um masoquismo moral que é perverso e misto de voyeur, o qual procuramos em determinadas histórias pensando no que iremos encontrar, tendo o ponto de vista superior por não sermos a personagem infeliz.

Como exemplo máximo a esta possível ótica, se apondo às relações de lazer da sociedade distópica de Admirável Mundo Novo (1932), de Aldous Huxley, com o icônico “Cinema Sensível”, que proporciona aos indivíduos uma sinestesia prazerosa para com os filmes, e com o documentário da personagem desgraçada. Esta é uma das passagens mais horrendas do livro: dos momentos finais em que a multidão ansiava com vigor pela autoflagelação do outro.       

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