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4 razões para você ir na exposição sobre Anita Malfatti, no Museu da Arte Moderna de SP

4 razões para você ir na exposição sobre Anita Malfatti, no Museu da Arte Moderna de SP


Por: Julia Castello Goulart – Fala! PUC

 

Museu de Arte Moderna de São Paulo apresenta a pioneira da Arte Moderna no Brasil.

Em São Paulo, até 30 de abril, o Museu de Arte Moderna de São Paulo apresenta a exposição: “Anita Malfatti- 100 anos da Arte Moderna”. A exposição conta com 70 obras da pintora, e celebra os 100 anos de sua primeira exposição, em 1917, que causou grande impacto no meio artístico da época. Atualmente, ela é considerada a pioneira e percursora da Arte Moderna no Brasil.

Foto 01

A exposição conta com obras originais da artista, como Vida na Roça ou Grupo de Cinco, e está localizada no Parque Ibirapuera com funcionamento das 10h até 18h – sendo R$6,00 o valor da entrada (e gratuita aos sábados!)

Confira os 4 motivos que te farão ir até a exposição de Anita:

 

01 – Ela Foi Uma Artista Especial

Anita nasceu em 2 de dezembro de 1889, em São Paulo. Filha do engenheiro italiano Samuel Malfatti e da pintora Bety Krug, Anita nasceu com má formação na mão e braço direitos, e mesmo tendo se submetido a uma cirurgia na Itália, essa atrofia a acompanhou durante toda sua vida.

PERFIL 01

Ela, que era destra, teve que treinar e dominar a mão esquerda. Depois da morte do pai, Anita e a família foram morar na casa dos avós Krug e passou a estudar no Mackenzie College. Passou a infância familiarizada com tintas e desenhos, por causa da carreira da mãe, e após se formar passou a dar aulas de desenhos para crianças, ajudando no sustento da família.  Foi aí que Anita fez suas primeiras pinturas.

PERFIL 02

 

02 – A Jornada de Anita Pelo Mundo da Arte

Diferente de seguir o tradicional destino dos artistas brasileiros da época – que era Paris – ela fez seus estudos na Alemanha e, posteriormente, nos Estados Unidos. Embarcou para Berlim, aos vinte anos, onde iniciou seus estudos na Academia Imperial de Belas-Artes. Na Academia ela aprendeu sobre desenho, perspectiva e história da arte. Nesse período, suas obras ainda apresentavam estruturadas com base em princípios tradicionais de pontos de fuga e perspectiva. Contudo, é nessa época que ela se aproximou pela primeira vez da arte moderna, quando começou a trabalhar sob orientação de pintores independentes como Lovis Corinth, que a iniciou no estudo das cores.

academia de BERLIM
Academia Imperial de Belas-Artes

 

Com o início da guerra na Alemanha, Anita voltou para o Brasil e organizou sua primeira exposição individual: Exposição de estudos de pintura Anita Malfatti.

Em 1915, poucos meses antes de embarcar para os Estados Unidos – onde acabaria seus estudos – Anita viajou a Ilha de Monhegan para encontrar seu professor Homer Boss. Ele seria seu professor em Nova York na Independent School Of Art, e era considerado “pintor filósofo”, visto que incentivava a liberdade de criação de seus alunos. Foi nessa Ilha que Anita colocou em prática o que havia aprendido na Alemanha.

FOTO HOMER BOSS
Rochedos – 1915.

 

Segundo a mestra Maria Inês dos Santos Duarte – formada em Letras pela USP e Crítica Literária pela PUC-SP, e atualmente assistente mestre da Pontifícia Universidade Católica com ênfase em Artes e Artes Plásticas, foi nesse período que ela criou as obras mais modernas de sua carreira.

“Anita, em característica de personalidade,  era uma pessoa muito emotiva, mais introspectiva, e se deixava levar bastante pelos sentimentos… É lá que ela descobre essa nova arte, do clássico para o moderno. O moderno vai nascer desse ‘eu’ do artista. O artista que vai olhar de uma forma pessoal, sem obedecer aos modelos”.

FOTO LUNÁTICO 01
A Ventania – 1915.

 

Ela pintou principalmente paisagens com grossas pinceladas, cores fortes e contrastes intensos. Questionada sobre essas pinturas anos mais tarde, Anita respondeu:

“Eu pintava num diapasão diferente, e era essa música da cor que confortava e enriquecia minha vida”.

Já em Nova York, ainda sobre influencias de seu professor, Anita pintou figuras com cores não naturalistas dos retratos, o enquadramento insólito, as deformações anatômicas, os contrastes de forma e de cor. Nos seus trabalhos a carvão, seus retratos apresentavam feições distorcidas e o topo da cabeça desproporcional, para que todo o retrato fosse enquadrado de modo a ocupar grande parte da superfície do papel. Esse mesmo enquadramento, era também característico nas suas pinturas de homens e mulheres nus. No corpo do homem, Anita destacava o vigor da musculatura em movimento com linhas mais grossas, enquanto os corpos femininos eram feitos com linhas mais finas.

FOTO HOMEM

 

Anita, ao voltar para o Brasil trouxe a produção que fizera em seu verão, e por incentivo de Di Cavalcanti e de alguns jornalistas, expôs 53 obras em 12 de dezembro de 1917: Exposição de pintura moderna Anita Malfatti. Ela conseguiu chamar a atenção de vários artistas e curiosos. Conseguiu até vender alguns quadros. Entretanto, como explica a mestra Maria Inês Duarte, suas obras não foram muito bem recebidas pelo público:

“Anita viveu a passagem do século 20. No Brasil, antes do modernismo, existia uma arte chamada: Arte Acadêmica, que era a arte ensinada na academia de Belas Artes, no Rio de Janeiro. A Academia ainda ensinava a arte da maneira clássica. No século 15, período do Renascimento, que se definiu esse modelo, que permanecera durante muitos séculos. Por isso, a expectativa que havia da arte no Brasil se referia à arte acadêmica. As pessoas, na maioria, não gostaram de suas obras por serem diferentes do comum, do esperado. ”

FOTO HOMER BOSS
O Farol – 1915.

 

03 – A Crítica

Monteiro Lobato, crítico de arte da época, reagiu à exposição com uma crítica publicada no O Estado de S. Paulo, em 20 de dezembro, intitulada: A propósito da exposição Malfatti. Sua crítica fez com que muitas pessoas devolvessem os quadros comprados.

MONTEIRO LOBATO
Monteiro Lobato.

 

Segundo Mirela Estelles – que faz parte da rede Educadores, da Família do Museu de Arte Moderna de São Paulo – “A Anita trouxe em suas obras padrões muito diferentes da época e temas que depois os artistas modernos irão se debruçar, como na obra Tropical”.

tropical
Tropical.

 

“…Uma obra que já possuía um tema brasileiro, do que seria a mulher brasileira, a vegetação, as cores do Brasil, as figuras mais ampliadas, e essa maneira provocou as pessoas que estavam mais resistentes e temerosas com o que estaria por vir no Modernismo”.

“…E quanto a crítica do Lobato, devemos dizer que era sobre o Modernismo como um todo, mas que acabou se voltando para a Anita. Muitas pessoas possuem a visão de que ela ficou abalada, quando na verdade, os próprios familiares que a curadora da exposição entrou em contato, falaram que a crítica que ela mais temia não era social, mas, sim, familiar, já que foi o tio, depois da morte do pai, quem pagou seus estudos fora do país” – afirma Mirela.

FOTO EXPO 1917 [2]

 

Contudo, como evidencia a mestra Maria Inês Duarte, suas obras sofreram uma mudança de percurso, após essa exposição:

“As obras, que ela apresentou na exposição de 1917 eram obras que mostravam rupturas com o modelo acadêmico, que possuía propostas interessantes em uma linha mais autônoma, de uma arte mais livre. A partir dessa crítica, ela nunca mais voltou a pintar nos moldes que ela havia pintado até aquele momento. O que se tem de informações concretas em livros, é que ela realmente mudou a forma de pintar. Ela começou a pintar muito mais ‘academicamente’. Ao longo da vida, fez vários tipos de obras, mas nenhuma radicalidade em termos da linguagem”.

FOTO EXPO 1917

Apesar disso, Maria Inês expõe a particularidade e a importância de sua arte na época, assim como para a arte moderna no Brasil:

“Todas as suas obras expostas em 1917 eram expressionistas, que nasciam da subjetividade do artista pelo canal da emoção. É a emoção que regulava. É diferente do cubismo do Picasso, quando ele vai ser muito mais racional, preocupado em discutir uma questão espacial. Para a Anita, é a emoção sendo colocada, sendo bem expressionista nessa fase.

A exposição dela vai mostrar uma arte que rompia com o modelo acadêmico, modelo a qual ela foi introduzida na sua formação, no universo da própria mãe-pintora de arte clássica – e de todo o contexto da arte no Brasil. Sua exposição gerou várias polêmicas, mas também muitos admiradores, como Mário e Oswald de Andrade”.

mario de andrade
Retrato de Mario de Andrade – 1921.

 

Sua exposição só foi realmente reconhecida por um grupo de intelectuais em 1922, na Semana de Arte Moderna. Vinte de suas obras foram selecionadas e expostas no Teatro Municipal de São Paulo. Algumas delas possuíam a temática nacionalista, em alta naquele momento. Representou em uma de suas pinturas expostas, Figura Feminina, folhas de bananeira, vegetação que simbolizava o Brasil. Após conhecer Tarsila do Amaral, ela foi se aproximando dos escritores Mário de Andrade, Menotti Del Picchia e Oswald de Andrade. Todos juntos formavam o Grupo dos Cinco, representado por Anita em uma de suas obras mais conhecidas.

GRUPO DOS 5 (presente na expo)
Grupo dos Cinco.

 

Logo depois, premiada com a bolsa do Pensionato artístico do estado de São Paulo, Anita seguiu para Paris, onde ficou durante 5 anos. Nesse período, suas obras voltaram com os traços finos e delimitados, as dimensões acomodavam-se ao tamanho dos cadernos. Se dedicou principalmente ao desenho.

Tempos depois, Anita entrou em uma nova fase de sua pintura, mas voltou a adotar as cores fortes e povoou o espaço da tela com várias cenas, como na pintura: “Vida na roça”.

VIDA NA ROÇA
Vida na Roça.

 

Mirela Estelles destaca: “Na década de 40, Anita chegou em um desenho mais simples, numa arte mais simplista que se aproxima mais da ‘Arte Naif’, mesmo tendo todo um conhecimento e uma formação muito ampla, com várias formações fora do país. Ela começou a simplificar, entrar em uma forma e paisagem mais narrativas”.

Já na década de 1930, Anita passou a pintar principalmente retratos de intelectuais, familiares e amigos. Um ano antes de falecer, em 1964 aos 75 anos, ela participou da Exposição comemorativa dos quarenta anos da Semana de 22, e foi a homenageada com Sala Especial na VII Bienal de São Paulo.

ANITA VELHA
Anita Malfatti.

04 – A Herança

Para Mirela Estelles, Anita possui hoje grande importância, não só na história da arte, mas como exemplo de mulher brasileira:

“Anita possuía um percurso muito particular, muito próprio, que ia contra ao movimento das mulheres da época. O que se esperava de uma mulher naquela época? Esperava-se um comprimento de padrões sociais, que ela fugia…. Dos padrões de comportamento e das expectativas da família.  Ela não se casou, não teve filhos, ela escolhera fazer arte e viajar muito para focar mesmo no trabalho, na sua formação. Teve uma vida artística muito intensa”.

FOTO NU

Além disso, Mirela evidência outra particularidade e desafio na vida de Anita – a má formação na mão direita:

“O que a gente vê nos seus autorretratos é que ela sempre tem uma mão escondida. No desenho do Grupo dos Cincos só aparece uma mão. Nas obras de autorretrato, ela só aparece com a mão esquerda em cima da mão direita. E essa foi uma outra questão forte para ela. Ela precisou aprender a escrever, a desenhar, pintar com a mão esquerda, sendo que ela não era canhota. Existe essa controvérsia de verem ela como uma figura frágil…. Imagina, ela é uma figura forte que fez escolhas decisivas para a sua vida”.

FIM

Anita é, ainda hoje, considerada uma das maiores pintoras do século XX e uma mulher que mesmo introspectiva, quebrava padrões de sua época, através da arte. Como disse um dos visitantes da exposição, Jane Torres, fotógrafa, “Ela era rebelde”. Talvez uma rebelde sem querer, mas nunca uma rebelde sem causa…. Pois foi a sua arte, a sua causa, que deu início a Arte Moderna de todo um país.

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