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O que aprendemos após 25 anos do Massacre do Carandiru

Por Mattheus Goto – Fala! Cásper

 

Há 25 anos, no dia 2 de outubro, ocorreu o massacre do Carandiru, tragédia que marcou profundamente o cenário político e social do país. Pelo que foi divulgado, 111 pessoas foram assassinadas sob custódia do Estado, pela ação de 325 policiais, no pavilhão 9. O acontecimento teve como início a briga entre dois presos, em que a Polícia interveio inconsequentemente. Com um número de mortos equivalente a de uma guerra, tornaram-se claros dois aspectos da situação estrutural brasileira: a desfuncionalidade dos presídios e a questionabilidade da democracia.

Até hoje, 74 PMs foram acusados, mas tiveram seu julgamento anulado no ano passado, e apenas 1 foi condenado; os outros 250 não tiveram processo formalizado. Todos pertenciam à ROTA, tropa de Comando Geral da Polícia Militar do Estado de São Paulo, que por sua vez, já tinha um grande histórico de letalidade em outros tempos em que a mesma organização não tinha tal nome, chegando a deixar 20 mil mortos em Canudos e a participar do golpe de 1964. Aponta-se um comportamento comum na ação do grupo; “os tiros foram disparados contra peito e nuca, ou seja, há um condicionamento e um treinamento específico para matar”, afirma a professora doutora da PUC-SP, Vera Lucia Vieira. Em outro depoimento, Marco Antônio de Moura, um dos sobreviventes e ex-detento que chegou a ser baleado, declara que “os policiais diziam: Deus cria, a Rota mata e viva o Choque”.

Foi dia de jogo de futebol, momento de descontração, mas para qualquer um dos presidiários, como Sidney Sales, “foi como Auschwitz”. São frases desse tipo que causam um questionamento maior sobre o que realmente aconteceu e o que acontece na sociedade: “foi uma carnificina”, “a gente só ouvia barulho de metralhadora” e “não foi uma simples invasão, eles entraram atirando e matando”. Não foram feitos disparos contra os atiradores e nenhum policial morreu; os corpos dos presos foram encontrados nus, pois, quando a chacina teve seu início, eles tiraram as roupas para provar que não tinham armas.

O Carandiru era um dos maiores presídios da Améria Latina. Como qualquer outro presídio brasileiro superlotado, tinha capacidade para 3500 pessoas, mas confinava 7257 presos na época, já com 2069 detentos no pavilhão 9. Dos que viram seu último nascer do sol ser quadrado, 80% encontrava-se em prisão provisória ou preventiva, e ainda esperava uma sentença final.

Após 25 anos, a pergunta que fica é se a maior tragédia foi a que aconteceu naquele dia ou a que, ao passar de todos esses anos, não somos e nem fomos capazes de efetivamente punir aqueles que foram culpados. Essa questão ainda deve ser levada adiante para também discutir-se sobre “a estrutura da sociedade em um Estado incapaz de promover a segurança dentro e fora dos presídios, desrespeitando direitos básicos de cidadania dentro de uma democracia”, como apontou Marcos da Costa, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, em entrevista.

O advogado dissertou também sobre um tema atual da sociedade: “a grande maioria dos penitenciários são presos pelos olhos, sem condenações, em um Estado elitista”. O sistema carcerário brasileiro encontra-se em defasagem, sem estruturas e condições adequadas e dominado por facções criminosas. Com a quarta maior população carcerária do mundo, o Brasil tem sua maior parcela de presos composta por um mesmo perfil: preto ou pardo, com menos de 25 anos e baixo grau de escolaridade, morador da periferia e presos por furto ou roubo; constrói-se, portanto, o Estado elitista.

Nesse contexto social, surgem organizações como o Movimento das Mães de Maio. Em resposta à perda de seus filhos na chacina dos Crimes de Maio pela violência policial desumanizante, as mães buscam fazer uma democracia para todos e combater aos crimes de Estado. O episódio do Carandiru não foi diferente dos de Maio, “os números foram muito maiores, houve omissão do judiciário, pedaladas” pontuou a fundadora do Movimento, Débora Silva, que ainda complementa:

“A violência sai dos presídios e é muito pior na periferia. Quem matou meu filho foi a sociedade, a sociedade que pede o militarismo de volta”.

Pela narrativa oposta, aceita por uma parcela contrastante da sociedade, supostamente “não houve massacre, houve legítima defesa”. Essa é a frase de Ivan Sartori, desembargador do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, que sintetiza o pensamento daqueles que espalham pelos meios de comunicação e pelas redes sociais que “bandido bom é bandido morto”.

Sobre a mídia e a divulgação do massacre

Como sua responsabilidade, a mídia deve reforçar seu papel social de forma adequada. A sociedade só tem conhecimento do que é reportado na imprensa e do que ela tem acesso. No massacre do Carandiru, a mídia levava a população de susto em susto, de horror em horror. Sem tentar pesar para um posicionamento político, eram usadas expressões como “motim” e, na escolha de palavras, não culpabilizavam-se os policiais por suas ações – vale lembrar que, até hoje, só um foi culpabilizado. Entre alianças e receios de usar o poder concedido a si, os jornais não expressavam qualquer tipo de conduta subversiva. Esse é o reflexo da consciência fechada da época; e, 25 anos depois, não é possível encontrar com facilidade provas visuais do massacre, para que as pessoas não se choquem e nem se questionem sobre o acontecimento.

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