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“1984”: A clássica distopia de Orwell refletida no governo Trump

“1984”: A clássica distopia de Orwell refletida no governo Trump

Por: Débora Bandeira – Fala! PUC

 

Após a eleição do atual presidente dos EUA, obra alcança 1º lugar em vendas nos EUA

Ao escrever o livro “1984”, George Orwell pretendia criticar o seu presente e advertir sobre o futuro – não prevê-lo. A obra escrita em 1948 reflete os regimes totalitários vividos na época, especialmente o nazista e o stalinista, com condições maiores de controle e opressão. Porém, com a ascensão de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, o livro entrou para a lista de mais vendidos do país no mês de janeiro deste ano, despertando novamente o interesse literário por cenários distópicos.

Donald Trump, presidente dos EUA. Foto: Reprodução.
Donald Trump, presidente dos EUA. Foto: Reprodução.

 

Sendo uma das principais referências em distopia (conceito definido como um estado imaginário da mais trágica condição humana), “1984” ficou em primeiro lugar nas vendas da livraria online Amazon. O grupo Penguin anunciou uma reimpressão de novas 75 mil cópias, após as vendas terem aumentado em 10.000%, de acordo com um representante da editora.

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1984 – Companhia das Letras (Foto/ Reprodução: Pinterest minhavidaliterária).

 

O sucesso se deu após uma declaração da assessora do presidente norte-americano, Kellyanne Conway, que utilizou a expressão “fatos alternativos” para referir-se a uma fala de Sean Spicer, porta-voz da Casa Branca, para quem a posse de Trump teve o maior público da história, sendo que os números desmentiam o episódio. “Fatos alternativos” seriam afirmações colocadas contra evidências já apresentadas, entretanto que podem ser repetidas oficialmente, mesmo sem provas. “Não são fatos. São falsidades”, criticou o jornalista Chuck Todd, da NBC.

Na sua obra, Orwell emprega um conceito extremamente similar a esse, chamado de “duplipensamento” (doublethink, na versão original), que significa “a capacidade de abrigar simultaneamente a cabeça de duas crenças contraditórias, e acreditar em ambas”. Mais do que isso, conseguir conviver plenamente com essas ideias. “Dizer mentiras deliberadas e ao mesmo tempo acreditar genuinamente nelas”, descreve Orwell, no livro. Contudo, se tirada do contexto, a definição se aplica perfeitamente aos “fatos alternativos”.

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Diversas capas do livro “1984”- Foto: Reprodução

 

“Penso, à luz de Italo Calvino (escritor italiano do século XX), que um livro clássico nunca termina de dizer o que ele tem a dizer. Desse modo, 1984 é um desses livros que podem ser lidos a qualquer momento, por sempre podermos aprender com ele”, afirma o professor de Literatura da Faculdade de Educação da USP – Marcelo Bulgarelli.

De fato, o romance futurístico de Eric Arthur Blair, que utiliza o pseudônimo de George Orwell, supera os limites do tempo e do espaço. O termo “orwelliano” ficou conhecido como sinônimo de uma situação de extremo domínio e repressão, nos aproximando de uma realidade chocante e jamais desejada em qualquer época e local em que for lida.

“1984”: como a literatura se conecta com a história

Em entrevista, o professor de história Henrique Benatti nos conta sobre o contexto histórico vivido na época em que a obra foi escrita, e por quais motivos ela permanece atual – confira:

Fala!: Orwell escreveu “1984” em 1948, e o publicou em 1949. O que estava acontecendo historicamente nessa época? O que o influenciou a escrevê-lo?

H.B: O mundo se recuperava das duas maiores guerras já vistas, e caminhava para a “paz armada” da Guerra Fria. Nela, as duas superpotências (Estados Unidos e Rússia) se opunham como opções para a humanidade, após o fascismo na Europa Continental render seus frutos devastadores. Orwell provavelmente percebeu, com uma certa clarividência informada, como diz Milton Santos (sociólogo brasileiro), o que se afigurava para os próximos anos: um forte controle social – de privacidade e de patriotismo exacerbado, já visto em sua época.

Fala!: Regimes totalitários estavam se concretizando ao redor de todo o mundo naquela época, e muitos outros vieram depois. Por que momentos de crise são tão propícios para a instalação de governos extremistas? Por que são apoiados pela população, em alguns contextos, como o nazismo na Alemanha?

H.B: A crise, principalmente a econômica, e seus efeitos que pesam nos ombros da população mais pobre, geram um sentimento de impotência, seguido de uma procura por culpados e uma “caça as bruxas”. Assim, o Estado autoritário se aproveita desse sentimento coletivo, constrói e direciona a insatisfação da população contra um inimigo em comum, fomentando o ódio. Nesse momento, a população, em busca por uma melhora, acaba cedendo e apoiando atitudes que não apoiaria em um momento de “clareza” social.

Fala!: Hoje o que se é vivido é bem diferente daquela época,  entretanto há um crescente aumento de apoio a líderes conservadores do ponto de vista social e à extrema-direita. Por que estamos vivendo um momento como esse, especificamente no que diz respeito à realidade americana?

H.B: Nos Estados Unidos houve uma estruturação político-empresarial-ideológica muito bem orquestrada, na qual o sistema político era tomado pelo setor econômico com suas enormes doações de campanha. Assim, empresários financiavam fortes candidatos republicanos e “submissos” candidatos democratas para os mais diversos cargos. Além de um esforço televisivo para ter contato com uma boa parte dos eleitores conservadores do “centrão” dos EUA, e direcioná-los para uma ideologia ainda mais conservadora, pregando uma realidade de ameaça constante e a forja de um inimigo superpoderoso, e quase imaterial, no terrorismo islâmico. Isso tudo culminou, de forma meio descontrolada, na eleição de Donald Trump – um “líder carismático”, que conseguiu angariar para si quase todo esse conjunto ideológico. Associado ao fato de não ser um “político comum”, ele se utiliza de um fenômeno que tem ocorrido mundialmente, a “crise de representatividade”, que o levou a ser eleito presidente dos Estados Unidos, por uma margem mínima dos votos do colégio eleitoral, mas que ainda assim o garantiu a vitória.

Fala!: Em “1984” existe apenas três grandes potências: A Oceania, Lestásia e Eurásia, as quais se encontram em uma guerra permanente sem motivo aparente. Qual o principal interesse político de se ter um inimigo externo? Para quem uma guerra permanente é favorável?

H.B: Havendo um inimigo externo, os questionamentos internos tendem a diminuir ou desaparecer. Os favorecidos nesse caso são, além dos políticos a favor da guerra, as empresas que produzem “esforço de guerra”, nos mais diversos campos, pois terão todo o apoio da população e seus lucros garantidos por muito tempo, por meio de contratos com o poder público.

Fala!: No livro, Winston, personagem principal da obra, trabalha no Ministério da Verdade. Sua função é alterar documentos históricos, desde livros didáticos a jornais e revistas de acordo com o interesse do Partido. O passado era moldado e a memória alterada, mostrando o quão perigoso é o conhecimento da história. Sempre houve uma tentativa de apagá-la? Como essa estratégia é feita hoje?

H.B: A história, como a conhecemos popularmente, já é fruto de um processo similar. O vencedor conta a história como melhor lhe convém, mas ainda existem muitas informações que servem de fonte para extensas pesquisas que contradizem muitas das linhas historiográficas mais conhecidas. Hoje em dia há um esforço, não de apagar completamente a história, pois é praticamente impossível com a realidade atual da internet, mas para desmerecer e deslegitimar as fontes que não interessam aos que estão no poder. Dessa forma, os fatos “de fato” não são suficientes, mas o que é usado são as interpretações manipuladoras e, em alguns casos mais graves, a total desconsideração da verdade. Mas em geral é uma propagação de uma interpretação parcial e incompleta dos acontecimentos.

Fala!: Em tese, com o advento da internet, a informação passou a ser melhor difundida. Entretanto, o número de notícias falsas e dados históricos alterados também passam a ser divulgados com uma rapidez muito maior que a de antes. Assim, a internet melhorou ou piorou o esclarecimento das pessoas, do ponto de vista político?

H.B: A internet facilitou a difusão de informações nos quesitos velocidade e acessibilidade, mas não nos quesitos qualidade e veracidade. No que tange ao esclarecimento político, fica muito pouco claro se ele ocorreu ou não. O que fica bastante claro é que a política se tornou pauta central ou quase central para muitas pessoas. Com o passar do tempo, pode render bons frutos, pois o interesse geral leva ao acompanhamento do assunto. E esse pode trazer uma compreensão de “melhor qualidade” dessa perspectiva. Quero crer que isso aconteça.

Fala!: Qual o maior ensinamento histórico de Orwell, ao escrever essa obra? E qual a função da literatura distópica para a História?

H.B: Acho que o maior ensinamento da obra é a facilidade de tangenciar o real com a distopia. Numa análise mais objetiva, percebe-se a concretude da crítica ali escrita e que, se não for levada em consideração, pode “facilmente” se tornar realidade. A literatura, não só a distópica, tem a função de ser fonte histórica, direta ou indiretamente. Ela pode ser objeto para a compreensão das mentalidades, da cultura, da política, da sociedade, enfim, de tudo o que for retratado na obra, cabendo à interpretação do historiador, com os métodos corretos de análise para integrá-las ao seu conjunto de fontes.

Sobre o Livro:

A história se passa em um megabloco chamado Oceania, ao qual a Inglaterra pertence. Esse megabloco é comandado pelo Partido, que é único e absoluto, tendo como líder o “Grande Irmão” (Big Brother, na versão original) – uma figura abstrata e máxima do poder. Ninguém nunca o viu pessoalmente, entretanto o seu rosto está estampado em diversos cartazes acompanhado pela frase “O ‘Grande Irmão’ zela por ti” ou “O ‘Grande Irmão’ está de olho em você”.

A população da Oceania é dividida em três partes. Em ordem de importância política, os membros do Núcleo do Partido ocupam o primeiro lugar, e são aqueles que estão no poder e exercem domínio sobre as outras duas camadas. Em segundo, estão os membros externos do Partido, que trabalham para ele, apenas executando suas ordens. Por último se encontram os “proletas”, que compõem a maior parte da sociedade, que possuem pouca instrução e são responsáveis pelo trabalho físico.

Winston Smith, personagem principal, é um membro externo do Partido, mora em Londres e trabalha para o Partido no Ministério da Verdade. Na prática, a função dele está muito longe do esperado. Winston altera documentos históricos, livros didáticos, jornais e revistas, de acordo com o interesse do Partido. “Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado”, diz uma das mais famosas frases do romance. Assim, o Ministério da Verdade não é simplesmente responsável por escrever mentiras, mas por falsificar a história e alterar a memória social de seus cidadãos.

Outra forma perversa de controle é exercida por meio de “teletelas”, aparelhos similares à televisão, mas que também tem o poder de filmagem. Elas se encontram em locais públicos e privados, impossibilitando qualquer tentativa de privacidade.

Em frente às “teletelas”, também acontece uma importante espécie de ritual: os “Dois minutos de ódio”, no qual as pessoas entram em um estado excessivo de raiva, vociferando palavras agressivas à imagem do suposto maior inimigo da nação: Emmanuel Goldstein. A crítica nesse ponto diz respeito à mídia, e não é difícil encontrarmos um paralelo atual com o que é visto nas redes sociais.

Nesse contexto, se o Partido pode espionar seu pensamento, ele também pode adaptá-lo. Além do duplipensamento, já citado anteriormente, bem definido pelo lema “Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força”, há outro método que busca moldar o pensamento humano. Esse método é estabelecido por uma nova língua, a “novafala” (Newspeak, na versão original). Ela se apresenta como uma limitação da linguagem, pois reduz ao máximo o vocabulário do indivíduo, dificultando um raciocínio mais complexo.

Assim que a história é apresentada, Winston é visto como alguém que passa a ter ideias que questionam o poder do Partido e do Grande Irmão. As coisas começam a mudar ainda mais quando ele conhece uma moça chamada Júlia, que tem uma personalidade que diverge dos demais. A partir do envolvimento amoroso entre eles (cujo Partido também proibia, assim como também exercia controle sobre as relações sexuais), uma série de acontecimentos desencadeiam o enredo de um dos maiores clássicos do século XX.

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