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Meu “amigo” imaginário

Por Camila Barros Brito, Celinne Nishimura, Elisa Campanario e Gabriela Rodrigues – Fala! Cásper

 

Eu não te conheço direito e talvez você nem exista, esteja só em minha cabeça, mas por favor, pare de fazer o que você está fazendo comigo.

Me lembro de ter você em mim no começo, como um amigo, como um irmão mais velho. Mamãe vivia tentando acalmar o papai, pensavam que já estava dormindo quietinho em meu quarto, diziam que era coisa da idade, esses amigos imaginários são normais, não fazem mal algum.

Gisele, a mulher que conversava comigo toda terça depois da escola, falou certa vez que um dia eu ficaria grandinho e que você teria que me dar adeus, porque já tinha me ajudado a crescer, a me desenvolver.

Lembro que depois disso, nesse dia, eu e você chegamos em casa aos prantos, eu andava de um lado para o outro que nem uma barata tonta atrás de mamãe, falando que não queria ficar sozinho, afinal, de todos os meus amigos, você era o meu único.

Depois cresci, fiz 10, 15, 20, 25, 30 e hoje faço 43 anos e você não me deixa! O que antes me assustava, hoje me mata. Não queria que você se fosse. Hoje só peço que saia da porra da minha cabeça! O que diabos você quer de mim?

Eu fui estúpido de pensar que a cada escolha que fizesse estaria me distanciando de ti. Pensei que quando saísse do fundamental o nosso “adeus” seria certo, não foi. Pensei que entrando no ensino médio estaria tão atolado de conteúdo que mal teria tempo e espaço para te ter em minha cabeça, mas não. Cresci, amadureci e achei que se escolhesse uma carreira estressante, não teria mais energia para lidar com você. Fui fazer medicina e a cada maldita cirurgia, você, com esse seu jeito impaciente vinha e me destruía. O que era pra eu fazer pra dar um basta? Me casei. Me casei cedo, com meus 24 anos.

Era de se esperar que uma mulher supriria essa minha solidão, e que talvez fosse essa solidão que tivesse te colocado em mim. MAS NÃO! Tive uma filha, mudei de cidade, andei com a minha vida, mas você andava comigo o tempo inteiro. Eu acordava e lá estava você ao meu lado, como se fosse minha mulher. Sentava para comer e você me vinha como um prato cheio de dores de cabeça. Remédio nenhum te tirava de mim.

Embora houvessem momentos em que não me sentia seu. Estes eram sempre de risco e de paz, esses momentos eram os melhores paradoxos que existiam pra mim. Mal descia na garganta a angústia, acabava sempre por engolir minha saliva a seco.

No primeiro, parecia até rir de mim. Com o segundo, sua voz já ganhava distância, terceiro, quarto. No quinto copo, não o sentia mais. Como era bom estar só. Mesmo sem total consciência, como era bom ser eu! Mas que diabos eu estou falando! Você nunca me deu a “liberdade” de me enxergar em meio a ti!

Eu ria sem me preocupar com a sua opinião, não ouvia mais seus malditos palpites, graças ao meu álcool barato até deitar sem você do lado eu conseguia. Virou mais que rotina, uma rota de fuga, uma válvula de escape. No balançar do mundo, no formigar da boca, no desfocar da vista e na leveza das ideias. Era ali que eu me encontrava, quando me perdia de você. A alegria ingênua de independência sumia com água gelada, pontapés ou tapa na cara de um filho da puta qualquer.

Acordava de fato? Aquele amigo virou meu pesadelo. O irmão que antes me ajudou a crescer, agora não vai embora, não importando o que eu faça com você, comigo. Isso é acordar?

Tentei a companhia: colegas, esposa, filha. NADA! Sentava na mesa entre muitos, até sumirem aos poucos restando você. Só você, tirando tudo de mim. Era sua presença ou a minha distração em ti que os afastava? É o que queria? A minha total atenção, dedicação… minha vida a você?

Enquanto alivio minha mente, mato meu corpo. Conseguiu me transformar nessa pilha de bosta que sou hoje. As águas de medo e dor pararam de fugir dos meus olhos cansados. O álcool invade minha boca e desce ao mais íntimo de mim, quente, dilacerante e isento de compaixão. Sem família, sem amigos, sem respeito ou pena. Tantas vezes me perdi nesse estado ébrio de solidão para fugir de você.

O pequeno comércio perto de casa virou meu destino de todos os dias, o vendedor já me esperava. Eu o ajudava financeiramente e ele me vendia os tragos que aliviavam minha dor. Sentia raiva quando, sem nem perguntar, o senhor já se gabava de sua família e eu me perguntava o que tinha feito de errado, o que tinha feito você me escolher e não a qualquer outro, todos pareciam felizes e você roubara essa oportunidade de mim. Era a fumaça entrando e saindo, mais natural que qualquer ar puro, que me tirava um pouco daquela angústia que virou parte da minha rotina. Era a mesma fumaça, entre goles quentes, tudo, ao mesmo tempo, queimando minha garganta, meu pulmão, queimando um pouco de mim, me deixando mais leve.

De trago em trago, cigarro em cigarro, maço em maço, conseguia um pouco do que eu mais queria, me sentir longe. Longe de você, longe de tudo, longe de mim, do eu que você criou, transformou, destruiu.

Mesmo quando andava pelas ruas, à procura desesperada de algum outro refúgio, os únicos momentos de alívio quando estava sóbrio consistiam numa tentativa de andar sem me preocupar, me desapegando de mim mesmo. Atravessava as ruas sem olhar para os lados, brincava como uma criança na beirada das pontes, isso era bom, me sentia superior a você, mas sempre vinha algum desgraçado tentar me impedir dessa pequena felicidade que beirava o meu, o teu, o nosso fim. Eles não sentem a sua presença também?! Se já se acomodaram, porque vêm me encher o saco? Quem eles acham que são para me ditar regras! Já basta você!

Ontem olhei para as pessoas pela última vez. Tentei observar de onde vinha a felicidade que elas tanto demonstram. Não entendi nada, pareciam robôs alheios às diversas realidades. Será possível que só eu calhei de ter que carregar comigo o peso de uma presença incômoda? De ser perseguido por uma consciência não arbitrária?

Quase cheguei a pedir a fórmula da felicidade para alguém, mas provavelmente iriam me estranhar como sempre, então desisti, desisti como faço agora e como fiz a vida inteira, desistindo de lutar frente a frente com você.

Cheguei há pouco na minha espelunca, onde tive que morar após ser renegado e renegar a todos que eu conhecia. São quase 6 da manhã e o sono me chama impetuoso, de outras formas além da cama, mas você me mantém acordado, não sendo mais um incômodo, mas uma perseguição maligna que só me faz sofrer e não me dá outra escapatória. Até algumas horas atrás eu tentava me distrair estando no meio do outros, mas as pessoas foram sumindo, indo cada um para um lado, deixando apenas as sombras de seus próprios medos. Percebo agora que não sou o único a ter uma sombra que não a minha, a única diferença é que eu senti a sua presença ao invés de ignorá-la.

Tempo, meu caro, foi uma merda sentir teu peso em mim. E é por isso que hoje eu morro e você sobrevive.

 

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