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Entre devaneios – um desabafo pelo jornalismo moderno

Por Thomás Augusto – Fala! Cásper

 

O sol nasce. Abro os olhos, mas logo percebem-se as olheiras. Como dormir num mundo tão caótico e frenético como nos dias de hoje? O mundo não para. São tantas notícias que chegam voando de todos os quatro ventos, que nem tenho mais tempo de absorver tudo que acontece por aí.

Mas de 140 caracteres por vez, eu até consigo ter uma noção do que está acontecendo pelo globo.

Ah, esses pequenos momentos de paz. Como é bom poder parar um pouco e somente pensar sobre as coisas. Porém, logo ao me levantar e olhar a rede, já sei que essa serenidade que me cerca vai acabar.

A correria já me bate quando levanto da cama e tenho que me apressar para chegar no horário do trabalho. O trabalho. Esse que nunca acaba e que os segundos parecem ser mais importantes do que a própria qualidade daquilo que estou fazendo, porém, chego para labutar mesmo cansado disso e perdendo para o relógio.

Atrasado. Estou sempre atrasado. Uma luta constante contra o relógio e parece que nunca vou vencer essa batalha. Aliás, como vencer algo que não existe, mas que parece controlar nossas vidas? Ah, mais um devaneio.

Adoro esses instantes de intervalo que consigo parar para respirar e refletir um pouco. São desses poucos pensamentos que me subsisto dentro dessa fábrica de notícias.

Hoje estou pensando tanto que sinto ter sido personificado, como se estivesse falando diretamente com alguém depois de muito tempo.

– “Ei você, ainda consegue me ouvir?”

Mas, espera. Quando que parei de dialogar com meu interlocutor? O que aconteceu comigo? Quando comecei a me importar mais em noticiar do que dar a melhor notícia? Será que hoje eu somente trato o interlocutor como uma simples lata de lixo, em que vou enchendo de várias informações inúteis para ver o meu trabalho se encerrar mais rápido?

Desculpe.

Não tenho o luxo para ficar pensando em coisas assim. O trabalho me espera. Nesse tempo que fiquei pensando, já perdi a conta de quantas notícias deixei de dar.

O que está acontecendo comigo?

Sem mais nenhuma pausa, volto para a linha de produção e tento compensar pelo tempo
perdido, porém, algo me incomoda. Acelero ainda mais o ritmo e a angústia somente aumenta.

No fim do expediente estou completamente esgotado. Mas não desse tipo que você está pensando. Estou esgotado mentalmente e, para ser sincero, já faz um tempo que me sinto assim. Preciso de algo que me distraia desses demônios que eu mesmo criei.

O cinema.

Um filme parece algo mais do que suficiente. Assistir mais um desses filmes, feitos por mais uma indústria voltada exclusivamente para o entretenimento.

Ao entrar no recinto para escolher a distração da noite, me deparo com um cartaz de um tal de Spotlight, que aparentemente ganhou o prêmio de melhor filme da academia. Grande porcaria. E parece que ainda tem a audácia de tentar fazer um filme sobre mim. Compro o ingresso justamente para ver a piada que será.

Sento na poltrona, me atualizo das últimas notícias e me desconecto do mundo enquanto mais filmes inúteis estão se vendendo. De repente, vem a escuridão e, antes que a abraçasse num ato de desespero, com ela sou sugado para dentro da tela.

Hipnotizado. Esse é o estado que me encontro durante as mais de duas horas de filme. O tempo que sempre está a minha frente perdeu essa batalha. Em transe, o que me despertou foi um clarão. Uma luz que permeou a sala, mas que parece ter permeado minha alma.

Já de volta ao meu estado normal, volto caminhando para casa. E nesse entremeio, sou permitido mais uma vez a pensar.

Spotlight, um filme que trata sobre jornalismo, mas obviamente romantizado e idealizado. Ah, quando deixei isso de lado? Antigamente era tudo muito mais fácil. O volume de informações era bem menor e de fato sujávamos os sapatos correndo atrás das matérias. Hoje em dia, ficamos enfurnados em cubículos e o máximo de apuração que fazemos é uma busca no Google, e quiça o fazemos por meio do telefone.

Quando foi que tudo isso mudou? Essa essência tão bem extraída do filme de se fazer jornalismo é o que me falta.

Não, aquilo que perdi.

O irônico é que o próprio filme trata disso, já que tiveram a chance de fazer a reportagem antes, porém deixaram-na de lado. Acho que o importante é encontrar o seu caminho mesmo depois de se perder, e fazer o que considera certo no final das contas.

Ah, finalmente em casa. Estou cansado demais para pensar ou fazer qualquer outra coisa. Vou direto para a cama, me deito e fecho os olhos. De algum modo toda aquela angústia no peito parece sumir por um segundo, mas eu sei que ela irá voltar.

E que volte. Dessa vez ela será menor.

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