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CRUSP: Uma História de Ocupações

O projeto original do CRUSP, de 1963, é do arquiteto Eduardo Knesse e contava com a construção apenas 6 blocos. Os prédios seriam afastados uns dos outros, criando, assim, espaços de vivência para os futuros uspianos alojados. A construção foi inteira feita em tijolos pré fabricados, o que barateou o processo e possibilitou a construção de 12 blocos, o dobro da ideia original. O plano estabelecia que o alojamento serviria para abrigar atletas e delegações vindas para os Jogos Panamericanos de 1963 e depois seria liberado para a moradia dos estudantes.

crédito - divulgação USP
Foto: divulgação USP.

 

Porém, após o jogos, o CRUSP foi esvaziado e fechado pela reitoria. Foi quando surgiu a primeira ocupação dos prédios em 1964, liderados pelo estudante Rafael Kauan, cerca de 12 alunos ocuparam 2 andares do bloco A. Por conta dessa minoria, o CRUSP, como conjunto residencial estudantil, passou a existir. Para a administração dos prédios cria-se o ISSU (Instituto de Saúde e Assistência Social da USP), pela universidade, e a AURK (Associação de Universitários Rafael Kauan, em homenagem ao estudante, morto após 3 meses da ocupação) pelos moradores.

Durante os primeiros anos do período militar, o CRUSP foi sede de reuniões do movimento estudantil e da guerrilha urbana de São Paulo. No térreo ficavam as sedes do DCE (Diretório Central dos Estudantes da USP), da UNE (União Nacional dos Estudantes) e do próprio AURK. Em dezembro de 1968, ano da promulgação do Ato Institucional 5, houve a invasão da moradia pelos militares. Os presentes tentaram resistir porém a repressão foi extremamente violenta e cerca de 800 pessoas foram levadas. O CRUSP foi desocupado e mantido fechado.

Passados 10 anos, em 1979, momento de abertura política e anistia internacional, o CRUSP foi sendo retomado pelos estudantes. Ocorreram sucessivas ocupações para a reiteração dos blocos e, o que antes era o ISSU, chama-se agora COSEAS (Coordenadoria de Assistência Social).

Em 1984, durante uma festa, dois estudantes começaram a brigar e acidentalmente acabam caindo do 4º andar de um dos blocos, ocasionando a morte de ambos. O caso repercutiu negativamente em toda mídia nacional e a reitoria ordenou a desocupação dos prédios. Em oposição, os moradores criam o órgão AMORCRUSP, para renovar a organização do CRUSP, reivindicar a permanência da moradia e promover a manutenção dos prédios, pois se apresentavam degradados após o abandono de 10 anos. É feito um acordo entre a reitoria e o AMORCRUSP, promovendo uma reforma emergencial em troca de maior controle do COSEAS na moradia, o qual impôs medidas meritocráticas para a obtenção das vagas (permanentes, de certa forma, até hoje), o que causou polêmica entre os moradores e demais estudantes. Em 1996, a COSEAS foi ocupada em uma manifestação contra a burocracia imposta pela Coordenadoria.

Em 2007, durante a ocupação da reitoria, a chapa eleita do AMORCRUSP reivindicou medidas de assistência aos estudantes, como abertura de mais vagas com a construção de mais um bloco, abertura do bandejão e os ônibus circulares ativos, aos finais de semana. Em 2010 houve o movimento “Moradia Retomada”, no qual os moradores ocupam a sede administrativa do COSEAS novamente, em repúdio a manutenção dos departamentos de administração dentro do campus.

Recentemente, no inicio do mês de abril, a sede do SAS (Superintendência de Ação Social, antiga COSEAS) foi ocupada mais uma vez. O movimento ocorreu após um caso de agressão dentro da moradia. A ocupação foi devido a falta de diálogo com a própria SAS, que mantém arquivados outros vários casos de agressão. “A gente tem que se manifestar sobre essas agressões sim, porque senão elas vão continuar passando impunes” diz Bruna Martins, estudante da USP e atual moradora. No início de maio a sede da Superintendência foi desocupada frente a um acordo com a reitoria para apurar os casos de violência contra mulheres na moradia, com o regulamento feito de forma independente aos órgãos burocráticos da USP. No entanto, de acordo com Verônica, parte da atual gestão do AMORCRUSP e também participante do OKUPASAS, a reitoria já está descumprindo o acordo ao indicar professoras e funcionárias para a comissão de julgamento, sendo essas ligadas à reitoria e a SAS.

crédito - João Roberto Laque

Durante toda a sua história, o CRUSP lutou pela sua existência e melhoria, muitas vezes contra o descaso e a burocracia da universidade. As ocupações fazem parte do seu aparato de resistência. Casos como o de violência às moradoras e falta de vagas, uma das pautas presente em praticamente todas as ocupações, serem negligenciados e, pior, omitidos, é algo problemático e que não pode ser silenciado. O CRUSP carrega a essência de faculdade pública da USP, de forma à melhorar as condições de alguns alunos. Morar nele é viver, de fato, a universidade, e ter contato com vários indivíduos e histórias diferentes. A segurança e a possibilidade de permanência dentro do CRUSP por alunas e alunos, os quais necessitam da vaga na moradia, não é nada mais que obrigação da reitoria e administração da universidade.

okupa
Foto: Facebook/Okupa SAS

 

Confira também o documentário sobre o CRUSP, disponível no YouTube:

Por: Amanda Negri – Fala!USP

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