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Se pudesse falar com pessoa, com almas que não as minhas

Por: Gabriela Belintani – Fala! Cásper

 

Me pedem uma definição, uma definição de mim mesma, mas a verdade, é que tudo aquilo que defino, limito. É pedir demais por não me definir, por ser um eu sem limitações? Não quero me adequar a nenhum adjetivo a nenhuma classe gramatical, a nenhuma palavra ou sentença completa. Não sou o que penso que sou. Mal sei aquilo que serei.

Mas há algo em mim que se remexe, que reivindica importância, balança. Há um vazio tão grande que faz com que minha alma se contraia, rasga as minhas entranhas. Minha alma não cabe em meu corpo. Preencho meu vazio com buracos, e às vezes, bem às vezes me pego pensando: será minha alma muito grande, ou meu corpo pequeno demais?

O mundo vai contra mim. Me põe medos que não são os meus, me dá dó tamanha hipocrisia. Em meio a tanta diversidade e mudança, as pessoas optam pelos caminhos mais fáceis. Muitos sofrem por não se adaptarem a obviedade hipócrita da sociedade e levam uma vidinha de merda. Bem sucedida, mas infeliz.

Será crescer sinônimo de amadurecer, ser menos estúpida? Não devo ser apavorada enquanto crescida, nem cheia de alarde. Aparentemente o correto é ser menos eu. Não posso ser paranoica e feliz enquanto crescida. Falam que ninguém é normal, e se normal, é se importar tanto a ponto de não fazer insanidade alguma, eu desisto.

Eu sei, escrevo demais, penso demais e não chego a conclusão alguma.

Sinto que de certo modo, tudo o que penso e procuro “externizar”, se perde, perde seu direito de existir. Se falo algo, deixo de sentir, se digo que amo, deixo de amar um pouco. Ao gastar as palavras, estou gastando para além de seu significado. Além de seu corpo, sua essência. Meio que o que fazemos com uma borracha. Quando apago, tiro dela um pouco do tempo que ela continuará a apagar.

E é assim, sempre que escrevo, acabo por me perder, perco o propósito, perco a mim mesma em meio a linhas e escrita. Me perco tanto, que nem sei mais meu nome, sou só caneta e tinta. Mais mancho que escrevo. Ao decorrer de tudo deixei de ser linha, virei traço, rabisco de raiva que afunda no papel branco, sou daqueles esboços que por mais que tente apagar, deixou uma marca. Sou uma ebulição constante de milhares de moléculas a procura de entender minha própria existência. Sou uma criatura perturbada pelo fato de coexistir sem nenhuma resistência.

E cá estou eu, deixando de escrever, só desenhando palavras. Na verdade, as palavras sempre estiveram aqui, só pinto. Contraditório. Mas o que não é? Todos que vivem, são vida que carregam em si o peso da morte. Tente explicar a uma criança o que é morte sem dizer vida.

Somos tão pequenos, não somos nada comparados a vastidão do que nos é desconhecido, mas paradoxalmente, sou meu tudo, meu universo, minha vastidão própria.

Certa vez, quando era mais nova, meu avô me contou uma história. Teseu, o herói ateniense, foi para sua missão com um navio e uma embarcação. Ao longo de sua odisseia própria, todas as peças de seu navio foram gradativamente trocadas, a ponto de nenhuma peça ser a mesma de quando embarcou pela primeira vez. O navio mesmo assim é o mesmo? Se eu pegasse todas as peças que descartei e montasse um outro navio, e colocasse os dois agora, lado a lado, qual é de fato o navio de Teseu? Você é o navio de Teseu. Não há em ti uma célula sequer que seja a mesma de quando você nasceu. Isso faz de você uma outra pessoa? Uma pessoa sujeita sempre a ser alguém que não o seu “eu” de agora?

Eu não sei nada e essa nada saber faz de mim nada? Um nada que se acha gente, um nada que se acha diferente, um nada que quer fazer tudo e não faz nada.

Talvez tudo isso, tudo o que não consigo justificar em mim, talvez todo meu subconsciente, todos meus medos, meus anseios, sejam resquícios de almas as quais um dia já fui e nunca deixei de ser.

De tudo em mim só quero entender uma coisa: como pode ser que eu, que eu sou, antes mesmo de ser, nada era. E que uma vez o eu, que eu sou, nunca mais ser.

 

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