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O cinema de São Paulo como exceção cultural

Por Beatriz Gimenez – Fala! PUC

 

O difícil acesso e a falta de opção para cidadãos periféricos.

São Paulo pode ser considerada um polo cultural. Seu grande número de museus, exposições, teatros, casas de espetáculos e centros culturais torna a cidade única e atraente para pessoas de todo o país. Porém nem sempre esses eventos são acessíveis a todos, e um grande exemplo é o cinema.

 

Cinema no polo cultural de São Paulo

“A região da Paulista foi uma ‘Cinelândia’ de S. Paulo, depois da região central (Av. Ipiranga, S. João etc.) e antes dos cinemas de shopping. Hoje, a região da Paulista é conhecida por salas para filmes de arte, como o Espaço Itaú de Cinema, Frei Caneca, Reserva Cultural, Sesc e Caixa Belas Artes”, diz o professor pesquisador na área de Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), Herom Vargas Silva. A presença de filmes considerados cult ou de produções independentes, é maior na região, sendo fácil encontrar obras de nacionalidades variadas e temas diversos.

Danilo Godoy, diretor e roteirista, diz que “se criou um polo de exibidores independentes ao redor da Paulista”, assim como também existe o Museu de Imagem e Som (MIS), no Jardim Europa, e a Cinemateca de São Paulo, na Vila Mariana. “São Paulo tem uma gama muito ampla de filmes e de temas, desde drama, dramas LGBT, comédia, filmes de ação. Acho que realmente tem de tudo em São Paulo, um pouco para cada público”, afirma o diretor.

Porém o preço dos ingressos dificulta a ida ao cinema de muita gente. “Eles [os ingressos] são caros e isso tem levado o cinema a se tornar um entretenimento caro para muita gente. Muitas pessoas não vão ao cinema, sobretudo das periferias ou comunidades. É uma grande diferença do cinema de décadas atrás, diversão eminentemente popular e acessível a muitos. Sem falar no fato de que ir ao cinema hoje significa ir ao shopping, onde há outros gastos”, diz Vargas. Porém, Godoy mostra como o diretor nem sempre é o culpado a partir de um exemplo: “eu, como diretor do filme, não tenho dinheiro pra passar [meus filmes] em um Cinemark”, sendo suas únicas opções, os cinemas de filmes independentes da Paulista. “Acho que isso também tem que partir do interesse do realizador. Se o meu filme tem um impacto que seria interessante na periferia, vamos então agilizar exibições fora do tradicional, não ser mais aquela coisa de ‘cinema escuro, paga ingresso, compra pipoca’. Vamos pegar uma escola, colocar um telão e exibir o filme. Fazer realmente um outro percurso do cinema”, afirma.

Sala Espaço Itaú de Cinema

 

 

O curta-metragem em São Paulo

O curta-metragem, por apresentar um tempo muito mais curto de conteúdo, era utilizado, inicialmente, no mundo das histórias de humor, como herança das comédias mudas de Chaplin, evoluindo para as sitcoms (cenas curtas de comédia falada que se passam em ambientes comuns do dia-a-dia) e depois para os comerciais televisivos. Desde os anos 50 o curta passou a ser visto como uma matéria acadêmica e, na década de 70, surgiu a “Lei do Curta”. Criada pela Associação Brasileira de Documentaristas (ABD), ela apareceu para criar um mercado de produção e distribuição de curtas-metragens mas, mesmo assim, ainda faltava um mecanismo de exibição desse conteúdo para o grande público, o que culminou na inviabilidade da lei em 1990. Isso permanece até hoje, como ressalta Godoy: “curta-metragem não tem valor mercadológico, é realmente experimentação e é um formato que, aqui no Brasil, as pessoas usam mais como se fosse a sua vitrine para como você é como diretor (…) Então, não é prioridade porque não tem onde assistir, é mais um coisa que você coloca na rede, na internet, ou para festival. Isso existe. Um grande circuito de festivais de curtas-metragens”, eventos que estão em todos os estados brasileiros.

Também em 1990 foi criado o Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo (Kinoforum), o representante dos eventos de curtas na cidade, que se mantém até os dias atuais. Como um dos maiores eventos ligados a esse recorte do cinema e apresentando curtas-metragens de diversos gêneros, ele expõe gratuitamente suas obras em diversos cinemas da cidade de São Paulo, em áreas desde a Oscar Freire, conhecida como a rua mais cara da cidade, até o bairro Brasilândia, um dos mais violentos de São Paulo, em Centros Educacionais Unificados (CEUs). Infelizmente, esse evento é um exemplo único no estado e de difícil acesso a pessoas de outras cidades devido à distância. A falta de divulgação do Kinoforum para o grande público também faz com que os curtas-metragens fiquem cada vez mais para trás no cinema brasileiro, já que as principais empresas na área, como Cinemark e PlayArte, somente reproduzem longas-metragens.

 

As grandes redes de cinema

As redes de cinema como Cinemark ou PlayArte estão presentes, em sua maioria nos centros comerciais. A falta de outros tipos de cinema em cidades periféricas, em relação a São Paulo, torna essa a única opção dos moradores dessas regiões.

Bruna Florence de Moura, 19 anos, estudante de Letras na Universidade de São Paulo (USP) e moradora de Santo André, região do ABC, sente o reflexo desses fatores no seu cotidiano por procurar sempre cinemas perto de sua casa, como aqueles do Atrium Shopping e do Grand Plaza Shopping. A estudante, que diz perceber a força dos filmes comerciais nessas empresas, reforça a ideia de que esses cinemas não atendem suas necessidades. “Em geral, principalmente se tratando do Atrium, que é um cinema novo, a estrutura é excelente, os preços são acessíveis, porém é um cinema que busco quando a intenção é apenas diversão por diversão”. “Em se tratando de filmes legendados, cults, ou de menor público, dificilmente encontro em cartaz. Quando isso acontece, me vejo obrigada a me deslocar para São Paulo, para cinemas como o Itaú Cultural, Reserva Cultural, entre outros”.

Porém ir para outra cidade em busca de cultura nem sempre é uma tarefa fácil. “A dificuldade do deslocamento até São Paulo, pagar o transporte, além do preço do cinema, que é outro, tudo isso agrava o acesso, fazendo do cinema uma atividade com maior custo do que deveria e, portanto, dificultando o acesso”, diz Bruna, que assume já ter deixado de assistir a certos filmes devido a esse empecilho. Para ela, a principal prejudicada é a população: “é privar as pessoas do acesso à cultura, uma vez que a população é impossibilitada de ter acesso a um conteúdo, e só um pequeno público tem. Acredito que haja uma espécie de ‘segregação’ entre os que têm acesso e os que não têm. E isso em um país em que o acesso à cultura é garantido em Constituição, deveria ser inadmissível”.

Vargas completa a ideia ao alegar as consequências dessa condição na sociedade: “o reflexo disso é o cinema se tornar mais elitista, o acesso reduzido, o atendimento (em termos de gosto e gênero cinematográfico) cada vez maior às classes média e alta”.

Ainda assim, as grandes redes de cinema procuram ao máximo deixar claro que valorizam, sim, os diferentes tipos de cinema, inclusive o nacional. Em 2000, o Projeta Brasil Cinemark foi criado em comemoração ao Dia do Cinema Nacional, com o objetivo de valorizar as produções cinematográficas brasileiras. Reservando uma segunda-feira do mês de novembro, a empresa exibe filmes nacionais em todo o país pelo preço simbólico de R$3,00.

De acordo com o site da rede, “a iniciativa está ligada a outros projetos da empresa para aumentar a participação da produção nacional nas bilheterias da rede e, ao mesmo tempo, reaproximar o cinema brasileiro do grande público”. A renda líquida total, por parte da empresa, dos distribuidores e dos produtores, é direcionada ao apoio de projetos ligados ao cinema nacional.

“As 13 edições realizadas do Projeta Brasil já levaram aos cinemas mais de 2 milhões de pessoas e distribuíram mais de R$ 2.300.000,00 em prêmios e incentivos”, garante o site. De acordo com Godoy, “não só o Cinemark, como outros multiplex, têm isso, mas é muito mais uma questão de cumprir uma cota”. No Brasil, uma certa porcentagem de filmes reproduzidos pela empresa deve ser nacional. “Aí você entra em uma questão de cotas, se é benéfica ou não”, afirma. Para ele, é um programa promissor que deveria ocorrer mais vezes. “É melhor ter do que não ter”, ressalta Godoy.

Além disso, o professor Vargas acredita que o projeto seja uma jogada de marketing, que também cumpre a cota de filmes brasileiros necessária. “Cinemark não valoriza o filme nacional porque sempre há muito mais filmes dos Estados Unidos e blockbusters do que nacionais. Essa promoção é pra fazer a imagem da empresa. E são filmes com razoável sucesso. Nunca passam filmes de pouco apelo comercial. Se for em dia de semana, percebe-se que o objetivo é diminuir a ociosidade, cumprir alguns dias por ano com filmes nacionais na tela ou outra coisa qualquer”, afirma o pesquisador.

 

Os filmes nacionais nas escolas

No dia 27 de julho de 2014, a então presidenta Dilma Rousseff e o ministro da Educação, José Henrique Paim, assinaram uma lei que tornava obrigatória a exibição de filmes de produção nacional em, no mínimo, 2 horas por mês. A medida, publicada no “Diário Oficial da União”, torna componente curricular não somente o cinema brasileiro, como a música, o ensino da arte, especialmente suas expressões regionais, e o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena.

Em se tratando de cinema, o professor Vargas acredita que este deve ser um trabalho a longo prazo, começando com o incentivo à produção, resultando em mais filmes para pôr na tela. “Filmes nacionais na escola também é legal para acostumar as crianças à narrativa do cinema brasileiro. Mas ainda é pouco. Ideal seria incorporar o cinema na sala de aula, passar o filme dentro de determinado contexto pedagógico em que a linguagem também fosse discutida. Como uma forma de ‘alfabetização’ cinematográfica!”.

E é isso que a professora de português, tanto de escola quanto de cursinhos preparatórios para vestibular, Maria Alice Amaro realiza com suas turmas. Ela entende que as produções hollywoodianas presentes em massa nos cinemas voltados ao mercado “são de fácil entendimento, possuem o apelo mais popular – a comédia, o filme de ação, etc. Assim sendo, atraem o público que busca entretenimento apenas; não vai ao cinema atrás da arte ou da reflexão” e que não são todos que têm acesso à esse tipo de cultura. “O reflexo disso na sociedade é o aumento do abismo entre os que podem conhecer e os que não podem, porque não têm acesso.”, sendo um “círculo vicioso que não tem fim”, pela falta de políticas públicas que lutem contra isso, diz Amaro.

Dessa forma, a professora traz para sala de aula filmes de diferentes gêneros e nacionalidades para serem analisados em conjunto pelos alunos. “É preciso mostrar o que o aluno não conhece: esse é o papel primordial da educação – abrir caminhos, gerar conhecimento, proporcionar escolhas. Não há como escolher se o educando não tiver noção de outras possibilidades fora de seu circuito de conhecimento. Já trabalhamos ‘Edifício Master’, ‘O Riso dos Outros’, ‘Ilha das Flores’, ‘Os Narradores de Javé’, entre outros”.

 

População periférica produz sua própria cultura

Com a exclusão da população periférica e mais pobre ao acesso à cultura do cinema, é necessário pensar em métodos alternativos para fazer com que as obras cheguem a todos os cantos do Brasil. Dessa forma, projetos como o CineB são criados.

Realizado pelo Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região, e produzido pelo Brazucah Produções, o CineB é um circuito alternativo de exibição de filmes brasileiros de forma gratuita em espaços comunitários e universidades locais. O projeto conta com telão, projetor, caixas de som, banners, pesquisas de opinião e sorteio de camisetas do projeto, e já levou, desde 2007, mais de 150 curtas e longas-metragens para mais de 53 mil pessoas em, aproximadamente, 400 exibições.

A periferia também é fonte de cultura. Seus moradores são responsáveis por inúmeros projetos, entre eles, a mostra “Cinema de Quebrada”. As comunidades brasileiras já apareceram nas telas de cinema buscando mostrar a realidade das pessoas que ali vivem, mas esse projeto coloca a favela atrás das câmeras, explicitando a visão de um morador em relação a sua própria vida na periferia.

O evento, que ocorreu, no ano de 2016, do dia 21 de janeiro a 31 de março, no Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), contou com temas como: luta por moradia, cultura negra, a relação entre vídeo, arte e política e produção audiovisual, em gêneros como documentários, ficções e filmes experimentais. Os filmes foram todos produzidos por ONGs ou coletivos independentes de moradores de comunidades principalmente paulistas.

 

Um cinema ideal

Em uma realidade em que a cultura é facilitada para uns e dificultada para outros, procurar soluções é o melhor remédio. Para Bruna, a divulgação e o financiamento são armas essenciais para a disseminação da cultura cinematográfica. “Acredito que, se os filmes mais cults fossem mais divulgados (como acontece com os filmes comerciais), geraria, sim, interesse do público, afinal, a grande massa sequer tem conhecimento do conteúdo exibido em filmes da Grande São Paulo. Ampliar a divulgação, além de ajudar no rendimento de filmes cults, democratizaria algo que hoje, vejo ser tão restrito e seletivo.”

Diversos projetos que existem hoje lutam por um “cinema para todos”, mas nem sempre é o mesmo tipo que alcança toda a população, sendo necessário um trabalho constante. Atualmente, a falta de incentivo resulta na falta de acesso, o que limita, para a sociedade, um dos direitos mais essenciais: a cultura. De acordo com a professora Amaro, o essencial seria que o cinema “fosse democratizado; que não veiculasse o mesmo tipo de produção. Que se lembrasse que cinema é arte e deve gerar reflexão. O entretenimento é válido, mas arte vai além disso.”

 

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