Rosa Neon: mais que uma banda, um coletivo multimídia
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Rosa Neon: mais que uma banda, um coletivo multimídia

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A banda mineira Rosa Neon apostou em uma estética bem trabalhada para criação de sua identidade e usou os clipes como meio de divulgação

Em algum momento de 2008 eu e minha família estávamos viajando para o interior de Minas Gerais para visitar um tio. Meu pai alugou um carro em BH e de lá saímos com destino a Rio Vermelho, foi minha primeira viagem realmente longa de carro.

Eu lembro que passamos por várias cidades do interior de Minas e foi muito legal ver a diferença de todas elas. Até que, no final do dia, dormimos em uma que foi a minha favorita, Serro. Serro é aquela cidade de interior clássica com ruas de paralelepípedo, uma igreja no alto e a cidade ao redor é um lugar encantador e foi uma das melhores partes da viagem.

Após 10 anos, Serro uniu Marcelo Tofani , Luiz Gabriel Lopes, Marina Sena e Mariana Cavanellas, agora ex-integrante do conjunto. O distrito de Milho Verde, localizado em Serro, promoveu uma espécie de inverno cultural e foi lá que todos os integrantes se encontraram e criaram a Rosa Neon. A partir daí, Rosa Neon, um coletivo multimídia como gostam de ressaltar, lançou 9 clipes, 1 álbum e conta com duas turnês, uma turnê nacional e outra internacional pela Europa. Eu bati um papo com o Marcelo Tofani e ele contou mais um pouco sobre como as coisas aconteceram e os próximos passos que eles querem dar.

Foto: Eliza Guerra
Banda Rosa Neon. | Foto: Eliza Guerra.

Entrevista com Marcelo Tofani

Daniela de Jesus: Me conta como surgiu o Rosa Neon e como vocês chegaram na formação atual de trio.

Marcelo Tofani: Eu e o Luiz estávamos com a nossa turnê Capiau Elétrico e nossa primeira parada foi em Milho Verde, lá estava acontecendo tipo um inverno cultural da cidade. A Marina Sena estava com a “Outra Banda da Lua” e a Mariana Cavanellas, que fazia parte do Rosa Neon, estava com a “Lamparina e primavera”, que são os outros projetos delas. Nós nos conhecíamos de outros rolês da cena e nisso aconteceu da gente cantar uma música que a Marina tinha feito chamada Rosa Neon. Quando começamos a cantar, abriu uma harmonia, foi a coisa mais louca do mundo, arrepiamos na hora e até eu que não sou muito hippie senti que aquilo estava diferente. No outro dia, eu, o Luiz e a Marina compomos Estrela do mar e foi nesse momento que percebemos que tínhamos que criar a banda, mas ficou aquela dúvida porque todo mundo já estava com os seus outros projetos. Eu era solo antes disso e nunca pensei em ter uma banda porque “trampar” com mais gente é difícil, lidar comigo já é difícil, imagina mais pessoas. Mas, no final, foi a melhor coisa que a gente fez, temos muito orgulho de tudo que já lançamos. 

No meio desse processo rolaram várias coisas, a Mariana Cavanellas que fazia parte da formação inicial decidiu sair do projeto muito amigavelmente. Ela precisava focar no trabalho solo dela, em outros projetos pessoais e ela teve a filha dela que é uma nenenzinha linda. Durante a gravidez, a gente sugeriu uma pausa, mas amigavelmente ela acabou resolvendo focar no projeto solo, que inclusive é muito bom.

DJ: Você falou que logo no segundo dia vocês já estavam compondo Estrela do Mar, que foi a segunda música que vocês lançaram. Como que funciona esse processo de composição das músicas do Rosa Neon?

MT: Nós compomos das mais variadas formas. Os três são compositores, então, a maioria das músicas compomos juntos, e o processo é muito variado. Compor, no geral, pode acontecer de várias maneiras, mas no Rosa Neon acontece de maneira imersiva, principalmente no início do projeto. O Luiz morava em São Paulo, Marina, em Montes Claros, e eu e Mariana, em BH, não dava para fazer como a maioria das bandas fazem, que geralmente todo mundo mora na mesma cidade e se encontra uma vez na semana para ensaiar, então, as imersões foram a solução. Todo mundo comprava a passagem e íamos todos para um sítio aqui na região e ficamos umas duas semanas lá. Compondo as próximas músicas, gravando os próximos clipes, ensaiando para uma turnê. Como estávamos concentrados em só fazer arte a anteninha da sensibilidade estava ligada e conseguimos compor a maioria das músicas dessa forma. Com Estrela do Mar, todo mundo estava na cachoeira, o Luiz pegou um caderninho e falou para cada um de nós escrever uma frase, sem comprometimento com o tipo de rima, como que ia ser a melodia, só escrever a frase como cada um achava que faria “sentido”, ou não, com a frase anterior. Estrela do Mar saiu assim, com cada um escrevendo um verso no caderno, no Rosa, o processo sempre é bem colaborativo. 

DJ: O Rosa lançou 9 clipes juntos com os singles antes de sair o álbum completo. Como vocês planejaram isso?

MT: No clipe de Fala lá pra ela, que foi o primeiro, algum louco ou louca deu a ideia da gente fazer um por mês. Aí a gente, louco, achando que era a Anitta só que independentes e sem o dinheiro decidimos ir nessa. Entrar nessa loucura de ter lançado uma música por mês junto com o clipe foi uma das melhores coisas. Essas músicas fazem sentidos sozinhas, claro, mas fazem muito mais sentido com o clipe.

Gostamos de falar que o Rosa é um coletivo multimídia porque a nossa equipe de vídeo e foto são tão importantes como qualquer um de nós na identidade e na estética do projeto. Lançar uma por mês foi legal porque criou uma ansiedade no público meio novela, e fez cada um ter uma relação particular com cada música. Não ficou aquela de lançar, despejar um disco de uma vez de 13 músicas e a pessoa ver as 3 primeiras, e depois ficam várias músicas perdidas. 

Eu gosto de fazer essa analogia, é como no seu primeiro dia de aula, você chega na sala e tem 20 pessoas na sala, você é apresentado para todas ao mesmo tempo – acaba que 15 pessoas você mal conhece, 5 são seus amigos, e 15 você mal conhece. Mas se você fosse apresentado para essas pessoas, cada uma particularmente, tenho certeza de que você desenvolveria uma relação, mesmo que seja de ódio, com cada uma porque você conheceria muito mais delas. E acho que rolou isso com as músicas do Rosa, o público acabou conhecendo todas e não ficaram músicas para trás naquele limbo do álbum. Depois, no álbum, juntamos mais duas inéditas com as lançadas porque as músicas têm muito sentido juntas também. 

DJ: A Rosa Neon tem uma estética muito bem trabalhada, nas divulgações e nos clipes. Quais são as referência de vocês? Tanto musicais quanto estéticas.

MT: Esteticamente falando temos duas pessoas, claro que acaba envolvendo mais gente no processo, mas duas pessoas que são fixas na equipe e são integrantes maravilhosos e talentosos. O Vitor Soares que é o videomaker, diretor dos clipes e faz algumas direções de arte, que não são dos clipes necessariamente. E também a Sarah Leal que faz direção de arte e é fotógrafa. Claro que nesse caminho trabalhamos com outras pessoas maravilhosas, tem a Belle Melo que fez alguns clipes com o Vitor, eles têm influências muito diversas. Eles são de Montes Claros, então, além de trazer as referências que a gente já teria normalmente por tudo que a gente é bombardeado, eles também têm uma parada diferente do norte de Minas, um tempero muito singular, uma identidade forte. E musicalmente gostamos de canção. Tudo que é canção popular, brincamos que é de Marilia Mendonça a Björk, Justin Bieber a Caetano Veloso. Tudo é influência para a gente e eu acho que o maior pilar de ligação é a canção pop, não necessariamente o gênero pop, também ele, mas a canção popular.

DJ: Como foi que rolou a parceria com o Djonga em Vai devagar?

MT: Eu conheci o Djonga uns seis anos atrás, antes de ele ser O Djonga e antes da gente ser Rosa Neon. Ele tinha acabado de lançar um EP, O corpo fechado, e eu tinha acabado de lançar o meu EP solo, e por amigos em comum, nos conhecemos. Nós acabamos fazendo um show juntos. Teve um dia que o Djonga ia gravar uma parceria para o disco solo do Luiz e eu e a Marina estávamos juntos, nós mostramos Fala lá pra ela e ele ficou louco querendo participar. Acabou que a participação no disco do Luiz não rolou, mas ele escreveu um verso para Vai devagar e gravamos. Ele é um cara fundamental para a gente, tanto na amizade quanto artisticamente, na difusão do nosso trabalho. Muita gente escutou o Rosa Neon pelo Djonga, então somos muito gratos.

DJ: A banda começou em 2018 e já lançou um álbum, diversos clipes, apareceu na line de festivais e não podemos esquecer da turnê pela Europa. Vocês conseguiram conquistar muitas coisas nesse tempo, quais são os objetivos agora?

MT: Estamos tentando entender nesses tempos loucos o que que vai ser. Porque esse ano não vai ter mais shows, não vai ter outra turnê, mas temos lançamentos engatilhados. Temos um clipe que vai sair logo logo e outra novidade que eu ainda não posso falar muito sobre, mas também é outro vídeo. Eu acho que esse ano, o que vamos conseguir fazer é estreitar nossa relação com o público que temos, e com o novo público que vai chegar com esse trabalhos que vamos lançar. Muita coisa ainda vai acontecer que não incluem shows, infelizmente, vontade de chorar, mas vão ter várias coisas novas.

DJ: Me conta, qual é a melhor e a pior coisa da música pop?

MT: Nossa, você falou isso para a pessoa que ama música pop, então, a pior vai ser difícil. Mas a melhor, eu acho que é a facilidade e, ao mesmo tempo, diversidade e complexidade em falar algo simples que comunica com as pessoas. Sintetizar uma parada simples, tocar no coração de qualquer um que ouvir isso, independente se ele é um intelectual ou se ele é um torneiro mecânico. Isso, para mim, é o mais legal da música pop, como ela conecta qualquer pessoa. Eu sinto que muitas pessoas, quando têm um capital cultural mais aprofundado, começam desprezar a cultura popular, acham que porque é pop, é menor. Eles estão profundamente errados porque é muito difícil fazer uma música que comunica de forma simples.

A pior coisa da música pop, agora falando de pop mainstream, é o quanto você precisa de dinheiro para entrar em alguns canais que circulam os grandes artistas. Por que, modéstia parte, sou leonino? Sou leonino. Falo demais? Falo demais. Mas modéstia parte, nós fazemos um trabalho que é digno, tem uma grande produção se você considerar que é feito com pouco dinheiro. Mas, agora, daí para circular e estar tocando nas grandes rádios envolve um caminho que requer muito dinheiro, eu gostaria que esse cenário fosse um pouco mais democrático. Porém, coisas da vida e estamos super felizes com nosso crescimento, cada coisa no seu tempo. 

DJ: Qual foi o melhor conselho que você já recebeu?

MT: Da minha mãe, quando ela falou para eu nunca colocar um cigarro na boca. Eu coloquei e não consigo parar de fumar mais, eu não segui o conselho, mas deveria porque é uma das únicas coisas que eu me arrependo na vida.

DJ: O que você anda escutando agora?

MT: Eu tô escutando muito os nossos próximos lançamentos. Mas também tô ouvindo muito os discos dos anos 70 do Tim Maia e alguns do Roberto Carlos dessa fase. Tem um que eu acho, que eu não sei se é de 70/71, que tem a música Jesus Cristo, eu “to” pirando nesse disco. Estou escutando muito o último do Kanye West, que é sensacional que o cristão fica até querendo orar em línguas. O álbum do Harry, nos últimos meses, mergulhei nele e no Bon Iver, um artista que há muito tempo eu conheci algumas coisas e, agora, tenho me aprofundado. E meus amigos, Hot e Oreia sou muito fã, e o último do Djonga. 

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Por Daniela de Jesus – Fala! Anhembi

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