Grandes rainhas africanas: Além dos vestidos de armação
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Grandes rainhas africanas: Além dos vestidos de armação

Grandes rainhas africanas: Além dos vestidos de armação

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Histórias de rainhas africanas que desafiaram o poder e a conjuntura social de suas épocas, tornando-se símbolos de força, resistência e luta

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Rainha africana. | Foto: Reprodução.

Desde muitos séculos, internalizou-se na cultura ocidental a imagem das rainhas ao padrão da realeza europeia. Vestidos extravagantes, castelos intermináveis e uma falsa liderança que se resumia em estar ao lado do rei no trono.

Essa visão foi reforçada e altamente difundida quando Walt Disney comprou as histórias de contos de fadas europeias e as transformou em entretenimento, como os filmes, por exemplo. São poucas as animações que fogem desse modelo.

Contudo, pouco se fala sobre as rainhas africanas por conta ranço cultural e abafamento das etnias altamente violentadas durante o período de expansão marítima, o que gera preconceito e a falta de espaço para esse tema. As líderes africanas não ficaram marcadas por conta de príncipes e histórias de amor. Elas são exemplos de força, questionamento, reivindicação – e modificação – da ordem vigente. 

Nzinga Mbandi

Nzinga Mbandi, rainha da Angola, é a protagonista da primeira história. Para alguns, uma mulher cruel, para outros, carrega a simbologia de resistência contra o colonialismo português do século XVII. Nzinga era filha do rei Ngola Mbandi Kiluanji e isso fez com que, desde muito jovem, já fosse envolvida com questões de política territorialidade e escravidão, porque nas primeiras invasões à Angola, os portugueses não encontraram minas na região e logo mudaram seu objetivo, que seria a captura de escravos, para garantir a mão de obra das colônias.

Quando o rei Ngola morreu, em 1617, o filho mais velho assumiu o poder e, por temer algum levante popular em favor da sua irmã, ordenou que executassem o seu único filho. No entanto, Portugal começou a vencer batalhas e conquistar terrenos, desestabilizando o povo e o reino. Assim, o rei cedeu e delegou o poder à sua irmã, que além de estrategista, era fluente em português, o que possibilitou uma negociação com o governador português João Correia de Souza.

Quando Nzinga chegou ao palácio para dar início às negociações, notou que o governador estava posicionado em uma enorme poltrona, enquanto que, para ela, existia apenas um tapete no chão. Sem exitar, a rainha convocou uma de suas criadas, que se ajoelhou para Nzinga sentasse em suas costas, ficando, assim, na mesma altura que Correia de Souza. Esse ato significou uma grande importância na história, pois ela falaria com ele na mesma equiparação de igualdade.

Após árduas negociações, os portugueses retiraram sua tropa e isso reforçou a competência da rainha, que governou o povo Mbundu por mais de 40 anos e é um símbolo de liderança e luta contra o colonialismo.

Amina Mohamud

Já a rainha Amina Mohamud, demonstrou, além de resistência, uma quebra total no sistema político e patriarcal nigeriano, uma vez que foi a primeira rainha do país. Amina nasceu em 1533, em Zazzau, uma pequena província na Nigéria. Filha de reis ricos e comerciantes. Quando seu pai morreu, seu irmão, Karama, assumiu o trono e Amina, ao invés de ajudar nas questões da família, decidiu seguir a carreira militar, o que era incomum para a realidade das mulheres da época.

A guerreira conquistou o respeito do exército formado por homens e, após o falecimento de seu irmão, foi a primeira mulher a governar Zazzau, e depois de apenas meses, comandou sua primeira campanha militar e conquistou muitos territórios, o que a levou a ter mais de 20 mil homens sob sua liderança.

Alguns historiadores contam que após cada batalha, Amina escolhia um homem para dormir com ela e o condenava à morte na manhã seguinte, mas este curioso fato não é documentado como verdade. Ainda nos dias de hoje, a rainha e guerreira é lembrada na Nigéria como “Amina, a mulher tão capaz quanto um homem”.

Cleópatra

Nascida em 69 a.C, Cleópatra representa poder, ambição, liderança e, acima de tudo, uma forte capacidade de se adaptar às situações e se reinventar para conseguir seus objetivos.

Nos eventos cerimoniais, ela aparecia vestida como a Deusa Ísis, pois a maioria dos governantes egípcios se identificava com a divindade e, nas moedas cunhadas no Egito, a imagem dela era com a cabeça e queixo para cima, de forma imponente, tal como o seu pai, como forma de enfatizar o seu direito ao trono.

Além da versatilidade, Cleópatra foi uma líder política capaz de qualquer coisa para firmar seu poder, inclusive matar alguns irmãos, casar com outros, além de também se envolver com governadores da época a fim de conseguir apoio para seu reinado e estabelecer negociações, como foi o caso do seu relacionamento com Júlio César e Marco Antônio.

Como a maioria das mulheres fortes que ocupam posições normalmente ocupadas por homens, Cleópatra foi mal interpretada e ainda é, ainda hoje, por algumas versões da sua história. Muitos dizem que ela se utilizou do seu charme e da sedução, que ela era histérica e arrogante. Quando, na verdade, a rainha que governou o Egito por mais de 20 anos falava nove idiomas e era absurdamente estrategista e inteligente, o que facilitou suas negociações e a manutenção do seu trono.

As mulheres na sociedade

De fato, o conhecimento sobre o feminismo, as lutas e as manifestações são de alta importância para a história das mulheres e para a formação de meninas que crescem atualmente já com o olhar de igualdade e equidade.

Mas, além do saber relacionado aos movimentos e direitos, é preciso o olhar para essas mulheres, como inúmeras outras rainhas africanas, que desafiaram o poder quando essa possibilidade sequer fazia parte do imaginário, em variadas épocas e contextos. Rainhas capazes de matar, liderar e se impor em meio a sociedades que não tinham nome para isso.

A África é berço de luta, de revolução feminista sem nome e documentação, de desconstrução e, acima de tudo, de coragem. Coragem para agir, desafiar e manter viva a memória de inúmeras mulheres que inspiraram e servem de inspiração até a contemporaneidade.

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Por Lara Calábria – Fala! UFPE

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