Entrevista com Adalmira Da Silva, criadora da Nakatch Nandjafu
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Entrevista com Adalmira Da Silva, criadora da Nakatch Nandjafu

Entrevista com Adalmira Da Silva, criadora da Nakatch Nandjafu

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Adalmira Crisálida Cabral da Silva (Adá/ Nisa) tem 32 anos, é guineense, solteira e mãe de uma filha. Nasceu em Lisboa, cresceu em Bissau e fez os estudos superiores em Marrocos. É licenciada em Economia e Gestão pela Universidade Abdelmalek Essaadi de Tanger, Marrocos.

Alumni da 5ª edição da Academia de Líderes Ubuntu (ALU) – Portugal, e do Corpo dos Jovens Voluntários da União Africana (AU-YVC) – Mali.

Ativista feminista social, Adalmira da Silva sempre se interessou por questões relacionados à defesa dos direitos das Mulheres, dos Jovens e das Crianças.

Em 2019, Adalmira da Silva criou o seu pequeno negócio, que inicialmente tinha o nome de AV’s Store, e que, em 2021, foi alterado para o NAKATCH NANDJAFU, que na etnia da mãe (manjaca), significa MULHER VALENTE, em homenagem à sua falecida mãe, que foi para ela, o maior pilar da sua vida e continua a ser uma das suas principais fontes de inspiração. A seguir, confira uma entrevista completa com Adalmira da Silva.

Aldamira da Silva. | Foto: Reprodução/ João Carlos Vaz

Entrevista com Adalmira da Silva

1. O que o pequeno empreendedor deve ter como prioridade em seu negócio?

Empreender é ter um objetivo e trabalhar para alcançá-lo, mas encontrar diversos desafios pelo caminho. É um passo sério, exige muito tempo e dedicação, então é preciso ter a certeza e muita força de vontade para o fazer. Eu diria que é preciso ter um certo dom para tal.

Quando se tem a certeza da vontade de querer empreender, é indispensável saber responder à perguntas como:

Qual é a ideia concreta de negócio? 

Qual é o objetivo? 

Quais são as perspectivas de ganhos financeiros? Correspondem ou não às suas necessidades? Como é o mercado em que se pretende atuar? Existem muitos concorrentes no setor em que se pretende atuar?Se sim, o que fazer e como proceder para ganhar o mercado, conquistar o seu espaço?

Tem recursos para investir, vai precisar de um financiamento ou deverá começar do zero? 

Onde pretende estar em um ou cinco anos, com o seu empreendimento? 

Tem capacidade para assumir os riscos, ou será capaz de desistir facilmente?

 Tem tudo pronto para começar ou precisa de mais tempo para se preparar?

Refletir e procurar respostas a estas questões facilita muito o planeamento e o arranque de qualquer negócio.

Um pequeno empreendedor deve ter a noção dos riscos que implica dar este passo, é assegurar estar minimamente preparado para fazer face a estes riscos e obstáculos.

Na minha opinião, as prioridades do pequeno empreendedor devem ser a satisfação do seu público consumidor e o desenvolvimento do seu mercado.

2. O que você desejava conquistar quando escolheu empreender?

A minha ideia e decisão de empreender, surgiu em 2019, porque a cada vez que usava uma roupa ou acessório africano e publicava nas minhas contas das redes sociais, alguém gostava e pedia o mesmo. Então pensei, porque não aproveitar e juntar o útil ao agradável? Já que vivo e trabalho num país onde existe uma grande diversidade do têxtil africano, porque não aproveitar e comercializar no meu?

Gostar da moda e trabalhar com a moda.A primeira ideia que me veio à cabeça, foi a vontade de poder fazer chegar ao meu país os mais variados tipos de vestuário e acessórios da moda africana, em particular, artigos que ainda não se viam com muita facilidade no nosso mercado, sobretudo no que tem a ver com a qualidade destes.

Então, posso assim dizer, que no início, a ideia não foi propriamente conquistar algo em especial, mas transformou-se em mais uma fonte de rendimento e motivação, pela satisfação dos nossos clientes, o que nos faz, ainda hoje, continuarmos aqui.

3. Quais foram as maiores dificuldades no início do empreendimento?

As minhas maiores dificuldades no início e que ainda hoje persistem, foram no transporte de mercadorias, o que não é bom, quando não temos um espaço físico, onde possamos ter algum estoque, capaz de alimentar o negócio por algum tempo.

A outra dificuldade é o acesso ao financiamento, uma vez que comecei sem um capital consistente para o efeito, faço vendas online e dependo muito das encomendas que os clientes vão fazendo.

Também tive alguma dificuldade em conseguir oficializar a minha empresa, mas graças a Deus, esta etapa já está concluída.

4. Qual o motivo que determinou a escolha desse tipo de empreendimento?

O que mais motivou a escolha deste tipo de empreendimento foi a minha grande paixão pela moda, desde pequena. A minha mãe era enfermeira, mas tinha uma máquina de costura em casa, e vi minhas irmãs tricotar e bordar desde cedo. Sou uma pessoa muito cuidadosa com a imagem que transmito para os outros, e sempre gostei, particularmente, do estilo africano, roupas e acessórios.

As pessoas dizem que me ficam bem, mas como digo sempre, quem fica bem neles, sou eu (risos). Afinal, é a minha identidade, o meu verdadeiro eu. Deixam-me sempre mais bonita, elegante e enfatizam o melhor de mim.

E, como disse mais acima, o fato de também estar a viver na altura, num país onde se produz e comercializa muito o têxtil africano, incentivou a optar por este campo.

Adalmira da Silva
Adalmira da Silva sempre foi apaixonada por moda. | Foto: Reprodução/ Acervo Pessoal

5. Sua empresa está pronta para crescer 10 vezes mais?

A longo prazo, sim. É o meu objetivo.

O crescimento empresarial é o que permite que um negócio continue em frente. Embora os lucros sejam fundamentais para sustentar a empresa, para mim, o crescimento envolve muito mais do que isso.

Não posso, por exemplo, me concentrar no lucro, sem me importar com a satisfação do cliente, com a concorrência, com os recursos materiais e humanos, o envolvimento em algumas causas sociais, com foco nas mulheres, jovens e crianças, que são elementos, que para mim, serão preponderantes para o sucesso do meu negócio, uma vez que todos estes constituem fatores que determinam o desenvolvimento de qualquer empreendimento.

A sustentabilidade a longo prazo requer estratégias empresariais únicas, que envolvam o público consumidor. Um posicionamento capaz de assegurar a existência de um negócio por décadas, e não apenas a curto prazo.

6. Qual é o seu plano de crescimento?

O meu plano de crescimento é fazer a diferença.

Edificar uma empresa defensora da justiça social e da inclusão baseada no gênero e na raça.

Os meus objetivos não estarão focados apenas no esforço de marketing com a finalidade de colher receita, mas em conquistar mais consumidores dos meus produtos/serviços, e preparar uma boa estratégia de organização, com vista a atingir a minha meta de penetrar e desenvolver o mercado da melhor maneira possível.

Porque, uma empresa que consegue provar o seu valor, ganha a fidelidade dos seus clientes, e estes últimos sustentam o negócio, não importa o que aconteça.

7. Para quem ainda está se descobrindo uma empreendedora, o que acredita ser característica indispensável que as mulheres guineenses devem ter ou desenvolver para criar empreendimentos de sucesso?

Um empreendimento de sucesso não se cria num dia, ou num ano, é um processo.

Falo sempre no foco, na paciência e na persistência, porque para mim, são as características indispensáveis para atingir qualquer objetivo.

Contudo, há que se ter uma boa visão estratégica daquilo que queremos e como o queremos, para o poder realizar. Estudos e pesquisas são sempre necessários, porque investir tem os seus riscos e benefícios.

Saber no que se quer investir, como, porquê, e o proveito que se espera tirar do respectivo empreendimento, ajuda bastante.

Com a clara consciência de que empreender não é só receber, mas também dar.

8. Acredita que as mulheres podem se beneficiar, tanto a nível pessoal quanto profissional, ao criar o próprio empreendimento?

Não existe uma certeza para essa pergunta. A verdade é que, apesar de significar mais liberdade para trabalhar como quiser, empreender é um caminho repleto de desafios não óbvios para quem vê de fora. Toda a responsabilidade sobre o negócio é do empreendedor. Ainda é importante lembrar que, para quem empreende, o caminho pode ser solitário. Por isso, é fundamental entender o seu perfil, antes de começar um negócio.

Contudo, falando por experiência própria, posso dizer que, acredito que se pode sim, ganhar com um empreendimento próprio, tanto à nível pessoal, como profissional.

Porque um negócio nosso, para além de aumentar a nossa perseverança, persistência, melhora a nossa forma de lidar com os outros, nomeadamente pessoas com quem estamos sempre em contato, mais precisamente os fornecedores e consumidores dos nossos produtos/serviços.

É igualmente, mais uma fonte de rendimento, que sustenta assim, a nossa independência financeira.

Ter essa liberdade, esta oportunidade de podermos ser nós a tomar as nossas próprias decisões, gerir o nosso tempo e trabalho, que na maior parte das vezes, é dividido entre o ser mulher, mãe, esposa e profissional, é muito benéfico, sobretudo quando vivemos num mundo onde as mulheres sofrem, muitas das vezes, com discriminações, assédios e violências, tanto nos locais de trabalho, como no seio familiar.

9. Alguma dica interessante para compartilhar com as mulheres empreendedoras?

A recomendação que quero aqui deixar para todas as mulheres empreendedoras, e as que pensam em investir neste ramo, é ir em frente, serem capazes de sair das suas zonas de conforto.

Nada é fácil, e quando se é mulher, na sociedade em que vivemos, fica duas vezes mais difícil se concretizar, se impor, conquistar o seu espaço, ou atingir os objetivos.

Mas com iniciativa e uma boa visão empreendedora, perseverança, coragem para correr riscos dentro do limite, capacidade de planeamento, eficiência, liderança e uma boa rede de contatos, que é muito importante nos dias de hoje, chega-se lá.

O importante é nunca desistir.

empreendedora guineense
Adalmira da Silva é uma empreendedora guineense. | Foto: Reprodução

Agradeço a oportunidade de poder, através desta plataforma, apresentar o meu pequeno empreendimento, e partilhar um pouco daquilo que venho aprendendo e concretizando, relativamente a este vasto campo, que é empreender.

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Por Benazira Djoco – Fala! UNIESP PB 

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