Entenda o que foi o movimento dos "Panteras Negras"
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Entenda o que foi o movimento dos “Panteras Negras”

Entenda o que foi o movimento dos “Panteras Negras”

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Na década de 1960, devido à forte herança advinda dos anos de escravidão, os Estados Unidos sofriam com a segregação racial. Isso era presente em todos os âmbitos da sociedade, assentos de ônibus, bebedouros e até escolas eram divididos pela cor da pele. Além disso, a população negra tinha vários de seus direitos civis restritos, como o voto. 

Todas essas ações eram pautadas pela Lei Jim Crow. Atribuiu-se esse nome, pois Jim era um personagem cômico, em que um branco se caracterizava de forma estereotipada como um homem negro com o objetivo de ridicularizá-lo frente à elite branca (black face).

De acordo com essa lei, se não havia lugar na área reservada aos brancos no ônibus, um dos negros era obrigado a ceder o seu lugar. Oposta a isso, Rosa Parks se negou a corroborar com tal ato, se tornando grande precursora do movimento pelos direitos civis, já que sua ação despertou uma série de protestos contra a segregação. 

Foi nesse contexto de revolução que surgiram grandes líderes exigindo o fim da segregação racial no país. A exemplo: Malcolm X, que estava à frente da Nação do Islã, que defendia a autodefesa violenta, e Martin Luther King, que possuía um viés mais pacifista. 

Também nesse cenário, surgiu o Partido dos Panteras Negras. Fundado em 1966 por Huey Newton e Bobby Seale, o movimento escolheu a pantera como símbolo, pois ela só ataca quando acuada, situação em que os negros se encontravam, já que o seu objeto principal era combater a violência policial. 

Panteras Negras
Panteras Negras. | Foto: Reprodução.

O programa dos dez pontos

O Panteras Negras possuíam um programa com dez pontos, nele continham todos os objetivos e exigências maiores dos Panteras Negras: 

  1. Queremos liberdade. Queremos o poder para determinar o destino de nossa Comunidade Negra.  
  2. Queremos emprego pleno para nosso povo. 
  3. Queremos acabar com a exploração dos capitalistas brancos na comunidade negra. 
  4. Nós queremos moradia, queremos um teto que seja adequado para abrigar seres humanos.  
  5. Queremos educação decente para nosso povo. Uma educação que exponha a verdadeira natureza da decadência da sociedade americana. Queremos que seja ensinada a nossa verdadeira história e nosso papel na sociedade atual. 
  6. Queremos que todos os homens negros sejam isentos do serviço militar. 
  7. Queremos um fim imediato da brutalidade policial e dos assassinatos do povo preto. 
  8. Queremos liberdade para todos os negros que estejam em prisões e cadeias federais, estaduais, distritais e municipais. 
  9. Queremos que todas as pessoas negras levadas a julgamento sejam julgadas por seus pares ou por pessoas das suas comunidades negras, tal como definido pela Constituição dos Estados Unidos. 
  10. Nós queremos terra, pão, moradia, educação, roupas, justiça e paz. E como nosso objetivo político principal, um plebiscito supervisionado pelas Nações-Unidas a ser realizado em toda a colônia preta no qual só serão permitidos aos pretos, vítimas do projeto colonial, participar com a finalidade de determinar a vontade do povo preto a respeito de seu destino nacional. 

A estética como política

Uma das pautas do movimento era a aceitação da beleza negra. Já que os lábios grossos, o nariz largo e o cabelo crespo eram símbolos essencialmente negros e, por isso, eram desprezados frente ao padrão de beleza exaltado: o caucasiano. Portanto, carregar e acentuar esses traços era não só uma forma de afronta à sociedade, mas uma forma de empoderamento e aceitação.

Além disso, a vestimenta era uma importante forma de identificação, as boinas pretas e casacos de couro formaram grande significação dentro da luta. 

Desse modo, o grupo incentivava os negros a parar de performar uma branquitude através de procedimentos estéticos para minimizar os seus traços, como o alisamento capilar e tentativas de clarear a pele, construindo, assim, uma política calcada também na estética, reforçada pela frase “Black is Beautiful”. 

black lives matter
Boinas e casacos de couro formaram grande significação dentro da luta negra. | Foto: Reprodução.

Um objeto cultural muito importante para a política estética do movimento foi o pente garfo, além de todo o peso histórico que ele traz consigo, é graças a ele que se tem um grande símbolo do movimento negro até os dias atuais, o Black Power, que valoriza o cabelo crespo, acentua a luta pela afirmação estética e é um instrumento de resistência e cultura. Como disse Babu Santana, participante do Big Brother Brasil 20, “o Black é a coroa e o pente, é a libertação”. 

Angela Davis

Negra, ativista, feminista, a educadora e filósofa Angela Davis foi um nome de peso dentro da luta negra. Quando nasceu, uma das organizações mais populares da época era a Ku Klux Klan, de cunho absolutamente racista e cujo abjetivo era perseguir, linchar e matar pessoas negras.

Ainda quando jovem, quatro amigas de Angela Davis foram mortas em um dos atentados realizados pela KKK, uma explosão numa das igrejas de sua cidade, Birmingham. Isso tornou-se o estopim para Angela mergulhar no ativismo, afiliando-se ao Partido dos Panteras negras. 

Estudou filosofia na Universidade de Brandeis, em Massachussetts, e se tornou tudo que a elite patriarcal branca odeia, uma mulher negra, inteligente, empoderada, com orgulho de sua cor e suas origens. Por isso, foi demitida do cargo de professora na Universidade da California e tornou-se procurada pela polícia devido à sua associação ao partido comunista americano e aos Panteras Negras. 

Não bastasse, ela foi considerada terrorista de alta periculosidade, sendo condenada à prisão em 1971. A reação à sua condenação foi uma onda de protestos pedindo “free Angela”. Para medir o impacto do movimento, as músicas Angela, de John Lennon e Yoko Ono, e Sweet Black Angel, dos Rolling Stones, foram compostas em apoio a Angela Davis. 

Após um ano e meio presa, o júri, finalmente, concedeu sua liberdade, considerando-a inocente. Depois da prisão, se tornou uma renomada professora de história, estudos étnicos e estudos femininos em diversas das maiores universidades dos EUA e do mundo. 

Angela publicou diversos livros sobre a luta racial e feminista, dentre os mais conhecidos está Mulheres, Raça e Classe (1981). Atualmente, continua lutando contra o racismo e o machismo, apoia a causa ambiental e participou de marchas contra os dizeres preconceituosos do presidente estadunidense Donald Trump, se tornando um dos nomes mais importantes do movimento. 

Angelas Davis
Angelas Davis. | Foto: Reprodução.

Atualmente

Apesar de ter se passado muitos anos desde o fim da segregação, o racismo e a violência policial contra os negros persistem. Recentemente, no dia 25 de maio, o policial Derek Chauvin, de Minneapolis (EUA), ajoelhou-se no pescoço de George Floyd, homem negro que estava desarmado e imobilizado. Apesar de George ter repetido várias vezes que não conseguia respirar, o policial continuou a sufocá-lo, por quase dez minutos, causando sua morte. 

George Floyd
George Floyd é morto por policial branco, Derek Chauvin, em Minneapolis. | Foto: Reprodução.

Isso causou uma onda de protestos, que levantam a bandeira “Black lives matter” (“vidas negras importam”). Minneapolis é onde ocorrem as manifestações mais radicais, e em que aconteceu o simbólico incêndio no prédio da delegacia onde o policial responsável pela morte de George trabalhava.  

Incêndio na delegacia eua
Incêndio na delegacia em que o policial Chauvin trabalhava. | Foto: Reprodução.

Além disso, nas redes sociais, as pessoas postavam fotos e vídeos comparando como eram efetuadas as prisões de brancos e negros. Certamente, foi concluído que mesmo um homem branco autor de um crime grave é preso gentilmente, ao contrário de qualquer homem negro que tenha realizado delito leve. 

Embora todos os quatro policiais envolvidos no caso tenham sido demitidos, a demora para ser feita uma acusação formal aumentou sensação de impunidade e fomentou a revolta dos manifestantes, que já presenciaram vários casos parecidos. Finalmente, no dia 28 de maio, Derek Chauvin, foi preso e acusado de homicídio culposo.

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Por Bárbara Moraes – Fala! UFPE

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