Ensaio sobre a cegueira: Uma análise do aclamado livro de José Saramago
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Ensaio sobre a cegueira: Uma análise do aclamado livro de José Saramago

Ensaio sobre a cegueira: Uma análise do aclamado livro de José Saramago

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Compactuo que o autor buscou, nas entrelinhas do texto, construir uma narrativa que não pudesse ser resumida apenas a um discurso dicotômico e fechado em si sobre o que é a cegueira retratada, como ela se espalha e quais são as nuances dela.

ensaio sobre a cegueira
Livro Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago. | Foto: Reprodução.

É um livro trucidador de qualquer expectativa interpretativa à priori, uma vez que não é possível encaixar os personagens ali descritos apenas como bons ou maus, todos são tudo ao mesmo tempo.

O enredo

Saramago usa e abusa de recursos não só apenas metafóricos, como a cegueira e os lugares — meticulosamente escolhidos — pelos quais a história se desenrola. 

Não é à toa que eles são presos em um manicômio, ou que o primeiro cego perde a vista em um lugar com demasiada quantidade de luz — o trânsito. Não é à toa que o livro se chama Ensaio; é nítida a expressão do autor sobre o mundo atual e as problemáticas arraigadas a ele.

Tenho vista cansada e é sempre um sacrifício revisitar Ensaio Sobre A Cegueira. O que sempre mais me chamou a atenção foi o fato do livro ser cansativo e sem uma solução, ainda que todos voltem a “ver”.

São blocos e blocos de texto agrupados em blocos e blocos de páginas — sem divisões, sem pontos finais recorrentes, sem parágrafos, sinais, capítulos, respeito pela escrita.

A maneira transgressora como Saramago coloca as ideias em uma página completamente branca, tal qual a da cegueira, é para cansar; ele tem esse intuito, é o que eu acho. E os olhos vão ler e se fatigam. 

A crítica do autor

Não sei se estou indo longe demais, mas é interessante refletir que a crítica do autor é exatamente esta: estar tão envolvido que não há ou não vemos possibilidade de ver de longe, sobre novas perspectivas. De tanto vermos, cegamos. Não vemos os próximos, as proximidades, as mazelas, nem as metáforas.

José Saramago.
José Saramago. | Foto: Reprodução.

E aposto que muitas das pessoas, após os sucessivos “caixotes” no mar de brancura que o livro nos joga à cara, não fizeram nada mais do que apenas ler. Em algum momento, pode passar a ser só leitura.

Costuma-se até dizer que não há cegueiras, mas cegos, quando a experiência dos tempos não tem feito outra coisa que dizer-nos que não há cegos, mas cegueiras.

Ensaio sobre a cegueira, página 306.

Para o próprio Saramago “é necessário sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não saímos de nós mesmos”. (O conto da ilha desconhecida).

A falta de pontuação no livro Ensaio Sobre a Cegueira

O primeiro cego perde a visão nas primeiras páginas, quando ainda pontuação é respeitada. Depois de cegar, é como se o próprio autor passasse a viver em um deterioramento progressivo da visão, o que torna o livro um romance em abandono. 

O leitor é quem mais está à deriva no mar de leite. São pessoas imersas em um mundo de glórias, conquistas. Hoje, com redes sociais e likes, isso se agrava. 

A cegueira deles é excesso, é achar em si mais valores do que no mundo e, por isso, se negar a compactuar com o avanço das coisas simples. A cegueira branca é uma representação de nós todos mergulhados na banheira das vaidades.

Mas não há saída. Depois de toda a tortura da vista ao ler, ao se imaginar como personagem e de já estar cego do lado de fora das páginas, com o livro em mãos, o desgraçado do autor não propõe absolutamente nada. E aí se confirma a afirmação dos leitores estarem abandonados. 

Ninguém tem nome

É um passeio-afogamento que só te deixa mais remoído. Ninguém tem nome na obra. Ninguém tem chance. Eles voltam a ver, mas e daí? A esperança é trucidada em cada palavra dentro daquele romance. 

“Cegueira é uma questão privada entre a pessoa e os olhos com que nasceu”, página 39. Pregando mais uma “peça” para ocultar aquilo que, mesmo sem olhos, se pode notar, Saramago joga na nossa cara, ironicamente, que, pelo contrário, a cegueira é social.

No momento em que vão buscar o doutor em casa e a mulher descobre que não irá junto, finge que cegou e se agarra ao cônjuge.  Ela é mais esperta, repara mais coisas. É curioso pensar que ela, a única a fingir que estava cega, não cegou. Como alguém que sabe que sabe que não vê antes mesmo de deixar de captar as informações do mundo.

Na página 60, Saramago reafirma o seu deboche literário e escreve que “Seria horrível, um mundo todo de cegos, Não quero nem imaginar.” A declaração da página 52 demonstra que “pareciam ver e não viam”. Digo dos personagens em terceira pessoa, mas está subentendido que eles somos nós, é você, sou eu. 

Um paralelo com os nossos dias

É como se todos os personagens e nós tivéssemos um sol dentro de nós mesmos e que, por resplandescência de uma glória continuada, nós cegamos com a intensidade das nossas fúteis conquistas.

E isso pode se confirmar com o trecho “Para estes, a cegueira não era viver banalmente rodeado de trevas, mas no interior de uma glória luminosa”, página 94.

O que Saramago, acredito, propõe com o próprio livro não é apenas fazer ver a quem tem olhos. É, sobretudo, questionar o que é olhar, o que é ter vista.

Com a ironia ácida e a genialidade de reconstruir um mundo distópico realista, ele primeiro nos cega, para, então, mostrar de que adianta ver. Ele rebaixa o mundo dos bem-sucedidos e gloriosos ao mais humilhante relento, e nos dá a ideia do que somos de fato: animais

Sem a carapuça do “sou o melhor” que aplicamos uns sobre os outros, o que nos resta é uma bestialidade cega, impura e pueril. Fazer ver a quem tem olhos é parte do objetivo do autor, o resto, sinceramente, não compreendo. Está além da minha vista.

Se somos pessoas atuantes das cidades e ela pode ser lida, também a escrevemos. É isto que o curso de Comunicação e Literatura, até agora, me ensinou. 

É bonito pensar que podemos todos andar por locais políticos e literários sem nem nos tocar. E é mais belo idealizar que todos somos poesias ambulantes, adicionando um pouco à narrativa da urbe. Mas, e se nós, com todo o nosso resplendor, fossemos apenas agentes causadores de doenças?

Na cidade marcada pela descontinuidade, declaro: nós somos a cegueira e tiramos dos olhos do mundo tudo aquilo que devia ser enxergado.

Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.

Ensaio sobre a cegueira, página 310.

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Por Gustavo Magalhães – Fala! PUC RIO

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