Conto: Nesse fim de tarde
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Conto: Nesse fim de tarde

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Nesse fim de tarde, em um dos meus diálogos na editora, precisava de uma foto que retificasse – e mais do que isso, explicasse – a história que eu narrava para os meus colegas de trabalho sobre as desventuras do jovem que mora sozinho.

Considerando que a mídia da nossa conversa – que eu covardemente não apago – ultrapassa mil arquivos, frequentemente pesco algumas fotos ou vídeos. Hoje, despretensiosamente esbarrei em uma conversa nossa. Por um descuido, carinhosamente cuidado, assim que vi as palavras que permaneceram mesmo depois de tantos meses, li um trecho do que um dia foi minha rotina e, em meio à avalanche que me atingiu, eu só resgatei duas coisas.

Na verdade, pensava em três, mas a terceira era puramente emocional: eu sorria, ao contrário do choro esperado por mim e provavelmente por você, enquanto lê. Eu genuinamente sorria porque eu conseguia sentir o amor que aquela conversa guardou. Parece que cada letra e cada pontuação quis ter consigo um pouquinho de toda a esperança, afeto, cuidado e ilusão de duas crianças trocando um punhado de mensagens.

A primeira coisa em que pensei foi na sua frase. Em uma quinta, dia 22 de agosto, você digitou às 19h02: “parece que fomos feitos um pro outro”. Nove. Nove minutos. Infinitos segundos. Sei lá quantos sorrisos depois. Eu respondi às 19h11: “ Eu espero que a premissa seja verdadeira”. Eu maturei essa sua frase por tanto tempo na minha cabeça na última hora e a única síntese para qual caminhei foi: nenhuma.

Hoje, dia 11 de dezembro, às 17h45, eu te digo: “cinco meses depois a premissa não é verdadeira, talvez, provavelmente, ouso dizer, você parece ter descoberto isso antes de mim”. Sua reposta não vem. Por uma série de motivos. Por não termos hora, por não termos dia, por não sabermos o que dizer. Não recebo nenhuma resposta. Essa perspectiva me amedronta, mas, então, pego todas essas dúvidas, as coloco no colo e guardo no meu mais novo cômodo da vida adulta: a sala dos casos, acasos, ou coisas com as quais eu sigo sem resposta, explicação ou entendimento. 

A segunda coisa em que pensei foi como algo tão profundo – ou tão secreto como quer dizer no latim – como a intimidade se esvai, como uma linha fina que tanto demora a ser tecida consegue se desfazer tão rápido. Leio aquele pequeno diálogo e não reconheço. Não nos reconheço. Não te enxergo e não entendo como todas as sentenças construídas ali foram redigidas por mim. Ainda amo conversar com você, mas sempre sinto que paira aquele resquício do que um dia foram nossos assuntos, aquele incômodo que não sabemos resolver.

Afinal, nossos papos despretensiosamente iniciados passeiam pelas mais diversas superficialidades, ninguém ousa ir mais fundo e qualquer pegada fora da trilha já é tida como um aviso de que o assunto precisa ser novamente conduzido para longe da estrada que leva pra casa já tão conhecida e abandonada quando fomos em busca de construir nossas próprias casas. Uma de cada lado do caminho onde, ocasionalmente, paramos para nos olhar. 

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Por Laís Gonzales

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