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Conto: Carmim

Por Pedro H. M. Ramos – Fala!Cásper

[CARMIM]

Copacabana. Caminhava pela orla o nosso ilustre personagem, Chico Brasileiro. Batia os seus sapatos de sola oca nas pedrinhas que saldavam ao Tejo e se alegrava com o ritmo que provocava. Seguia o cálido dançar dos vestidos em passos curtos, como que esperando por olhos doces e convidativos, daqueles que espicham os lábios de qualquer bom malandro. Não rolou. Talvez fosse tempo de apelar ao tom artístico dos barcos à vapor que cortam o Rio Mississippi e acender a palha que lhe aguardava. Pra ele, segurar com os dentes o filtro de madeira, espalhar o fumo na goma argentina e enrolá-lo num só tombo era tão prazeroso quanto o ar blasê que a fumaça lhe concedia. Agora sim. Feito um rei congo, a prata da noite só tinha versos para o nosso herói e conforme o batuque crescia mais indiscreta se fazia a poesia que aquelas mulatas soavam. Ô terra boa, terra gostosa, que conversa em samba e ama em beijo! Lá longe, parecia avistar uma confusão e, embora não pudesse ver, sabia que só podia se tratar de uma coisa: mulher. Uma briguinha era como aguardente pra estima – ah, sem contar com a preocupação cobiçosa e sedenta das amantes da pancadaria – mas ainda era cedo. E Chico tinha sede de conquista. Uma sede que desemboca num mesmo mar, é verdade, uma sede de sorver duma fonte rija, quente e macia sim, mas gozada de triunfo, de glória, de pompas. Continuou andando. Andou até sentir uma mão áspera o travar, grande o suficiente para ocupar todo o seu ombro proletário e vigoroso. Parou. Virou como quem fosse reclamar do descaso com um paletó tão rico em cores, mas se serviu dum sorriso que lhe era particular pra receber num abraço caloroso o seu camarada de copo e de cruz, Juca Pandeiro. Agora eram dois. E foram naquela sintonia de força que se cria quando andamos em companhia, naquela sensação de soberba com o estranho, com o mundo, com tudo. Se antes nosso trovador gingava numa brincadeira insinuante, agora estava pronto pra roubar os corações que se atreviam a dividir a folia na mesma noite que ele. Tinha um apetite especial por dois extremos: alianças e meias três quartos. Juntas então… Não fosse Juca e seu tamanho, o molejo de Chico Brasileiro há muito estaria manco. Resolveram parar no boteco do Seu João. Juca pra beber e Chico pra namorar. É fato que não namorava ali, porque mulher não havia – não fosse a senhora Dona Maria, a mãe dos baderneiros de Copacabana e dos melhores bolinhos de chuva de todo o Rio de Janeiro – mas por lá passavam e sempre reparavam no chapéu de Chico, que nele mais parecia uma coroa africana. É claro, na roda de amigos, Chico se sentia Zumbi e, portanto, transpirava Zumbi. E foi zumbizando que viu passar uma morena – mas uma morena, meus amigos – daquelas que os astros invejam e choram a trovejar. Estonteante e duma beleza tão forte, tão tropical e intensa que aludia num só instante a todo o Arpoador. Chico saboreou aquela deliciosa vertigem carminada cujos olhos felinos e molhados da moça lhe beberam. E sentiu dentro do seu peito a latejar aquela tão esperada gana que o movia. Deixou Juca, deixou a cerveja, deixou o bolinho de chuva, deixou a mesa, deixou o boteco, deixou a mulher e os quatro filhos.

À minha querida professora de Português, Mei.
Por mais almas carinhosas como ela.

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