BBB20: O racismo estrutural estampado nesta edição
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BBB20: O racismo estrutural estampado nesta edição

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Já não é novidade para ninguém o papel que o BBB exerceu nas últimas edições ao trazer para a tv aberta diversas discussões sociais importantes, como a questão do machismo.

Porém, nessa última edição, o enfoque está sendo mais no quesito racial, principalmente após os diversos casos de discriminação contra os dois participantes negros do programa, Thelma e Babu, que ocorrem desde o início do reality.

Bom, antes de iniciar a discussão, precisamos esclarecer um ponto. Como nós, as duas redatoras dessa matéria, somos brancas, não temos propriedade de definir o que é e o que não é racismo. Não é nosso lugar de fala definir um conceito tão amplo, e ao mesmo tempo específico, como esse.

Porém, o papel de combater o racismo no Brasil, um país que possui esse preconceito instaurado em suas raízes, é de todos nós, e usamos da nossa voz nessa plataforma para trazer o assunto para ser debatido com a sociedade em geral.

Portanto, esse texto foi feito em colaboração com fontes que se identificam como pretas – é o termo que elas consideram como o mais correto e que se sentem mais confortáveis -, que debateram o assunto com a gente e explicaram a realidade delas.

Além disso, depois o texto foi revisado por cada uma delas, para ter certeza de que nada que está escrito aqui é uma concepção errônea acerca do assunto, e que todos os pontos apresentados condizem com o contexto do cotidiano em que vivem e que é refletido dentro da casa do BBB. Esclarecido isso, vamos ao texto em si.

Primeiramente, podemos observar que, apenas de hoje a Thelma e o Babu serem enquadrados em classes sociais diferentes, eles tiveram uma origem bem similar. 

Ambos vieram de áreas periféricas de suas respectivas cidades e tiveram poucas oportunidades para iniciar suas carreiras. Denis Santos, marido de Thelma, afirmou em uma entrevista que “Tudo na vida da Thelma foi conquistado graças às bolsas de estudo, [foi assim] até na companhia de balé onde ela se formou e dançou por oito anos”, fato que mostra a dificuldade que a médica passou para chegar na sua situação atual e que dependeu de suporte para se formar em uma faculdade particular, dentro de uma sala onde ela era a única aluna preta. 

Já Babu, que nasceu no Morro do Vidigal – uma comunidade do Rio de Janeiro – passou por várias profissões menores até conseguir se consolidar como ator e, quando conseguiu, enfrentou várias dificuldades para se manter e alavancar sua nova carreira, na qual não possui muito prestígio ainda e que sofre com diversos altos e baixos, além de conseguir papéis, em sua maioria, de personagens estereotipados, como bandido, traficante, porteiro e outros. No print abaixo, é possível analisar os perfis dos papéis que ele conseguiu nos últimos anos:

babu bbb
Papéis de Babu ao longo dos anos. | Foto: Reprodução.

Porém, apesar de um contexto bem parecido, as distancias sociais em que eles se encontram atualmente faz com que eles sofram tipos diferentes de preconceito dentro da casa, fato que acontece também fora da casa. 

Thelma, por ser uma anestesista de sucesso, possui uma credibilidade maior com as pessoas, principalmente as meninas, dentro do reality por ser mais “estudada”. Por conta disso, o racismo direcionado a ela é mais velado. Não existe a hostilização da figura dela, nem ataques pessoais, mas, quando possível, ela é sempre a primeira a ser excluída pelas suas companheiras da casa. 

É possível, em alguns momentos, observar que muitas das relações que as participantes estabelecem com Thelma são pautadas apenas por interesse e estratégia do jogo, por ela ter sido líder e pelos seus posicionamentos dentro da casa. Tanto que, por exemplo, no início do jogo ela era vista como a “planta” da casa, que não tinha nenhum posicionamento muito claro e as pessoas não se aproximavam dela.

No caso de Babu, é um preconceito muito mais explícito. Pela sua aparência e pelo seu jeito de ser, além de se manifestar sempre frente às injustiças e preconceitos do jogo, foi criada em cima dele uma imagem de “monstro” dentro da casa, que foi reproduzida diversas vezes por muitos participantes lá dentro. 

Ivy já declarou em inúmeras situações que tem medo de conversar com Babu, e quando ele foi confrontá-la, ela afirmou que: “Ele foi e falou: ‘você criou um monstro em relação a mim’. Eu criei? Ele fez eu criar.”.  

Além dela, Manu também já teve diversas falas racistas em relação a Babu, como a vez em que ela manifestou estar com medo de perguntar algo para o brother e ele bater nela, sendo que ele nunca manifestou nenhum comportamento agressivo desse porte dentro da casa, com nenhum participante.

Inúmeras vezes ao longo do programa, a imagem de Babu foi relacionada às posições e lugares inferiores. Daniel, ex-participante que não tinha uma boa relação com Babu, declarou uma vez que não conseguia enxergar a imagem do outro na parte VIP da casa. Para estar no VIP, os participantes têm que receber uma pulseira dos líderes da semana. Babu passou mais da metade do programa na xepa, alimentando-se de um cardápio restritivo, com alimentos e porções específicas. 

Uma vez, Marcela considerou tirá-lo da xepa caso ganhasse a liderança, mas disse que não faria isso porque tinha medo dele acabar brigando com as outras pessoas da casa, mais uma vez reforçando a imagem de um monstro agressivo que foi criada em cima do participante.

Por conta dessa visão errônea em cima dele, Babu sempre foi o principal alvo da casa, sendo colocado no paredão 5 vezes, de 11 no total, por meio de votos do líder e da própria casa. 

Porém, mesmo tendo o título do brother que mais enfrentou paredões nessa edição, em todas as vezes, foi o que menos recebeu votos para sair por parte dos telespectadores, que não somam nem 10% de rejeição no programa. Dessa forma, podemos ver a força da torcida que Babu possui fora da casa e que tem aumentado cada vez mais.

Apesar de não ser querido dentro da casa, fora dela Babu é um dos mais queridos nas redes sociais. O próprio público começou a denunciar os inúmeros casos de racismo e perseguição que o participante sofre desde o início do programa e fizeram uma larga campanha nas redes sociais para defenderem a imagem do brother. 

Muitas pessoas pretas viram no tratamento que Babu recebe, traços do comportamento que outras pessoas possuem com elas, no jeito de falar, nas expressões e nos próprios atos discriminatórios. Assim, muitas delas começaram a relatar casos de abusos e preconceitos sofridos por causa da cor da pele, espelhando-se nas situações sofridas por Babu, e mostrando como a representatividade dele e da Thelma dentro do programa promove uma comoção de uma grande parcela da população brasileira, que consegue se enxergar nas duas personalidades.

Além da representatividade, a presença dos dois no programa gerou uma série de debates, fora e dentro da casa, sobre o racismo estrutural que está enraizado dentro da nossa sociedade. Babu e Thelma já falaram sobre o assunto diversas vezes com os outros participantes, com o intuito de mostrar uma visão diferente da que eles já possuem, visto que todos são brancos e a maioria é de classe média.

Em uma dessas conversas, Babu estava explicando às outras meninas sobre a história dos povos africanos, com relação à origem dessa visão de inferioridade da raça, e começou a debater a questão do uso do termo negro e porque ele prefere que use o termo “preto”.

Pessoas de pele preta não eram chamadas de negro, eram mouros, africanos, qualquer coisa. Negro vem de ‘Nigro’, do grego, que significa inimigo. Por isso que eu renego esse nome. Se você pegar no dicionário português, está escrito: ‘Que não remete luz, sinistro’. Não tem uma atribuição positiva para essa palavra.

Como falam os americanos: ‘I’m black man’ – homem preto, em inglês. Em lugar nenhum do mundo um homem da pele preta é chamado de negro…Só aqui no Brasil, porque já condicionam essa palavra ao homem de pele preta.

Explicou Babu

Trazer à tona esse tipo de debate em rede nacional é muito importante, visto que a Rede Globo é uma das principais emissoras do país, com o maior número de audiência da televisão aberta atualmente. Esse tipo de atitude gera uma reflexão entre os telespectadores, e pode ser o início de uma mudança de comportamentos e falas que antes tínhamos e que podem ser ofensivos para outras pessoas, servindo como um meio de conscientização.

O Brasil é um país que sofre até hoje com as marcas deixadas pela colonização europeia, que possui em sua base a escravização, reponsável por dizimar, tanto fisicamente quando culturalmente, os povos africanos que aqui chegaram. A presença de Babu e Thelma no programa nos faz pensar mais sobre como esse preconceito está escondido e disfarçado em pequenos atos e falas, e que devem ser combatidos. 

A responsabilidade de combater o racismo no Brasil está longe de ser exclusividade do movimento negro. Trata-se de um problema estrutural e que todos temos o dever de identificar e minar esse tipo de atitude e pensamento. Para que possamos alcançar a tão aclamada igualdade prevista por lei, é preciso reverter e reparar os danos históricos causados à essa população. 

É necessário também ressaltar que casos como os sofridos por Thelma e Babu ocorrem todos os dias, em largas proporções, com milhares de pessoas. Seja no trabalho, no qual as pessoas pretas não são escolhidas para ganhar grandes promoções e cargos altos, ou nas relações interpessoais, onde a figura da mulher negra ainda é extremamente sexualizada, além de ainda prevalecer a ideia de “embranquecer” a família. 

Porém, apenas por estarem em rede nacional, os casos com os dois participantes ganham destaque e a atenção devida. Dar voz às vítimas desse preconceito também deve ser prioridade, além da tomada de medidas para reverter esse quadro.

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Por Anna Casiraghi e Larissa Cassano – Fala! Cásper

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