Por que personagens masculinos escritos por mulheres fazem sucesso?
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Por que personagens masculinos escritos por mulheres fazem sucesso?

Por que personagens masculinos escritos por mulheres fazem sucesso?

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Mergulhar no universo de um bom livro é terapêutico e se apaixonar por personagens literários é a sina de todo leitor. Mr. Darcy (Orgulho e Preconceito), Quatro (Divergente), Travis Maddox (Belo Desastre), Peeta Mellark (Jogos Vorazes) e Maxon Schreave (A Seleção) têm algo em comum e não é só o fato de todos serem crushes literários. Sabe qual a semelhança mais interessante entre eles? Todos esses personagens foram escritos por mulheres.

As mulheres possuem a habilidade de criar personagens masculinos apaixonantes.
As mulheres possuem a habilidade de criar personagens masculinos apaixonantes. | Foto: Freepik.

Por que os queridinhos da literatura são escritos por mulheres?

Todo escritor tem uma visão única do mundo, seja ele homem ou mulher, e essa visão com certeza afeta suas obras. Além disso, quando escreve algum livro do gênero fictício, especialmente romance, o autor faz isso segundo a sua própria visão e, muitas vezes, criando um mundo do qual gostaria de fazer parte, com personagens com quem gostaria de conviver.

Quando escreve, o escritor se coloca na história, ele não é apenas o criador daqueles personagens, ele conhece sua personalidade como ninguém e escuta todos os seus pensamentos, é o amigo mais íntimo que esses personagens podem ter.

Em uma conferência dada para alunas de uma escola em Kent, em 1926, ao falar sobre a forma correta de fazer uma leitura, Virginia Woolf chamou os escritores de cúmplices, “Para ler bem um livro, você deve lê-lo como se estivesse escrevendo. Comece não se sentando ao lado dos juízes, fique de pé ao lado do acusado. Seja seu colega de trabalho, transforme-se em seu cúmplice”.

Percebeu? O processo de criação de personagens não é aleatório, quando escrevem sobre um personagem, grande parte dos escritores fazem isso pensando naquilo que lhe é atraente. Traduzindo, é possível dizer que a maioria das escritoras criam homens que elas gostariam de conhecer e que boa parte das mulheres também gostaria.

Sabe por que isso funciona? Porque, apesar de terem menos espaço na literatura, as mulheres leem mais do que os homens. Segundo o Instituto Pró-Livro, o público feminino representa 52% dos leitores no Brasil, enquanto o masculino representa apenas 48%.

E grande parte desses personagens criados por autoras possuem padrões inalcançáveis que não podem ser encontrados na vida real, então o que essas mulheres fazem é mergulhar em um universo fantasioso.“Eu leio por pura covardia, pra fugir da realidade mesmo. Quando minha vida está uma droga e as pessoas não me compreendem, eu escolho um personagem por quem me apaixonar.” – De volta aos sonhos, Bruna Vieira.

As pessoas leem para fugir da realidade

Em entrevista ao El País, Antonella Fayer, psicóloga especializada no desenvolvimento de liderança, disse o seguinte: “É muito custoso, para nós, colocarmo-nos no lugar do outro no dia a dia, mas quantas vezes já não nos colocamos na pele de um personagem de romance?”.

O El País aponta ainda que uma pesquisa realizada por neurocientistas da Universidade de Emory concluiu que a leitura faz reduzir o estresse, resulta em ganho de inteligência emocional, desenvolvimento psicossocial, autoconhecimento e o cultivo da empatia.

O jornal também afirma que Keith Oatley, romancista e professor de Psicologia Cognitiva da Universidade de Toronto, defende que a identificação com protagonistas faz com que o leitor altere, inclusive, seus comportamentos.

De acordo com o El País, ao ler um livro, o leitor alinha suas emoções com as dos personagens. O jornal aponta que imagens de ressonância magnética funcional comprovaram que as pessoas simulam as ações que estão lendo em seus cérebros, fazendo com que elas sintam como se realmente as estivesse realizando.

Ou seja, o escape para os livros é real e a identificação com os personagens é a consequência e o motivo disso.

“Uma das coisas que amo nos livros é que eles conseguem definir e condensar certos momentos da vida de um personagem em capítulos. É intrigante, pois na vida real é impossível fazer isso. Não dá para terminar um capítulo, pular as coisas pelas quais a pessoa não quer passar e simplesmente começar um capítulo que melhor se encaixa com a sua vontade. A vida não pode ser dividida em capítulos… só em minutos. Os acontecimentos da vida de uma pessoa estão todos aglomerados um minuto após o outro, sem nenhum intervalo de tempo, páginas em branco ou pausas de capítulo, porque não importa o que aconteça, a vida simplesmente continua, segue em frente, as palavras são ditas, e as verdades sempre surgem, quer você queira ou não.” – Um caso perdido, Colleen Hoover.

A polêmica dos bad boys bonzinhos

Recentemente, tem acontecido uma discussão muito acalorada sobre os bad boys, famosos garotos problemáticos dos livros. O gênero romance foi um que abusou da figura do bad boy que só faz coisa errada, mas muda por causa da mocinha.

A polêmica girou em torno de esses livros estarem romantizando personalidades problemáticas, fazendo com que as mulheres desejem um “bad boy bonzinho” em suas vidas, sendo que, na vida real, muitos seriam potenciais agressores.

As pessoas leem para fugir da realidade, e as escritoras, ao criarem padrões masculinos inalcançáveis, escrevem sobre homens que só são encontrados na literatura, fazendo com que as mulheres, o público que mais lê, se identifiquem com as protagonistas das histórias e queiram viver em seus mundos, onde os padrões masculinos atingem todas as suas expectativas.

Portanto, é por isso que os personagens escritos por mulheres fazem tanto sucesso, as autoras escrevem sobre homens que grande parte das mulheres gostaria de ter em suas vidas. Afinal, poder falar “Eu não sou sua querida” para Maxon Schreave é o tipo de experiência que qualquer leitora aceitaria sem nem pensar duas vezes.

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Por Bianca Sousa – Fala! Faculdade Paulista de Comunicação

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