Opinião - Bolsonaristas: de onde vem o ódio pela imprensa?
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Opinião – Bolsonaristas: de onde vem o ódio pela imprensa?

Opinião – Bolsonaristas: de onde vem o ódio pela imprensa?

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Entenda melhor a relação de Bolsonaro e seus apoiadores com o jornalismo profissional no Brasil

Os casos de ataques a jornalistas cresceram expressivamente desde que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) chegou ao poder. O Relatório da Violência contra Jornalistas e liberdade de imprensa, divulgado pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), comprova que, em 2019, o número de ocorrências que atingiram a imprensa chegou a 208, representando um aumento de 54,07% desde o ano anterior, quando foram registrados 135 episódios.

De acordo com a Fenaj, em um ano de governo, Bolsonaro foi responsável, sozinho, por 121 casos (58,17% do total) de agressão a veículos de notícias ou jornalistas. A maioria dos ataques ocorreram durante entrevistas e declarações oficiais da Presidência da República, como foi o caso do episódio onde o presidente mandou repórteres calarem a boca, quando foi questionado sobre mudanças na Polícia Federal. 

Nesse mesmo incidente, ocorrido em maio deste ano, foram proferidos ataques ao jornal Folha de S. Paulo. “Que imprensa canalha a Folha de S. Paulo. Canalha é elogio para a Folha de S. Paulo… um jornal patife e mentiroso”, expressou.

ataques à imprensa
Com manchete da Folha de S. Paulo na mão, Bolsonaro manda jornalista calar a boca. | Foto: Pedro Ladeira/Folhapress.

Os comportamentos agressivos de Bolsonaro em relação aos veículos de imprensa refletem também nas ações de seu eleitorado mais fiel. No dia 3 de junho, uma conta de apoiadores do presidente no Twitter compartilhou dados da fotógrafa do Estado de S. Paulo, Gabriela Biló, que passou a sofrer perseguição nas redes sociais.

A conta chamada Black Dog publicou informações pessoais da jornalista, como RG, CPF, telefone e uma foto da casa de sua família em São Paulo. Além disso, postagens de vídeos manipulados e fora de contexto foram utilizadas para acusar a fotógrafa de ameaçar a ativista bolsonarista Sara Winter, que foi alvo no último dia 27 de um mandato de busca e apreensão no inquérito das fake news contra ministros do STF (Supremo Tribunal Federal).

A origem do “Mito”

A base de apoiadores fiéis de Bolsonaro se trata de um fenômeno que vem tomando forma desde antes das eleições presidenciais de 2018. Com um discurso antipetista e predominantemente conservador, o atual presidente conseguiu angariar seguidores devotados. No entanto, estudos comprovam que um fator muito relevante na época do pleito precisa ser considerado: as notícias falsas.

Um estudo da instituição Avaaz revelou que 98,21% dos eleitores do presidente foram expostos a uma ou mais notícias falsas durante as eleições, e 89,77% acreditaram que os materiais eram verdadeiros. 

As fake news devem ter tido uma influência muito grande no resultado das eleições, porque as histórias tiveram alcance absurdo. A informação das fraudes em urnas eletrônicas com o intuito de contabilizar votos para Fernando Haddad, do PT, alcançou 16 milhões de pessoas nas redes sociais 48 horas após o primeiro turno e a notícia continuou viva no segundo.

Declarou o coordenador de campanhas da Avaaz, Diego Casaes.

Dados da pesquisa afirmam que 93,1% dos eleitores de Bolsonaro entrevistados viram as notícias sobre a fraude das urnas eletrônicas e, desses, 74% acreditaram na veracidade delas. De acordo com Casaes, muitas pessoas são enganadas pelo fato de que notícias falsas carregam consigo, muitas vezes, elementos passíveis da verdade, como montagens de vídeos e informações fora de contexto.

De acordo com o professor do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e doutor em Comunicação Política, Camilo Aggio, as ações do presidente oferecem suporte para ataques ao jornalismo.

O discurso antimídia pode ser amparado por mentiras, sim, mas não se resume a elas: grande parte dos ataques feitos à imprensa partem do próprio presidente que o faz diretamente em coletivas ou em seus canais em redes sociais digitais. Seu discurso tem força, visto que é uma referência natural de poder em razão do cargo que ocupa. É por isso e não por outra razão que ativistas bolsonaristas hostilizam jornalistas: porque são amparados por seu líder.

Afirma.

Essas consequências podem ser observadas mais uma vez no episódio onde apoiadores de Bolsonaro proferiram ataques diretos à jornalistas em frente ao Palácio da Alvorada, no dia 25 de maio. Na ocasião, os xingamentos direcionados a jornalistas que esperam a saída do presidente na porta do Alvorada foram mais agressivos. Enquanto passava pela fila dos jornalistas, uma mulher repetia: “Ó o lixo, ó o lixo, ó o lixo”. “Escória! Lixos! Ratos! Ratazanas! Bolsonaro até 2050! Imprensa podre! Comunistas”, gritava a mulher, à medida que outros diziam “mídia lixo”.

agressões a jornalistas
Apoiadores do presidente ofendem jornalistas diante do Palácio da Alvorada. | Foto: Pedro Ladeira/Folhapress.

Segundo Aggio, também é possível traçar um paralelo entre essas atitudes e o histórico de regimes autoritários que romperam com o princípio da liberdade de expressão. 

Jair Bolsonaro é um defensor explícito da ditadura militar brasileira, que se iniciou em 1964. E tal qual todos os militares, defende que não foi uma ditadura, mas um processo de defesa da democracia. Militares brasileiros, assim como todos os ditadores militares, odeiam democracia e liberalismo, ou seja, odeiam direitos e liberdades quando o exercício dessas prerrogativas lhes desagradam e conflitam com seus interesses.

Obviamente, a imprensa se torna um dos alvos fundamentais desse tipo de autoritarismo. Para qualquer cidadão minimamente sensato e informado, não há qualquer surpresa no fato de um defensor de ditaduras, ditadores e torturadores agir com hostilidade contra a imprensa.

Respostas da imprensa

Sobre os ataques do presidente, a Folha de S. Paulo de manifestou em nota. “Mais uma vez o presidente Jair Bolsonaro desrespeita a liberdade de expressão e insulta o jornalismo profissional. Seguiremos ativos e vigilantes, cobrindo os atos desta administração com isenção e independência, como fizemos em todos os governos. E não, a Folha não vai se calar”.

Segundo Dagmara Spautz, colunista do portal de notícias NSC Total, as reações agressivas de Bolsonaro quando confrontado por perguntas de jornalistas se apresentam como uma ferramenta para se esquivar da publicidade dos atos do governo, assim como despistar assuntos sobre os quais não deseja falar. 

Ocorre que, quando ataca a imprensa, o presidente também ataca o direito dos brasileiros à informação. É o sonho de um governante com desejos autoritários ser a única fonte de informação de seu povo. Sem análise, sem contexto, sem questionamentos.

Declarou.

Em janeiro de 2020, a coluna de opinião do Correio Braziliense frisou a importância da liberdade de imprensa, valor garantido pela Constituição Federal, como ferramenta crucial para a manutenção de regimes democráticos durante a História. 

“É o canal de diálogo entre as decisões governamentais e os cidadãos. Mostra aos dirigentes o impacto das medidas aprovadas, traz à luz a reação popular e fornece informações suficientes para que o poder público possa fazer correções de rumo ou incrementar as políticas em desenvolvimento”, alegou o veículo.

Dessa maneira, questionamentos são levantados: o que deseja um governo com uma política constante de deslegitimação do jornalismo?

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Por Isabella Guasti – Fala! UFMG

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