Opinião: A inter-relação entre religião, política e empresas na pandemia
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Opinião: A inter-relação entre religião, política e empresas na pandemia

Opinião: A inter-relação entre religião, política e empresas na pandemia

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Discursos polêmicos de representantes religiosos e do presidente da república, sobre a pandemia, buscam apoio mútuo, uma irresponsabilidade compartilhada. Enquanto empresas privadas demonstram-se preocupadas e realizam campanhas mais efetivas do que a dos anteriores.

Em meio a pandemia causada pelo COVID-19, é relevante e necessário combater discursos proferidos por pastores como Silas Malafaia, falas que incentivam a ida a igrejas e, portanto, a aglomeração de pessoas, fator já citado como grande propagador da doença pela Organização Mundial de Saúde (OMS). No vídeo de seu canal no Youtube, Malafaia criticou estados que propuseram o fechamento de suas igrejas (Pernambuco e Santa Catarina), além de equiparar a importância das igrejas e cultos com a de hospitais.  

A igreja é neste momento uma agência emocional, tão importante quanto os hospitais. […]
Estamos numa escolha de Sofia: o que é pior, coronavírus ou caos social? Eu garanto que é caos social. Vai morrer gente, vai… lamentamos profundamente. Meu desejo é que ninguém morra, mas só um dado para vocês, a gripe influenza, no Brasil, em 2009, matou mais de 2 mil pessoas e mais de 58 mil ficaram infectados (…) a minha oração é que Deus guarde pessoas idosas, as pessoas que têm deficiência em seu organismo e que são vulneráveis a isso. Essa que é a questão: se parar tudo, vamos ter uma crise sem precedentes no nosso país”. 

Falas de Silas Malafaia, em vídeos de plataformas digitais.

Outro caso que chama a atenção é a igreja Catedral Global do Espírito Santo, Porto Alegre (RS), divulgou no início da pandemia um cartaz dizendo que unção com óleo imunizaria o fiel de doenças, epidemias ou vírus, ao simular o poder de Deus contra o coronavírus. O caso é investigado por charlatanismo e pode ser investigado por acusação de estelionato, caso exista interesse econômico com o feito, em uma apuração da 4ª Delegacia de Polícia de Porto Alegre. 

pandemia de coronavírus
Panfleto divulgado nas redes sociais em Porto Alegre. | Foto: Reprodução.

Ainda é importante ressaltar o ataque a mídia e aos noticiários feito por Edir Macedo, pastor da Igreja Universal do Reino de Deus, o qual disse aos seus fiéis para que não assistissem aos noticiários e que a palavra de Deus torna as pessoas imunes a qualquer vírus.  

Ao invés de você ler essas notícias que falam de morte e de quarentena, da epidemia e pandemia, olhe para a palavra de Deus e tome sua fé na palavra de Deus, porque essa, sim, faz você ficar imune a qualquer praga e a qualquer vírus, inclusive o coronavírus.

Fala de Edir Macedo em vídeo no Instagram. 

Tais atitudes vindas de importantes figuras do campo religioso revelam ser extremamente irresponsáveis e um desserviço à comunidade pública. Entretanto, parecem ser consentidas pelo presidente da república Jair Bolsonaro, haja vista os vários discursos e falas que discordam de seu próprio ministro da saúde, ao defender o fim do confinamento e atacar a imprensa, pintada por este como disseminadora do caos e do pavor. Conteúdos que recuperam e consolidam falas já ditas pelos referidos líderes religiosos, considerados pelo Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) como um grave erro. 

Não podemos permitir o dissenso e a dubiedade de condução do enfrentamento à Covid-19. Assim, é preciso que seja reparado o que nos parece ser um grave erro do Presidente da República.

Infelizmente o que vimos em seu pronunciamento foi uma tentativa de desmobilizar a sociedade brasileira, as autoridades sanitárias de todo o país. 

Sua fala dificulta o trabalho de todos, inclusive de seu ministro e técnicos.

Trecho de nota assinada pelo Conass em relação ao discurso do presidente Jair Bolsonaro de 24 de março. 

Assim, as declarações parecem ganhar proporções inadmissíveis em uma sociedade na qual deve prevalecer a razão e a sanidade, ao invés do negacionismo e teimosia reverberados pelos já citados. É importante, no entanto, reparar que estas ações já deveriam ser esperadas desde as eleições de 2018, basta observar o apoio e suporte dado e recebido entre o presidente e as lideranças citadas. Relação sustentadora de uma troca de confianças que baseia uma política genocida, segundo a massa de internautas nas redes, na qual diante da possibilidade de milhares de mortes no país, resta a eles lamentarem. Neste período a rede inflou com movimentos e posts atestando o governo genocida de Bolsonaro, a exemplo da deputada federal Sâmia Bonfim.  

bolsonaro e silas malafaia
Silas Malafaia e Jair Bolsonaro. | Foto: Reprodução.

Apesar dos exemplos citados, grande parte da comunidade religiosa critica posicionamentos como os de Silas Malafaia, a exemplo de pastores da Igreja Batista e da Igreja evangélica. Outras entidades estão tomando medidas para reduzir a transmissão do vírus, como a Federação Israelita de São Paulo e a Diocese de São Paulo da Igreja Católica, além de mesquitas que suspenderam congregações e reuniões. Muitos destes críticos argumentam que a fome por dinheiro destes pastores não pode ser sobreposta a saúde dos fiéis. 

Em contraponto as lideranças religiosas já citadas, emerge uma vasta quantidade de marcas e empresas apoiando e divulgando as prevenções contra a pandemia. Um dos exemplos é a plataforma de streaming Globoplay que disponibilizou filmes e séries de graça por 30 dias durante a quarentena, como uma tentativa de facilitar a estadia em casa. Mostra-se ainda um grande movimento das empresas para a entrega em domicílio, principalmente no setor gastronômico, como os aplicativos Rappi e Ifood em parceria com restaurantes. Todos os citados defendendo a quarentena, métodos de higiene e segurança propostos por diversos órgãos da saúde, como a OMS e o Ministério da Saúde. 

Evidencia-se ainda a atitude das redes sociais, como o Twitter, de seguirem sua política de não dar espaço para conteúdos que prejudiquem a saúde pública, ao retirar posts de Jair Bolsonaro e Silas Malafaia, atitude que foi muito elogiada na própria rede por internautas. 

Destarte, vislumbra-se a necessidade da propagação das medidas preventivas por parte de marcas e empresas sensatas, ao prestar mais utilidade pública do que o próprio presidente da república. Mesmo que com foco no capital, os incentivos das instituições privadas surtem efeito em massa de conscientização. 

Todavia, existem também empresas apoiadoras das falas do presidente e de seus pares, como o restaurante Madero, que segue a linha de raciocínio contra o fechamento de lojas e a reclusão. Para Junior Durski, dono da rede citada, o Brasil não pode parar por conta do vírus, as pessoas devem continuar o trabalho. O empresário apoiador de Jair Bolsonaro, compartilha desta proposta direitista que privilegia o futuro econômico em detrimento de vidas humanas. 

O Brasil não pode parar dessa maneira, o Brasil não tem essa condição. As consequências econômicas futuras serão muito maiores do que as pessoas que vão morrer por conta do coronavírus.

 Junior Durski em vídeo publicado no Instagram. 

Enfim, é clara a urgência de movimentos e atitudes que correspondam com a situação pandêmica atual. O referido “caos” que, para as lideranças religiosas já citadas, é tão propagado por jornais e veículos de informação é, na verdade, expandido pelos acusadores, com falas descompromissadas vindas de quem deveria instaurar a calma e a organização. Enquanto isso, esta função é feita por algumas instituições privadas que não necessariamente o fazem por compromisso com a sociedade, mas cumprem um papel importante neste momento, apesar de não ser uma ação geral no meio privado. 

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Por Thiago Hideki Baba – Fala! Cásper

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