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Book Rosa: Modelos explicam e discutem a prática

Texto e Fotos Por Victória Gearini – Fala!MACK


A verdade por trás das passarelas

Modelos discutem o machismo sobre Book Rosa e explicam como funciona

O termo Book Rosa ficou famoso após a novela “Verdades Secretas” (autoria de Walcyr Carrasco), exibida pela Rede Globo, em 2015. No entanto, sua prática é mais comum e antiga do que muitos imaginam. A expressão é utilizada por algumas agências e por recrutadores de modelos para se referir aos profissionais dessa área que prestam serviços sexuais e/ou de acompanhantes de luxo.

A trama de Walcyr Carrasco contava a história de Arlete (Camila Queiroz) que se muda para São Paulo junto de sua mãe Carolina (Drica Moraes). A jovem é convidada a participar da agência de modelos de Fanny (Marieta Severo), que lhe dá o nome artístico de Angel. Num primeiro momento a jovem hesita em fazer o programa, mas devido sua dificuldade financeira, aceita ser acompanhante de luxo de Alex (Rodrigo Lombardi) e acaba se apaixonando pelo empresário.

Na época da exibição da novela, o termo Book Rosa ganhou notoriedade e abriu pauta para debate. Assim como a personagem fictícia Angel, muitas meninas prestam serviços sexuais ou de acompanhantes de luxo e recebem altos cachês. Mesmo após três anos da exibição da trama, é importante ressaltar algumas curiosidades dessa profissão e refletir sobre o preconceito e machismo que ainda existe sobre ela.

 

 

– Diferença entre “ficha branca” e “ficha rosa”

O termo “ficha branca” é usado para eventos em que a modelo não faz serviços sexuais nem de acompanhante. O valor do cachê varia de acordo com o evento e com o número de horas trabalhadas, mas em geral pode chegar entre 130 a 200 reais por dia de trabalho (6 a 12h).

Já a expressão “ficha rosa” é utilizada na prestação de serviços sexuais. O cachê também varia de acordo com o evento e é relativamente mais alto que o de ficha branca. Em alguns casos pode ser 400 reais e ultrapassar o valor de mil reais, dependendo da situação.

Muitas pessoas acreditam que os books de quem faz ficha rosa são com fotos sensuais, mas em geral não são. Book Rosa é apenas um termo e não significa necessariamente que as fotos que constam nele são sensuais ou de nudez. Na grande maioria dos casos, essa ferramenta de trabalho contém fotos comuns das modelos, assim como os books de ficha branca.

É importante ressaltar que um mesmo evento pode ter modelos que façam ficha rosa e modelos que façam apenas ficha branca, como é o caso da modelo, cantora e dançarina, Luana*, 24 anos. Ela conta que já recebeu diversas propostas de ficha rosa, mas preferiu não fazer. “Me coloquei à disposição como ficha branca. Apesar de receber muitos elogios dele (recrutador) sobre minha aparência, ouvir que tinha muitos trabalhos para o meu perfil, mil e uma promessas, ele nunca me chamou para nenhum trabalho. Depois de um tempo eu entendi porque nunca fui chamada”, diz ela.

 

 

– Propostas: como são e quem faz?

As propostas podem ser feitas pelas redes sociais, pessoalmente e até mesmo em grupos do WhatsApp. Luana* conta que na maioria das vezes as propostas são feitas pela internet, mas que já recebeu proposta presencial. “Um recrutador com seu discurso machista disfarçado de emancipação feminina, incentivava discretamente que não trabalhássemos para agência dele como ficha branca, mas sim como ficha rosa”. A modelo conta ainda que comentários como “Cada uma faz o que quer, está ganhando mais né?” e “Não precisa falar na frente de ninguém, só eu e você saberemos. Até porque todo mundo faz sexo” eram comuns para convencer as modelos a fazerem programas.

Luana* recusou a fazer ficha rosa e explica que nunca foi chamada por ele para fazer outros trabalhos, nem mesmo de ficha branca. No entanto, a jovem conta que essa não foi a primeira e única proposta que já recebeu. Despedidas de solteiro, acompanhante de empresários, são alguns exemplos de eventos que a modelo cita. O cachê varia entre 500 a 800 reais, mas há casos em que a proposta pode chegar entre 3 mil a 8 mil. Em outros casos, a modelo conta que já viu proposta de 400 reais e sem uso de preservativo.

Dinheiro não é a única forma de pagamento de clientes, varia também entre viagens, carros e objetos de luxo, de acordo com a situação. Luana* conta que já se sentiu tentada com algumas propostas, entre elas uma despedida de solteiro com a presença de outras mulheres. “Por ter outras mulheres juntas eu fiquei com vontade de aceitar, principalmente pelo dinheiro que era cerca de 4mil para cada menina e porque também eu sou bem fetichista”. A modelo afirma ainda que recusou por receio de mandar sua foto – que era obrigatória – e ter algum conhecido presente. “Além disso, eu não queria homem nenhum me escolhendo num cardápio de mulheres, isso me deu bastante ânsia”, diz ela.

O portal Gazeta Digital, lançou uma matéria em 2015 sobre famosas que já fizeram Book Rosa, entre elas estão Rita Cadillac e Andressa Urach. A ex-chacrete confessou no programa “Chega Mais” que fez Book Rosa por pouco tempo, mas que não se arrepende, pois precisava de dinheiro. Já a ex-panicat conta em seu livro “Morri para viver” que chegou a cobrar 15 mil reais por programa. “Se tivesse um cliente interessado em me pagar para ter sexo, o negócio era feito ali com o gerente da boate. Tudo era autorizado por mim. Eu dava um sim ou não para cada proposta antes de fechar o negócio”, explica num trecho de seu livro.

 

QUEM COSTUMA FAZER: modelos, atrizes iniciantes, assistentes de palco de programas de TV
QUEM COSTUMA CONTRATAR: empresários, jogadores de futebol, personalidades da mídia e estrangeiros
QUANTO CUSTA: modelos anônimas 400 reais a horas; atrizes iniciantes, assistentes de palco e dançarinas de 2mil a 3mil
QUEM COSTUMA FAZER PROPOSTA: recrutadores anônimos, agentes pessoais, agência de modelo
ONDE SÃO FEITAS AS PROPOSTAS: grupos de job no WhatsApp, redes sociais e na própria agência
PERFIL EM GERAL: mulheres novas e magras

 

 

 

 

– O preconceito e machismo sobre a profissão

Quando a novela “Verdades Secretas” estreou em junho de 2015, diversos assuntos foram abordados, mas não houve um foco direto no preconceito da sociedade e na forma machista que muitos clientes tratam as mulheres durante um programa.

A estudante de publicidade e propaganda e modelo, Isabelle Candido, 19 anos, conta que não conhecia o termo Book Rosa até assistir a trama da Rede Globo e afirma que nunca recebeu proposta, mas se caso isso acontecesse se sentiria um objeto sexual e enojada. “Acho que de forma geral é muita objetificação da pessoa, como se ela só servisse para isso, ou fosse burra ao ponto de não saber fazer nada além de usar seu corpo e sua imagem”, diz ela.

Nojo e constrangimento foi o que sentiu a modelo Carol*, 20 anos. A jovem trabalha no mundo da moda há cerca de três anos e conta que todas as vezes que recebeu propostas foram pela internet, mas nunca aceitou fazer programa, nem ser acompanhante de luxo. Mesmo recusando, as mensagens em suas redes sociais são frequentes.

A primeira vez que a modelo recebeu uma proposta, um recrutador de uma agência (na qual ela não quis identificar) a abordou para fazer uma feira em que aconteceria um pavilhão de exposições. Carol* explica que num primeiro momento não entendeu do que se tratava, mas aceitou conversar com o homem. “Conversa vai, conversa vem, ele começou a falar que eu era muito bonita, e que poderia ganhar mais dinheiro fazendo outras coisas. Foi nessa hora que ele me ofereceu o Book Rosa e ficou falando de valores”, diz ela.

Carol* comenta que não sabia o que lhe responder e que ficou espantada com a forma natural que ele fez a proposta. “Fiquei constrangida, me senti uma mercadoria, e usada e vi que a parte de eventos, desfiles e catálogos eram só fachada”. Ela conta ainda que, na maioria das vezes, eles usam perfis falsos para não serem reconhecidos e até mesmo dificultar denúncias. Há alguns casos ainda que meninas menores de idade são recrutadas para ficha rosa.

 

Luana* conta que já conheceu garotas de programas e explica que não usavam a nomenclatura Book Rosa, pois não trabalhavam com eventos. “Das meninas que conheci na área de eventos, não sei qual era ficha rosa. Nunca me interessei em perguntar e ninguém costuma ficar falando essas coisas”. Para a modelo, a prostituição é extremamente opressora para a mulher, pois ela é vista como se não tivesse valor.

A jovem fala que em sua opinião o único momento em que o homem se sente no poder é quando está entre prostitutas, pois ele tem controle sobre a situação. Muitas vezes ele sente que não precisa ser gentil, nem ter cordialidade, pois está pagando para satisfazer a todos seus desejos. “Eu tenho nojo da prostituição, mas não pelo papel da mulher e sim pelo papel do homem, pela sua arrogância, pelo machismo e misoginia!”, desabafa Luana*.

Todas as três entrevistadas concordam que, apesar de existir o preconceito, as mulheres devem ser livres para decidir o que querem fazer com o seu corpo. A discussão sobre o machismo que atinge todas as classes e gêneros é de extrema importância, uma vez que esse pensamento mata. No Brasil mulheres ainda são mortas por trabalharem com o sexo, não somente fazendo Book Rosa. Portanto, a reflexão e o debate sobre o preconceito com profissionais do sexo é de relevância pública.

 

*Nome fictício para preservar a identidade da fonte, mediante ao conteúdo e exposição da imagem.
**Fotos ilustrativas. A modelo utilizada nas imagens não tem vínculo com Book Rosa.

 

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Um comentário

  1. Se prostituição é legal o book rosa é legal também pois trata-se somente disso: prostituição. Podem dar o nome mais bonitinho e politicamente correto que quiser mas quem está num catálogo rosa não pode ser classificada diferentemente que prostituta. Se é certo ou errado cada sociedade decide.

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