Menstruação: Nojo? Nunca mais!
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Menstruação: Nojo? Nunca mais!

Menstruação: Nojo? Nunca mais!

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Alvo de tabus, a menstruação é encarada de forma negativa pela maioria das mulheres. Entenda a razão da rejeição e como melhorar a relação com o próprio sangue.

Menstruação pelo mundo. | Foto: Luana Rodrigues.
Foto: Luana Rodrigues.

Ora motivo de festa, ora de condenação, a menstruação é alvo de tabus ao longo de muitos séculos. Na Idade Média, a igreja católica e outras religiões judaico-cristãs excluíram as mulheres menstruadas de rituais e comunhões por acreditarem que eram impuras e perigosas.

Um dos fundadores da filosofia ocidental, Aristóteles, chegou a alertar que uma mulher menstruada era capaz de enfeitiçar pessoas só pelo olhar, como conta a publicitária e pesquisadora em Cultura e Sociedade da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Izabela Alcantara. 

A menstruação é alvo de tabus ao longo de muitos séculos. | Foto: Assíria Salim.
A menstruação é alvo de tabus ao longo de muitos séculos. | Foto: Assíria Salim.
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Na opinião da pesquisadora, essas percepções da menstruação introduzem um sentimento de abjeção e nojo ao sangue menstrual, colocando-o como inferior a qualquer outro fluido corporal, e possuem traços de misoginia. Isso teria sido utilizado como estratégia de dominação sobre a corporalidade e identidade de gênero das mulheres cis.

Mesmo hoje, com explicações científicas, o período menstrual enfrenta os males do desconhecimento e é motivo de vergonha para muitas mulheres em diferentes etapas da vida.

Uma pesquisa realizada com 1,5 mil mulheres de cinco países, incluindo o Brasil, pela marca de absorventes Sempre Livre, em parceria com a Kyra Pesquisa & Consultoria, revelou que 54% das mulheres entre 14 e 24 anos tinham nenhum ou pouco conhecimento sobre a menstruação no momento da menarca, primeira menstruação. 

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De acordo com o levantamento, no geral, 50% das mulheres no mundo se sentem desconfortáveis, 40% sujas, 28% inseguras e somente 24%  demonstraram confiança no período menstrual. No Brasil, 66% se sentem desconfortáveis, 57% sujas, 42% inseguras e 19% capazes.

A psicóloga, Gestalt-terapeuta, Bruna Improta, explica que essa dificuldade em lidar com a menstruação parte de um aspecto educacional. 

A cultura do patriarcado nos ensina a ter nojo, que é sujeira, e nos desconecta do real sentido e função de menstruar. Os absorventes descartáveis tem uma série de substâncias químicas que, na tentativa de secar o sangue e neutralizar o odor de ferro, deixam um cheiro e aspecto desagradável. 

Revela Bruna Improta

“Pensei que estava com uma doença, com um câncer. Passei um dia inteiro com a calcinha suja, sem saber o que fazer e sem coragem de contar a minha mãe. A primeira menstruação era sinal de que a menina virou ‘mocinha’, mas eu não entendia aquilo. Não sabia lidar com aquele cheiro e sujeira em mim, eu queria correr e brincar ”, conta a advogada Luciana Cristina Viana, 47, sobre a primeira menstruação. 

O sentimento de insegurança levou Luciana em busca de uma “solução” para os dias de sangramento. A advogada optou, então, por adotar o Dispositivo Intrauterino (DIU) de Mirena e está há quase 15 anos sem menstruar. Ainda assim, diz entrar em pânico quando ocorrem “escapes”. 

Estudante de Fonoaudiologia, 24, que preferiu não se identificar, já possui uma relação mais leve com a menstruação e fala do assunto com naturalidade, mas passou muitos anos sentindo vergonha de seu corpo. 

Foi como  se eu tivesse cometido um crime. Já sabia o que era, sabia que pessoas mais velhas tinham, mas senti extremamente suja, envergonhada e com medo. Associava muito o ‘virar mocinha’ com responsabilidades, obrigações de mulher que fui introduzida depois que menstruei.

Relata a estudante

Também representante da Mandala Lunar, Bruna afirma que uma das principais consequências da aversão à menstruação é a desconexão com os processos naturais do corpo e com a própria natureza. “Começamos a ter nojo do nosso próprio corpo, burlar as nossas próprias secreções, desconhecer o funcionamento cíclico das nossas emoções e tentamos tomar uma série de medicações para docilizar nossos corpos”, destaca.  

Fazendo as pazes com a Lua 

Assim como a Lua, o ciclo menstrual é dividido em quatro fases: fase pré-ovulatória, fase  ovulatória, fase pré-menstrual e fase menstrual. Segundo a psicóloga Bruna Improta, cada uma dessas fases desperta diferentes sensações e emoções no corpo e mente da mulher. A menstruação, mais do que “virar mocinha”, é um processo de autoconhecimento. 

“Quando reconhecemos nossos ciclos naturais, aprendemos a usá-los a nosso favor. Entendendo que na TPM (tensão pré-menstrual) estamos afiadas para perceber quais são as situações que mais nos desagradam, podemos melhorar isso posteriormente”, exemplifica.

A menstruação é um processo de autoconhecimento. | Foto: Assíria Salim.
A menstruação é um processo de autoconhecimento. Foto: Luana Rodrigues.

Uma das dicas da psicóloga para fazer as pazes com a menstruação é criar rituais que resgatem a conexão perdida, como a prática de ‘plantar a lua’, que consiste em colocar o sangue menstrual na terra e nas plantas. É possível fazer a coleta do sangue pelo coletor menstrual ou absorventes de pano, diluindo em água. Os absorventes descartáveis não são adequados por conterem aditivos químicos que podem contaminar a terra. 

A baiana Júlia Morais pratica o ritual desde 2014, quando conheceu o coletor menstrual e passou a ter uma relação mais próxima com a menstruação.  No ano seguinte, a jovem participou de um oficina de absorventes de pano e, tempos depois, passou a vender para fora, abrindo um negócio no Instagram, o perfil Flor de Maio. Desde então, passou a se interessar cada vez mais pelo assunto, pesquisando e integrando rodas de ginecologia natural. 

Você precisa ter contato com o sangue tanto para usar o coletor, quanto para usar o absorvente. Isso já quebra o nojo e a ideia de que o sangue é sujo. A Flor de Maio surgiu com o intuito de levar para mais mulheres, principalmente negras, que a gente pode se cuidar, entender o nosso corpo, os nossos ciclos.  

Conta a empreendedora

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Por Thídila Salim – Fala! UFBA

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