Legado Macabro - O que Zé do Caixão deixou
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Legado Macabro – O que Zé do Caixão deixou

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Em 19 de fevereiro, falecia, aos 83 anos de idade, o precursor brasileiro do gênero assustador do cinema, o infame Zé do Caixão

Nascido numa sexta-feira 13, em março de 1936, antes de ser Zé do Caixão, José era apenas José Mojica Marins, filho de espanhóis que viviam no bairro da Vila Mariana.

Desde criança, Zé já se interessava pelo cinema, graças ao seu pai, Antônio André Marin, que trabalhava em salas de projeção de um cinema na zona oeste, na Vila Anastácio. Quando tinha 12 anos, ganhou uma câmera V-8 e o entusiasmo pela sétima arte ficou mais sério.

Aos 20 anos, já fundava sua escola de atores em uma antiga sinagoga do Brás, e lá fazia experiências e testes de coragem com insetos nos pupilos. Considerado como um dos inspiradores do cinema marginal pela falta de verba para as produções e a maneira diferente do familiar tipo hollywoodiano.

Apesar de ser mundialmente famoso por suas produções de terror, José Mojica também trabalhou com faroestes, dramas, aventuras e até mesmo em pornochanchadas – gênero famoso dos anos 1970, que mistura comédia com erotismo.

Em 1958, filmou seu primeiro filme semiprofissional e experimental, Sentença de Deus, que nunca foi finalizado. No mesmo ano, lançou A Sina do Aventureiro, um faroeste caboclo dramático, cujo elenco era composto pelos alunos de sua escola, com exceção de Ruth Ferreira e Shirley Alvez.

Tem o terror escatológico como marca registrada de suas obras, e também pela maneira trash e crua de produção – inicialmente dada pela falta de recursos; José Mojica foi o primeiro no país a fazer filmes de terror e só quando seu trabalho foi considerado cult fora do país é que passou a ter destaque no país.

Já no começo, José foi amplamente desprezado pela crítica nacional, tendo sucesso notório em 1964, com o longa À Meia-Noite Levarei Sua Alma, cujo protagonista consagrou seu apelido.

Por seus métodos controversos, poucos atores confiavam em Mojica, por isso ele quem teve que interpretar o tenebroso protagonista
Por seus métodos controversos, poucos atores confiavam em Mojica, por isso ele quem teve que interpretar o tenebroso protagonista. | Foto: Reprodução/Escotilha

Zé do Caixão, curiosamente, nasceu de um sonho de Mojica, em que uma entidade o arrastava pelo cemitério para seu próprio túmulo. No dia seguinte, pôs-se logo a escrever o roteiro e, assim, nascia a obra que viria a ser sua principal referência.

Zé do Caixão era um apelido para Josefel Zanatas – Josefel pelo ‘fel’, ou seja, amargo e Zatanas como uma forma se escrever Satanás ao contrário. Seu personagem é um coveiro niilista e cruel, que aterroriza os moradores de uma cidadezinha do interior paulista; com uma obsessão de dar continuidade à sua linhagem – a qual ele considera superior – ele busca uma mulher à altura de gerar sua prole, que no caso, é a namorada de seu melhor amigo, o que não o impede de persegui-la.

O visual do personagem foi inspirado no Drácula de Bela Lugosi (1931) e nas notáveis unhas do alemão Conde Orlock, de Nosferatu (1922). A cartola como um charme macabro, ainda assim não apagariam a brasilidade no coveiro.

Com o sucesso do longa-metragem, mediano no Brasil, e estrondoso nos Estados Unidos e Europa, onde recebeu prêmios, em 1968 é lançada sua sequência, Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, o qual José Mojica considera como sua obra-prima.

Em 2015, o primeiro filme entrou na lista dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine).

Na época em que rodava À Meia-Noite Levarei Sua Alma, viu-se sem recursos para continuar a produção, o qual teve que vender os direitos do filme. Sofreu censura dos militares na época, pelo teor amoral e subversivo de suas obras, o que dificultou seu verdadeiro reconhecimento, podendo desfrutar de verdade da fama apenas em 1990, quando recebeu um prêmio por suas obras nos Estados Unidos. Ficou conhecido lá como Coffin Joe.

Ainda na década de 1990, apresentou o programa Cine Trash, da TV Bandeirantes, em que eram exibidos filmes de terror. Virou personagem do Maurício de Souza, o Zé Canjica, e foi homenageado no desenho adulto da MTV, Fudêncio e Seus Amigos, em que a escola que a turma frequentava tinha o nome E.E.P.S.G. Professor José Mojica Marins.

Sua obra não foi tão reconhecida pelo público pelo fato de existirem poucos filmes seus disponíveis no mercado – até então, não havia nenhum filme seu em qualquer plataforma de streaming, por exemplo, com exceção de seu programa no Canal Brasil de 2008, O Estranho Mundo de Zé do Caixão.

No mesmo ano, é lançado o final da trilogia de Zé do Caixão, Encarnação do Demônio, agora com orçamento adequado, 30 anos depois da última direção de Marins em um longa.

O canal Space – de televisão de assinatura -, produziu em 2015, uma minissérie inspirada na vida de José Mojica, nomeada Zé do Caixão, em que o diretor foi interpretado por Matheus Nachtergaele. Também foi nesse ano que Marins realizou sua última obra, As Fábulas Negras, filme de produção independente, que contou não só com a direção de Zé, mas também de outros mestres do terror brasileiro como Rodrigo Aragão (A Noite dos Chupacabras), Peter Baiestorf (Zombio 2 – Chimarrão Zombies) e Joel Caetano (Casulos).

A película é divida em cinco curtas, que retratam uma versão mais dark do folclore brasileiro. Assim, Zé do Caixão dirigiu a que contava a do Saci. Dirigiu 40 produções e atuou em mais de 50, ao longo de sua carreira.

Zé do Caixão
À esqueda, Matheus Nachtergaele como Zé do Caixão. À direita, o original. | Foto: Reprodução/Folha Vitória.

José Mojica Marins deixa a esposa, Edineide Silva, sete filhos, 12 netos, uma bisneta e um legado poderoso não só para o cinema brasileiro, mas para o gênero do terror no cinema. 

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Por Giovana Floriano – Fala! Anhembi

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