Fanfictions: formador de Clélia Kruschinski e outros novos autores
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Fanfictions: formador de Clélia Kruschinski e outros novos autores

Fanfictions: formador de Clélia Kruschinski e outros novos autores

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Fanfictions e o sucesso das plataformas literárias digitais, como o Wattpad, trouxe a abertura de portas para novos autores e Clélia Kruschinski Müller está entre eles

Escritora de fanfictions, a autora de 23 anos tem uma paixão nada secreta por felinos, K-pop, dorama e literatura. Com mais de 3 milhões de visualizações acumuladas em obras postadas na plataforma Wattpad, Clélia conta com uma base fiel de leitores, apaixonados por sua envolvente escrita. Recentemente, publicou seu primeiro livro físico Mais Parecidos: Princípios, pela Tulipa Editora, além de ter publicado em formato e-book a obra Entre o Poder e a Máfia. Em entrevista exclusiva, revelou que já está trabalhando em novos projetos. 

Um povo que não lê é um povo que não se interessa por diversos assuntos, por não ter conhecimento deles.

Revela a autora de fanfictions e livros.

A descoberta da Clélia escritora e as responsabilidades da profissão e suas fanfictions, confira a entrevista na íntegra

fanfictions
Clélia Kruschinski, destaque no mundo das fanfictions e dos livros. | Foto: Reprodução

1- Qual livro você acredita que tenha despertado o seu amor pela leitura?

Foi Lua Nova (Stephenie Meyer) sem dúvida alguma. Eu queria muito saber a continuação do filme Crepúsculo e só existiam os livros na época, e aconteceu que um colega de aula estava lendo Lua Nova. Pedi emprestado para ler durante a aula (risos) e acabei viciando. Por fim, meu pai acabou me dando o box com os quatro livros e, desde então, minha coleção de leitura vem aumentando. 

2- Em relação a isso, como você se descobriu escritora?

Foi quando terminei de ler Amanhecer (da série Crepúsculo). Eu só queria ler continuações, e acabei encontrando fanfics, sem saber o que eram. Chegou num ponto que decidi eu mesma escrever uma, porque queria algo diferente do que tinha lido até então. Comecei postando em um blog criado por mim mesma, e depois fui para os sites de fanfic e originais. Isso foi lá por 2010, 2011, mas foi em 2014 que entendi que queria levar isso a sério, quando eu tinha dezesseis anos. 

3- Você inicialmente começou publicando suas obras e fanfictions no Wattpad, de que forma você acredita que a plataforma viabiliza o acesso à literatura nacional e de que maneira te ajudou a publicar seu primeiro livro físico?

Então, eu comecei bem antes do Wattpad ser de fato popularizado no Brasil. Comecei no Nyah! Fanfiction, depois fui para o Anime Spirit (hoje Social Spirit) e por último passei pelo Wattpad, onde eu estou até hoje. Eu também já publiquei sozinha em blogs (e Tumblr), e dentre todas essas opções, eu acredito que o algoritmo do Wattpad (e seu reconhecimento tanto no Brasil quanto fora) influenciam demais na fama das histórias.

Como qualquer site de publicação independente e de graça, o Wattpad não tem muitas regras, contanto que você respeite algumas diretrizes básicas, então particularmente é muito fácil publicar algo lá, basta ter o texto, um nome de história e um perfil, nem precisa de capa ou algo assim, então acho que isso já facilita muito pros autores, para começar. Como o Wattpad se tornou muito popular, além de ser de fácil publicação, faz com que mais pessoas busquem por histórias lá, ao invés de procurar outros meios (como outras plataformas, como o Spirit, AO3, Nyah! Fanfiction), uniformizando a plataforma de leitura.

Acho que por conta do nome, visibilidade e tamanho do Wattpad, mais e mais editoras buscam histórias bem vistas e reconhecidas por lá, o que acredito que tenha ajudado Mais Parecidos. Querendo ou não, as histórias já têm um público, o que é importantíssimo para algumas editoras (na realidade, para todas), o que faz com que seja mais fácil iniciar as vendas, já que você sabe que, por mais que toda publicação seja um risco, ao menos o mínimo de retorno você vai ter. 

4- Qual sua responsabilidade, quanto autora, em relação à mensagem passada pela obra?

Não acho que seja “responsabilidade” no singular. Tenho várias responsabilidades e preciso arcar com minhas decisões com elas.

Existe a questão de pesquisa prévia quanto ao tema principal de uma história, mas também referente a como abordar diversos assuntos (considerados gatilhos), como apresentar conteúdos necessários, mas que assim podem ser problemáticos, como retratar minorias que não faço parte, dentre tantas outras coisas. Se eu entendi bem a pergunta, eu sinto que minha responsabilidade principal é retratar assuntos de forma a não ofender as pessoas, e ajudá-las a se sentirem representadas, ou ao menos compreenderem o que está sendo tratado, ao mesmo tempo em que gosto de mostrar a realidade da vida. Por isso acho que ser realista é necessário, mas sempre com a responsabilidade de estar retratando aquilo de forma correta (e justa). 

5- Em sua opinião, qual você considera o principal motivo do desestímulo de brasileiros em relação à leitura?

Educação. A gente sempre acaba discutindo ela, mas acho que é o principal. Meu estímulo de leitura não veio do colégio, e sim de meus pais. Meu pai sempre gostou muito de ler, e quando me viu interessada pela leitura, pegou o gancho e me tornou uma leitora assídua. No colégio, a influência era diferente: tive diversos professores que passaram livros muito legais, mas que não fizeram aquele sentimento de diversão crescer no meu peito, a obrigação estava sempre acima da diversão, o que não deve ser (no meu ver) o caso, caso você esteja tentando criar o gosto de leitura em crianças e pré-adolescentes.

Sinto que nossa educação é feita para que saibamos decorar conhecimentos que nem sempre serão necessários para nossa vida, enquanto influências positivas que nos fariam aprender muito mais são (propositalmente) deixadas de lado, como é o caso da leitura. Um povo que não lê é um povo que não se interessa por diversos assuntos, por não ter conhecimento deles, então acredito que nossa causa principal esteja justamente na educação, mas não por escolha dos professores ou até mesmo escolas, e sim por conta da base curricular necessária (e obrigatória). De todas as formas, acho que essa não é a única influência ao desestímulo da leitura, mas definitivamente é uma das bases. 

6- De onde vem sua inspiração? Há algo em suas obras ou fanfictions que você considera inspirado na sua vida pessoal?

Eu realmente não sei de onde vem a inspiração. Eu acho essa pergunta muito engraçada porque sempre brinco que no dia que alguém descobrir, devia me contar. Ela só vem. Já aconteceu de eu estar fazendo uma prova de vestibular e ter uma ideia de enredo nada vinculada à prova. Já aconteceram diversos casos em que eu estava fazendo algo super trivial, como passar café, e surgiu um novo enredo. Um dos meus enredos mais recentes foi montado (por inteiro) enquanto eu escovava os dentes uma da manhã, por exemplo.

Sobre inspiração na minha vida pessoal, eu não diria isso. Eu costumo pegar um traço meu e colocar em alguns personagens, como, por exemplo, um de meus personagens tem um traço em comum comigo, que é gostar de ler muito, mas nunca acontecimentos e questões muito pessoais. Acho que isso faria com que todos os meus personagens fossem iguais e tivessem o mesmo “passado”, o que não é o que eu quero. Às vezes coloco sentimentos também, como uma mágoa com um membro da família, esse tipo de coisa, porque eu compreendo esses sentimentos, mas nunca relaciono eles ao que eu vivi. 

7- Colleen Hoover diz no livro Verity que o principal erro dos leitores é não saber separar o autor de seus personagens, você acha que isso acontece com você e com suas obras?

Sim. Definitivamente. Eu demorei anos para convencer meus leitores de que eu e Gabrielle Williams (personagem principal da série Runaway Love) não éramos a mesma pessoa. Muitos leitores meus achavam que eu era grossa, estúpida e alguns outros adjetivos ruins por conta da Gabrielle, que tem esses traços, e particularmente não acho que eu seja assim. Diversos leitores meus já admitiram para mim que achavam que eu era como a Gabrielle e que quando conversaram comigo eu era muito diferente. Acho que até hoje isso acontece, mas como eu tenho uma gama muito diversificada de histórias (e personagens), isso diminuiu um pouco, apesar de ainda acontecer. 

8- Você tem algum ritual ou superstição antes de começar a escrever livros ou fanfictions?

Não diria ritual ou superstição, mas eu definitivamente preciso estar relaxada. Usualmente eu sento em frente ao computador por umas duas horas antes de começar a de fato escrever. Aí você me pergunta: “o que você faz nesse tempo?” (risos). Eu costumo passar esse tempo no YouTube, que é a rede social que eu mais uso. Assisto a vídeos diversos, mas normalmente tem a mesma “vibe” que a história que eu estou trabalhando no momento. 

9- Já ocorreu de você se sentir desconectada com uma história, ou personagem, ao ponto de ter que parar de escrevê-la, definitivamente ou por um período de tempo?

Já sim. Já aconteceu tanto de eu ter que engavetar a história (não digo desistir definitivamente, porque talvez volte no futuro, mas não voltei até agora), ou só pausar. Foi o que aconteceu com Mais Parecidos, por exemplo, quando era publicado como fanfic. Fiquei meses (acho que até um ano) sem atualizar o próximo capítulo, e aí do nada me deu inspiração, porque consegui me reconectar com a história.

Depende muito do tipo de história, mas às vezes eu só me sinto desconectada porque não quero escrever algo muito leve ou muito pesado, aí preciso ficar trocando um pouco de histórias até voltar para a que eu estava ‘inicialmente’, mas um fato é básico para mim: se eu não me conectar com a minha personagem principal, eu vou travar até ela se abrir pra mim e eu conseguir compreendê-la. 

10- Não podemos ignorar o projeto de lei que prevê a taxação de livros, você acredita que seja proposital como forma de elitizar ainda mais o acesso à cultura?

Sim! Mil vezes sim. Os livros são caríssimos no Brasil por diversos motivos, o que já torna esse tipo de conteúdo muito elitista. Taxar ele ainda mais impediria até mesmo muitas pessoas já dentro desse grupo de leitores “de elite” de comprar esses livros, porque seria inviável pagar preços ainda mais absurdos nesse tipo de conteúdo. 

11- Em algum momento, você planeja se aventurar em outro gênero senão o romance?

Pois bem, eu já faço isso (risos). Eu tenho livros em diversos temas/gêneros: suspense, aventura, romance, ficção científica, policial, mitologia, romance histórico… mencionei ali em cima que eu costumo ficar trocando de história até me reconectar com a que eu gostaria de escrever, e é isso que eu costumo fazer: saio de um romance, vou para ficção científica, e então vou para um romance policial, logo em seguida para aventura, e retornarmos para o romance ali de trás. Varia bastante de acordo com meu humor, também. Às vezes eu só quero assassinar um personagem, e não costumo assassinar personagens em livros de romance (ainda…). 

12- Por fim, tem algum novo projeto vindo aí ou novas fanfictions? Pode falar um pouco sobre ele?

Eu estou trabalhando em cinco projetos diferentes no momento, mais uma fanfic por pura diversão. O primeiro projeto é o que todo mundo já sabe, que é a continuação de Mais Parecidos: Princípios, que já está escrita, mas preciso fazer uns ajustes antes de enviar a minha versão final para a editora trabalhar em cima, outro projeto é Runaway Love, que gostaria de lançar o próximo livro ano que vem. Não sei se será possível, mas estou tentando (na realidade eu sei a resposta, mas nesse caso não posso confirmar ainda – risos). Temos Trem Errado 1: Segredos que Nunca Contaríamos, que eu estou em processo de pesquisa, apesar de já ter escrito alguns capítulos e tornado eles públicos e temos duas histórias que eu não comentei sobre o que são. Ambas têm romance, mas uma é romance puro (pretendo que seja um livro único), e outra fala de K-Pop (entre dois a três livros… talvez?).

Do mar viemos, ao mar voltaremos

Jason Brooks, personagem de Mais Parecidos, uma de suas fanfictions mais conhecidas.

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Por Carol Gonçalves – Fala! Cásper

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