Cultura da Magreza: Você sabe como ela surgiu?
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Cultura da Magreza: Você sabe como ela surgiu?

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Para saber de onde veio a cultura da magreza, é necessário voltar para a Antiguidade Clássica e entender a concepção de belo para os gregos. A beleza, para eles, era sinônimo de perfeição e a perfeição se baseava na   simetria corporal em conjunto com a naturalidade. A partir daí que a concepção de corpo torna-se inteiramente ligada à imagem e representação, ou seja, o corpo começa a ser caracterizado apenas com o viés estético

Desde sua criação, essa concepção é seguida. A única diferença é o padrão de perfeição estabelecido pelas sociedades ao longo da história (vale ressaltar que a cultura da magreza, assim como todos os outros padrões já criados, atinge a todos, porém, os mais afetados são as mulheres).

Durante o feudalismo, por exemplo, o conceito de belo estava associado à gordura, porque, na época, ter fartura de alimento era um luxo, uma indicação de riqueza, por isso, tal estereótipo era seguido.

Já o culto à magreza, possui algumas explicações de como surgiu, uma delas é da psicóloga Joana de Vilhena Novaes, Coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza e representante da Fundação Dove para a Autoestima no Brasil. Joana diz que conseguir ser magro(a), atualmente, pode ser visto como um desafio ou objetivo, pois com tantos alimentos à disposição e tantos meios para conservá-los torna-se mais difícil atingir a magreza e, por isso, aqueles que conseguem são tão admirados e seguidos como exemplos.

cultura da magreza
Distorção da Autoimagem. | Foto: Reprodução/Internet/Dreamstime.

A segunda explicação parte da escritora norte americana, Naomi Wolf, em seu livro O Mito da Beleza. A autora alega que a cultura da magreza é mais um mecanismo criado para controlar as mulheres (já que estas começaram a ganhar mais liberdade e conseguir seus direitos a partir do século XIX) para ditar para elas o que é certo, o que é belo e o que é aceito ou não, levando o público a fazer loucuras para atingir a perfeição imposta. Assim, a indústria de moda, de cosméticos, de alimentos dietéticos e das cirurgias plásticas cresce e lucra com o dinheiro que tais mulheres investem. 

“[…]Os nossos corpos não pertencem a nós, mas à sociedade, que a magreza não é uma questão de estética pessoal e que a fome é uma concessão social exigida pela comunidade. Uma fixação cultural na magreza feminina não é uma obsessão com a beleza feminina mas uma obsessão com a obediência feminina”. (WOLF, Naomi,p.247).

Naomi também apresenta em seu livro alguns dados: “Há uma geração, a modelo média pesava 8% a menos  do que a mulher americana média, enquanto hoje ela pesa 23% a menos do que a média”. Ela dá o exemplo da modelo Twiggy, revelada em 1965 pela revista Vogue, mostrando o que o próprio diretor de moda teria dito sobre a modelo.

Twiggyse chama Twiggy porque ela tem a aparência de quem seria partida ao meio e jogada ao chão por um vento forte…Twiggy é de constituição tão magra que as outras modelos a veem com espanto. Suas pernas dão a impressão de que ela não tomou leite em quantidade suficiente quando bebê, e seu rosto tem aquela expressão que os londrinos tinham durante a guerra.

Dizeres do produtor de moda, segundo Naomi Wolf
Modelo Twiggy
Modelo Twiggy. | Foto: Reprodução.

Outro dado revelador apresentado pela autora é que entre 1966 e 1969, a porcentagem de alunas de ensino médio as quais se achavam gordas subiu de 50% para 80%.

A cultura da magreza cresce ainda mais atualmente, principalmente com a ascensão das redes sociais, como Instagram, Facebook, Twitter, TikTok e outras. Em um ambiente onde fotos são editadas, procedimentos cirúrgicos são feitos e dietas são disseminadas, tudo com o objetivo de mostrar a perfeição, as pessoas estão ficando cada vez mais doentes e desenvolvendo transtornos alimentares, como bulimia e anorexia.

Para entender mais sobre as consequências da cultura da magreza na sociedade, o doutor Drauzio Varella entrevistou o Prof. Dr. Táki Cordás, fazendo-lhe perguntas sobre bulimia e anorexia. 

Na anorexia o emagrecimento é muito acentuado, os pacientes que possuem esse transtorno alimentar apresentam peso abaixo do normal e recusam-se a alimentar-se adequadamente mesmo sabendo do risco que correm. Também fazem atividades físicas exageradas, jejuam, vomitam. Tudo isso porque têm uma distorção grave da autoimagem.

Já a bulimia, apresenta sintomas diferentes, muitas vezes, as pessoas têm um corpo escultural e o cuidam de maneira excessiva, fazendo dietas e comendo apenas salada. Porém, de repente podem comer tudo o que veem pela frente, podendo ingerir em um único episódio de 5 mil kcal a 20 mil kcal de uma  vez. Depois, vomitam muito, às vezes chegam a vomitar 5, 10, 15 vezes por dia para evitar o aumento de peso.

Explica o doutor Táki

Por fim, Drauzio o questiona por sempre usar o feminino na entrevista e pergunta se essas doenças também atingem homens. Táki diz que acontece, mas é raro, apontando que em torno de 90% a 95% dos casos ocorrem com mulheres.

Contudo, é importante citar que quando se tenta padronizar um estilo de corpo, a tendência é que em certo ponto nasça uma inquietação quanto ao imposto, e assim a promoção de novos estilos começa a surgir, quebrando os paradigmas corporais. Exemplos disso é o aparecimento de modelos plus size, a campanha que diversas mulheres fazem em busca da autoaceitação e também uma maior preocupação com a saúde dos indivíduos.

Com o passar do tempo, as pessoas vão se conscientizando e cobrando a sociedade sobre o padrão estético imposto, assim, a mídia e a moda se reinventam para não ficarem para trás, ou sejam canceladas, como é dito atualmente.

Naomi faz uma ultima observação em seu livro quanto aos padrões impostos, em especial às mulheres:

Talvez nós deixássemos nossos corpos engordar e emagrecer, apreciando as variações sobre o tema, e evitaríamos a dor porque, quando alguma coisa dói, ela começa a nos parecer feia. Quem sabe não passemos a nos enfeitar com verdadeiro prazer, com a impressão de estarmos adornando o que já é lindo. Talvez, quanto menor for a dor a que submetamos o nosso corpo, tanto mais bonito ele nos pareça. Talvez esqueçamos de levar  estranhos a nos admirarem, e descubramos que isso não nos faz nenhuma falta.

Antes e Depois. | Foto: Divulgação.

Fontes:

  • Maria Helena Silva Rocha – de 1960 a 2009: a evolução dos padrões corporais a partir das tendências da moda. Um estudo de Claudia e Nova.
  • Livro: O Mito da Beleza – Naomi Wolf
  • Historiador de moda fala sobre a cultura da magreza
  • Por que achamos que ser magro é bonito?
  • Anorexia e bulimia nervosas

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Por Beatriz Oliveira Testa – Fala! Cásper

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