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Crônica – Vagas Arromb#das e onde habitam

Crônica – Vagas Arromb#das e onde habitam


Há uns dias, vi uma vaga cujos requisitos eram: conhecimento em marketing digital, criatividade e controle emocional. pensei: “bom, o mercado de trabalho acabou para mim. ou a pessoa é criativa, ou ela tem controle emocional. os dois você já está pedindo demais”. apesar da ironia momentânea, fiquei com a vaga em mente. então, para ajudar os recrutadores com essa seleção dificílima, criei um sistema de cenários hipotéticos que podem facilitar um pouco a vida dos coitados e testar com eficiência o nível de controle emocional do jovem candidato. são eles:

cenário número um: primeiro, o colocam numa sala de reunião, sob ar condicionado em temperatura negativa, enquanto você observa, pelas janelas panorâmicas, o sol de 37ºc atingindo os prédios espelhados e cegando aqueles que o olhavam de fora e ousavam sonhar em estar dentro de um. depois, enchem a sala com executivos paulistanos e cariocas, da agência de comunicação externa e interna. começam a quebrar o gelo falando sobre cocô de seus filhos, almoço em restaurante caro, patinetes elétricos, os incompreensíveis millennials, o último lançamento da netflix, seus respectivos sabáticos na Índia. você transmite a tela de seu computador e, apesar de a reunião ainda não ter começado, é proibida de mexer na tela ou no seu celular. você, então, escuta o quebra-gelo eterno e participa, até, sentindo vontade de derretê-lo com um maçarico. você escuta atentamente enquanto a chefe de seu chefe, que sempre chega com cerca de 30 minutos de atraso, chama a atenção de uma das moças da agência externa, de maneira tão intensa que a coitada decide encerrar sua parte mais cedo e partir. começam, então, a falar num dialeto ainda desconhecido para os meros mortais: o corporativês, que é uma mistura de palavras em inglês que existem perfeitamente em português. um adendo: geralmente, quem fala corporativês nem fala inglês tão bem assim. sim, a gente viu você pesquisando essa palavra no google tradutor. alinhe isso, brainstorm naquilo, faça essa call, abra este shopping cart, não cabe no meu budget, vamos marcar um one on one. brifa ela sobre isso, me entrega as reports, fechamos deal, fechamento de quarter, faça um elevator pitch pra ele. você vai até a copa e pede café e água para 7 pessoas. o café possui duas funções:

  1. o quebra-gelo (ainda não foi quebrado por inteiro), pois aparentemente nenhum café é bom o suficiente para os cariocas e
  2. o não-aguento-mais-duas-horas-dessa-merda-e-quero-deixar-isso-explícito. Quando o café chega, é sinal que a chefe pode falar a famosa frase “vamos acelerar aqui e tentar terminar mais cedo, tenho uma call marcada às 15h30”, seguida pela piada: “querido estagiário*” não eu, obviamente, o outro “você não pode pegar uma dpzinha pra você poder ficar mais um ano aqui com a gente? a gente paga sua mensalidade! a gente te ama tanto!”, que é seguida pela risada forçada e o “não” desconfortável do estagiário*. quando a reunião acaba, abandonam seus copos usados e folhas amassadas sobre a mesa.

cenário número dois: você se demitiu há quase um mês. ou talvez tenha sido demitida, ou talvez foi um acordo entre as duas partes. você não está mais lá. recebe, às 10 da manhã — horário de aula — uma mensagem intrusiva de seu antigo chefe. ele gostaria de saber sobre o processo que ele nunca procurou aprender sobre, mas que sempre gosta de cobrar, mesmo sabendo que o andamento continua igual. você explica pela centésima vez, e ele rebate “bom, estamos trabalhando de outro jeito esse ano. tem que fazer uma pasta com esses arquivos”. após consultar alguns amigos, você responde “ok, só fazer então” e aguarda a resposta. ele diz: “acontece que o seu e-mail não existe mais na empresa. você guardou algum documento?” e, antes que você possa pensar em responder “exatamente onde, no meu cu?”, você decide enviar as “instruções” de seu antigo chefe ao seu ex-colega estagiário, pois parecem mais pertinentes à ele. quando ele explica a situação, fica claro que você não havia feito nada de errado — o chefe só estava tentando te culpar e tornou isto a pauta da reunião deles, inclusive narrando sua conversa durante a mesma.

o que é, exatamente, controle emocional, e quem tem a capacidade de te julgar por tê-lo ou não? não seria relativo? apesar de alguns surtos de impulsividade, estou no controle de minhas emoções e estar viva é prova disso. por outro lado, pergunto-me: e se todos já perderam o controle, e quem ainda o possui é considerado insano?

Lais Costa – Fala! Anhembi

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