Crítica: 'Midnight Mass', uma minissérie sobre morte, fé e redenção
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Crítica: ‘Midnight Mass’, uma minissérie sobre morte, fé e redenção

Crítica: ‘Midnight Mass’, uma minissérie sobre morte, fé e redenção

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A mais nova minissérie da Netflix Midnight Mass, traduzida no Brasil como Missa da Meia-Noite, teve sua estreia oficial nesta última sexta-feira (24) na plataforma de streaming. A obra é mais um projeto de terror do produtor, editor, diretor e roteirista Mike Flanagan, criador de outras aclamadas produções como A Maldição da Residência Hill (The Haunting of Hill House) e A Maldição da Mansão Bly (The Haunting of Bly Manor).

A minissérie, composta por 7 episódios em torno de 1 hora cada, contou com uma aprovação quase unânime das críticas, no consenso de que Midnight Mass é uma obra poderosa que explora as angústias da natureza humana de uma forma sensível e inovadora. Nos dois primeiros dias de sua estreia, a produção ficou no TOP 10 das séries mais assistidas na Netflix em mais de 50 países.

Mas o que faz a série ser tão instigante?

Personagens de "Midnight Mass" em foto promocional da série.
Personagens de “Midnight Mass” em foto promocional da série. | Foto: Eike Schroter/Netflix.

O misterioso enredo de ​Midnight Mass ​

Midnight Mass é uma daquelas séries que quanto menos você sabe o que vai acontecer, melhor o efeito que ela possui no final. Todo o trabalho de divulgação foi pensado em revelar o mínimo possível do enredo, desde as fotos promocionais até o trailer oficial, que não apresentou quase nenhuma cena dos episódios finais. Em consonância com isso, esse texto não irá abordar nenhum dos detalhes e revelações que podem comprometer a experiência de quem ainda não assistiu a série.

A primeira cena da trama nos leva para quatro anos no passado, em um trágico acidente de trânsito envolvendo Riley Flynn (Zach Gilford) que, por dirigir sob efeito de álcool, matou uma jovem mulher. Após servir alguns anos na prisão, acompanhamos o retorno de Riley para o lugar onde ele nasceu e cresceu: a Ilha Crockett, uma pacata, isolada e religiosa ilha de pescadores. Na chegada do personagem, conhecemos melhor qual a relação dele com os pais e com sua amiga de infância, Erin Greene (Kate Siegel), que terá um papel importante no desenrolar da história.

Erin Greene (Kate Siegel) e Riley Flynn (Zach Gilford).
Erin Greene (Kate Siegel) e Riley Flynn (Zach Gilford) em “Midnight Mass”. | Foto: Eike Schroter/Netflix.

Por coincidência (ou não), uma nova figura também chega em Crockett no mesmo dia: Paul Hill (Hamish Linklater), um jovem e misterioso padre que, de modo suspeito, diz estar em uma passagem temporária na ilha para substituir o antigo sacerdote que se encontra doente. 

Com a visita do padre Paul, uma série de episódios milagrosos começam a abalar o pequeno município, principalmente após o acontecimento envolvendo a menina Leeza (Annarah Cymore) que, no momento da eucaristia, recuperou sua habilidade de andar depois de um acidente que a tinha deixado paraplégica. A partir disso, é instaurada uma febre religiosa na ilha, mas o que poucos da comunidade sabem é que esses milagres têm um preço. 

Já no episódio piloto, é construída uma atmosfera de suspense que deixa claro que há algo sobrevoando e caminhando pela escuridão da ilha, e que esse mistério está relacionado com o segredo terrível que o novo padre carrega.

Padre Paul Hill (Hamish Linklater) em "Midnight Mass".
Padre Paul Hill (Hamish Linklater) em “Midnight Mass”. | Foto: Eike Schroter/Netflix.

A sensibilidade de Mike Flanagan

Mike Flanagan já está consolidado como um dos maiores cineastas de terror da atualidade, conhecido por construir a sensação de medo e suspense através de personagens bem desenvolvidos e uma trama envolvente. Ao apelar para um medo muito mais profundo do que espíritos ou criaturas do mal, o terror de Flanagan cresce no psicológico de quem assiste ao abordar a fundo temas como solidão, culpa, abuso, luto e trauma, criando produções únicas e sensíveis que agradam mesmo aqueles que não se interessam pelo gênero.

Midnight Mass é um reflexo de quase uma década de planejamento e execução, e a ideia da história já vem sendo notada em pequenas aparições nas outras obras de Flanagan, como nos longas Hush (2016) e Jogo Perigoso (2017), ambos também veiculados pela Netflix. Em Hush, a protagonista é autora de um livro com o título de Midnight Mass e o filme chega a ter cenas com diálogos que mencionam personagens como Riley e Erin, presentes na atual minissérie. Já em um determinado momento de Jogo Perigoso, adaptação de Stephen King, é possível perceber um exemplar do livro fictício de Midnight Mass na prateleira.

Livro fictício de "Midnight Mass" tem aparição no filme "Hush" (2016).
Livro fictício de “Midnight Mass” tem aparição no filme “Hush” (2016). | Foto: Montagem/Netflix.

A minissérie pode ser considerada o trabalho mais pessoal e inovador de Flanagan, que revelou em uma nota oficial: “Midnight Mass é meu projeto favorito até agora. Como um ex-coroinha e chegando perto de celebrar 3 anos de sobriedade, não é difícil perceber o que faz essa obra tão pessoal. As ideias na raiz dessa série me assustam de forma profunda.” 

Assim, ao explorar temas de seu próprio passado no enredo, Flanagan entrega uma obra que transmite lições e mensagens de ressonância emocionante, tratando de temas atuais como corrupção e fanatismo, mas sem abandonar o terror clássico da força sombria e sobrenatural, que se fortalece e possui maior presença com o passar dos episódios.Dessa forma, não é à toa que Midnight Mass chegou a ter o reconhecimento de Stephen King, um dos maiores escritores de terror e suspense da atualidade, que relatou na sua conta do Twitter que “Mike Flanagan criou um denso e lindamente fotografado conto que chega no ápice do terror no sétimo e último episódio”.

A minuciosa construção do ambiente e dos personagens de Midnight Mass

A trama de Midnight Mass é construída por meio de longos e recorrentes diálogos e monólogos. Para muitos, a falta de ação nos primeiros episódios da série pode dar a impressão de reviravoltas previsíveis e enredo maçante, mas é o completo oposto: o ritmo lento inicial é a chave para o espectador conhecer a fundo a rotina e as motivações dos personagens e se sentir parte da comunidade da pequena ilha. Dessa maneira, as revelações dos episódios seguintes possuem muito mais força.

Nos capítulos iniciais, a série guarda o terror como um plano de fundo enquanto quem assiste foca nas relações entre os personagens e seus próprios traumas. É estabelecida uma ambientação incômoda, quase sufocante, de que todos se conhecem e estão presos na ilha isolada enquanto há algo estranho e suspeito acontecendo ao redor. 

Através dos personagens, a série aborda subtemas importantes que enriquecem a história, como o arco do Xerife Hassan (Rahul Kohli), um oficial muçulmano que tenta manter a ordem na ilha enquanto navega sua própria fé na comunidade fortemente cristã. Ao longo do enredo, descobrimos que ele abandonou seu trabalho no FBI após experienciar injúrias raciais e xenofóbicas, e que aceitou um posto na ilha para tentar garantir um lugar seguro para seu filho.

A construção dos personagens em Midnight Mass é tão explorada que há uma fluidez no protagonismo, em que cada uma das principais figuras da série tem seu momento de destaque. Além dos já mencionados Hassan, Paul, Leeza, Riley e Erin, outras personalidades também são essenciais para a história, como Bev Keane (Samantha Sloyan), uma fanática religiosa que segue cegamente os textos bíblicos, querendo impor seus pensamentos e diminuindo aqueles que vão contra suas crenças. Ela é a personificação do fanatismo religioso que a série crítica.

Bev Keane (Samantha Sloyan).
Bev Keane (Samantha Sloyan) em “Midnight Mass”. | Foto: Netflix.

Para opor o radicalismo cristão de Bev, há a Dr. Sarah Gunning (Annabeth Gish), uma jovem médica que busca explicações lógicas sobre o que está acontecendo na ilha enquanto cuida de sua mãe doente. Sarah se apoia na explicação científica até quando observa indícios concretos do sobrenatural e, junto com Riley, é uma das personagens que representa o ceticismo.

Mesmo com toda a preocupação do roteiro em explorar os valores, representações e passado dos personagens, a história não seria tão envolvente sem o desempenho excelente do elenco para guiar as cenas. Com um destaque especial para as performances de Hamish Linklater, Kate Siegel e Samantha Sloyan, Midnight Mass apresenta atuações que sustentam longos monólogos de tirar o fôlego, o que contribui fortemente para o brilhantismo da série.

A poderosa reflexão proposta por ​Midnight Mass​

Midnight Mass trata sobre assuntos provocantes do início ao fim, instigando questionamentos milenares e profundos sobre fé e religião: para onde vamos após a morte, qual nosso propósito em vida, se há ou não a existência de uma autoridade divina guiando a humanidade e, se sim, por que essa entidade permitiria tanto caos, sofrimento e injustiça. 

Flanagan é excepcional ao retratar na obra a dicotomia de vida e morte, tolerância e julgamento, perdão e mágoa. A produção não se intimida com a temática pesada e divisiva, o que abre espaço para monólogos poderosos que guiam a série e demonstram como a religião pode ser uma fonte de apoio e acolhimento ou ser usada para encorajar violência, discriminação e preconceito.

Com críticas explícitas ao fanatismo, vício, corrupção e desonestidade, Midnight Mass costura um drama de terror intimista que reflete medos e angústias profundas da natureza humana, contemplando personagens fortes e um suspense bem construído. Por mais que tenha um desenvolvimento lento, principalmente nos primeiros episódios, a produção compensa com reviravoltas expressivas e um final comovente que permanece assombrando os espectadores mesmo após a rolagem dos créditos finais.

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Por Luana Simões – Fala! UFPE

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