‘Crip Camp: Revolução Pela Inclusão’ - leia a crítica do documentário
Menu & Busca
‘Crip Camp: Revolução Pela Inclusão’ – leia a crítica do documentário

‘Crip Camp: Revolução Pela Inclusão’ – leia a crítica do documentário

Home > Entretenimento > Cinema e Séries > ‘Crip Camp: Revolução Pela Inclusão’ – leia a crítica do documentário

Se fosse possível definir Crip Camp em algum adjetivo, seria, de longe, chocante. Chocante por tratar de uma realidade omitida tanto em sociedade real como em filmes, desenhos infantis ou seriados, uma realidade sem representatividade.

É chocante justamente pela capacidade de causar a sensação de espanto em pessoas que vivem em pleno 2020, com tantos discursos sobre democracia, direitos humanos, igualdade e equidade. Pensar que, em poucas décadas atrás, as pessoas com deficiência não tinham sequer uma sessão específica na constituição, nem tampouco uma estrutura para convivência básica nas cidades, que garantiriam, por exemplo, a possibilidade de ir à escola sozinhas.

O documentário que é fruto da Higher Ground Productions e foi dirigido por Nicole Newnham e James Lebrecht tem emocionado quem assiste (os 95% de aprovação comprovam isso). O motivo da comoção? O filme mostra a vida cotidiana e desafiadora que as pessoas com deficiência levam, tal como a luta pela garantia dos direitos civis delas, motivada pelo Camp Jened, um acampamento para pessoas com deficiência, que operou entre 1951 e 1977 e mostrou que a vida com “limitações” poderia ser “normal”, como, de fato, deveria ser.

Crip Camp: Revolução Pela Inclusão crítica
Crip Camp: Revolução Pela Inclusão mostra a vida cotidiana de pessoas com deficiências. | Foto: Reprodução.

Apesar de possuir uma abordagem bastante otimista e positiva, os 107 minutos de histórias são de extrema importância para a sociedade como um todo, ao falar a partir de um viés tanto político como social e pessoal, trazendo à tona questões de autonomia, isolamento e preconceito. Para isso, Larry Allison, Judith Heumann, Denise Sherer, Jacobson e Stephen Hofmann e James Lebrecht (sim, um dos diretores) aparecem como protagonistas, por terem vivido todo o processo, incluindo o Camp Jened.

 De princípio, nota-se no uma ausência de abordar como era a vida dessas pessoas no meio cotidiano. Contudo, no decorrer do documentário, é mostrado que essa vida cotidiana de escola, rua e restaurantes era absurdamente limitada, como foi o caso de Judith Heumann, ao relatar, que, aos 5 anos, sua mãe foi lhe matricular em uma escola local (Brooklyn, New York) e o diretor não autorizou, ao alegar que “seria perigoso ter uma pessoa que não sabe andar”.

As cidades não tinham estrutura para essas pessoas, os cidadãos também não, e isso é extremamente problemático, porque elas fazem parte da sociedade ao mesmo tempo que não estavam inseridas, tanto estrutural quanto politicamente. O filme traz a sensação de estranhamento ao ver um cotidiano funcionando normalmente, quando há pessoas trancadas em casa – sem a menor possibilidade de fazer coisas básicas – marginalizadas, invisíveis.

O documentário mostra a ausência do direito até no “papel”, como também na representação, porque, até certo momento, não existiam pessoas com deficiência lutando pelo direito da própria classe, era sempre alguém falando por eles, e o pior, sem sucesso. 

O Acampamento Camp Jened trazia para os campistas uma vida normal e que gerava uma grande frustração quando precisavam voltar para suas rotinas de isolamento e limitações, sem direitos para a minoria.

Por isso, Crip Camp: Revolução Pela Inclusão mostra-se como um protesto ou um manifesto. Algo de fato grande e revolucionário ao reconhecer e mostrar os protestantes que chegaram a fazer uma greve de fome, que durou 20 dias, durante a luta pelos direitos civis.

assistir à Cri Camp: Revolução Pela Inclusão
Crip Camp: Revolução Pela Inclusão atua como um protesto. | Foto: Reprodução.

Outro aspecto relevante que o filme mostra é a questão amorosa e sexual de pessoas com deficiência, que, por falta de conhecimento ou espaço no imaginário e conversa popular, soa como algo estranho, invisível ou inexistente.

Isso é tão forte que, em um momento do documentário, Stephen Hofmann conta um episódio de sua vida, em que passou mal de dores abdominais e o médico mal a examinou e diagnosticou com um apendicite. Stephen foi submetido a uma cirurgia sem necessidade, pois seu apêndice estava saudável.

O motivo das dores, na verdade, era decorrente da gonorréia, uma DST (doença sexualmente transmissível). Ou seja, ficou claro o tamanho do preconceito em relação ao envolvimento sexual, até mesmo por parte do profissional da saúde, que sequer pensou na possibilidade de tal doença, não chegando nem a examinar.

Em suma, Crip Camp é uma verdadeira aula. É uma oportunidade para abrir a cabeça e aprender sobre uma realidade, uma luta e uma série de desafios. O documentário prende a atenção mostrando os desafios, conquistas e lições sobre esperança, com base no lema do Camp Jened: “Aqui tudo é possível”. 

Sinopse e trailer oficial

Um acampamento de verão inovador motiva um grupo de jovens com deficiência a criar um movimento em busca de novos caminhos para um mundo com mais igualdade.

FICHA TÉCNICA: Crip Camp: Revolução Pela Inclusão (ORIGINAL NETFLIX)

Título Original: Crip Camp: A Disability Revolution
Duração: 107 minutos
Lançamento: 25 de março de 2020
Distribuidora: Netflix
Dirigido por: Nicole Newnham e James Lebrecht
Classificação: 14 anos
Gênero: Documentário
País de Origem: EUA

_________________________________
Por Lara Calábria – Fala! UFPE

Tags mais acessadas