Coronavírus adia tradicional Festa de São Jorge no Rio
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Coronavírus adia tradicional Festa de São Jorge no Rio

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Comemoração que acontece nos subúrbios cariocas é impactada pelo pandemia

Entrada da Igreja Matriz de São Jorge, em Quintino, antes do fechamento pela pandemia. | Foto: João Vitor Costa.

O dia 23 de abril é marcante para Quintino, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro, que abriga a Igreja Matriz de São Jorge. Nessa data, é celebrado o dia do santo guerreiro.

Com o fechamento da principal via da região (a Clarimundo de Melo), carros e ônibus dão lugar às dezenas de barraquinhas e diversos vendedores espalhados pelos portões de suas próprias casas ou apoiados em algum muro qualquer. O mais comum é encontrar cocadas, churrasquinhos e pastéis, mas lembranças da data, como fitinhas e canecas, também são vendidas.

O enorme fluxo de pessoas começa ainda durante a madrugada e é silenciado apenas pelos fogos que anunciam a missa da alvorada, às 5h da manhã. Mas a tradição, neste ano, será quebrada: por conta do coronavírus, a festa está adiada.

Nos últimos dias, as medidas de restrição para evitar o avanço da Covid-19 no Rio de Janeiro já davam a entender que a festa de São Jorge estava ameaçada, principalmente por conta da aglomeração de pessoas em eventos estar proibida – por pelo menos mais 15 dias, de acordo com o último decreto (de 27 de março) do governador Wilson Witzel.

As missas na igreja de Quintino, por exemplo, estão sendo realizadas on-line, em vídeos ao vivo. Ontem (1), a página da igreja no Facebook emitiu um comunicado, em que a festa do santo guerreiro é adiada (para agosto ou setembro).

“São Jorge não venceu o mal pela força dele, mas com a força de Deus”, lembrou, por meio de mensagem de texto, Padre Dirceu Rigo, pároco da Igreja Matriz de São Jorge desde 2013, que usa o santo como lição para este momento. “Ele nos ensina: se queremos vencer essa pandemia, devemos nos unir e colocar Deus em primeiro lugar nas nossas vidas.”

Normalmente, a festa para São Jorge em Quintino muda a rotina de quem mora no bairro. As ruas transversais ganham aspecto de rua principal, já que o tráfego da Clarimundo de Melo, principal via de Quintino, é deslocado para elas.

O barulho do motor dos ônibus nas silenciosas ruas do bairro entra em contraste com as caixas de som que ecoam sucessos, principalmente na voz de Zeca Pagodinho, como a música Ogum e Pra São Jorge.

Durante toda a madrugada, do dia 22 para o dia 23, a igreja do bairro fica lotada, esperando a missa da alvorada, celebrada pelo Padre Dirceu, às 5h da manhã. Ao som dos fogos e do toque da corneta, milhares de devotos de São Jorge ficam dentro e fora da igreja (estes, acompanhando a alvorada por meio de telões).

As missas acontecem durante todo o dia, celebradas por diferentes padres, incluindo o Arcebispo do Rio, Dom Orani Tempesta, que celebra a missa das 10h. Ao final da tarde, a procissão percorre as ruas do bairro. Milhares de pessoas vestidas de branco e vermelho, com suas velas, orações e cantos acompanham o carro dos bombeiros, que carrega a imagem de São Jorge, mas, também dos terraços, muitos moradores assistem à procissão.

O dia 23 de abril conta com feijoadas e churrascos para comemorar o dia de São Jorge. Apesar do padroeiro da cidade do Rio ser São Sebastião, desde 2001 a data (23 de abril) também é feriado municipal e, desde 2008, estadual, o que ajuda a reunir as pessoas no bairro.

Moradora de Quintino há mais de 20 anos, Luciana Costa, 39, passa o dia de São Jorge com amigos e familiares em seu terraço todos os anos.

Além das festividades do santo, o dia 23 é um dia importante, marcado pelo reencontro com pessoas que não vejo há muito tempo.

Conta Luciana

Tendo que adiar o encontro tradicional, Luciana entende o momento em que estamos. “É ter paciência para que, em breve, possamos fazer a festa, mesmo que fora de época”, complementa.

São Jorge, na Umbanda, é Ogum e, por conta disso, não são só os católicos que passam o dia em festa. Jamile Rodrigues, 18, que mora em Quintino desde que nasceu, tem boas memórias do dia 23 de abril, principalmente da avó, que morreu em 2010

De alguma forma, eu me sinto conectada com ela, que era apaixonada pela procissão de São Jorge.

Comenta Jamile

Umbandista, Jamile, em meio à pandemia, lamenta o momento de isolamento social. “Não vamos ter a gira de Ogum, em que a gente pode estar conectado com o nosso orixá, mas vamos ficar em casa, cada um firmando seu pensamento”.

São Jorge é por aqui o protetor dos apontadores de jogo do bicho, abençoa rodas de samba, puteiros, balcões de botequins, trafega pelos trilhos dos trens suburbanos, povoa o imaginário das luas cheias e derrota os perrengues daqueles que matam, diariamente, os dragões cotidianos para sobreviver e festejar.

Livro O corpo encantado das ruas, de Luiz Antônio Simas

É o que explica o historiador Luiz Antônio Simas, no livro O corpo encantado das ruas, da editora Civilização Brasileira. E, em tempos de medos, incertezas e isolamento, a proteção contra o “perrengue” chamado coronavírus pode ser derrotado pelo conjunto: uma boa lavagem das mãos, uso do álcool em gel, permanência em casa e, também, fé em São Jorge.

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Por João Vitor Costa – Fala! UFRJ

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