Conto: Retrato do que um dia fomos
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Conto: Retrato do que um dia fomos

Conto: Retrato do que um dia fomos

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Essa história começou com um beijo. Um beijo simples na porta de um bar lotado em um sexta-feira quente de primavera. Nos conhecemos mais cedo naquele mesmo dia, tínhamos amigos em comum e passamos a noite entretidos entre cervejas e risadas. Nossas maiores paixões eram quase as mesmas, tais quais nossos sonhos, e nos perdemos nas histórias um do outro sem nem tentar.

Voltei para casa de manhã cedo sem entender, meu peito se contraía, meus pulmões não lembravam como respirar, meus olhos não focavam e já não sabia o que pensar. O que era isso, que me tirava o ar e a concentração? O que estava acontecendo, por que meu cérebro esqueceu como funciona? Minhas mãos tremiam e os batimentos cardíacos disparavam em meus ouvidos. O que você fez comigo? Como deixei isso acontecer? Eu não sou assim, é tão ridículo! É tão confuso. E tão bom.

Acordei horas depois com suas mensagens de “bom dia” piscando na tela do celular. Sorri ao lembrar da noite passada, suas risadas ainda ecoavam em minhas memórias, e a memória de seus abraços ainda esquentavam minha pele. Algo bom crescia dentro de mim sem nem pedir licença, e eu já não me dava ao trabalho de conter.

Passamos a conversar todos os dias e eu pensava em ti a cada minuto. Será que você também sorria a cada mensagem, dava risada de cada pequena coisa e queria compartilhar cada momento? Porque eu sabia que era o que eu queria. Ficava me perguntando quando nos veríamos novamente, e o que você tinha visto em mim. Tudo o que eu queria era alguém com quem rir e chorar, alguém com quem eu pudesse ser eu mesma. Tudo o que eu queria era que esse sentimento bom nunca acabasse. Tudo o que eu queria era alguém para amar.

Saímos novamente algumas semanas depois. Fomos em um parque, só nós dois, sem um centavo no bolso. Mas eu levei minha câmera fotográfica, você, seu violão, e, quando percebemos, o sol estava se pondo e não queríamos nunca mais nos despedir. Você me levou até a porta de casa e eu me sentia em um filme hollywoodiano estilo água com açúcar, sem ser capaz de parar de sorrir.

Foi tudo o que precisou para que eu me encantasse. Queria você ao meu lado em todos os momentos, queria seus risos e seus afagos e seus carinhos, queria andar pelas ruas da cidade com meus dedos entrelaçados nos seus. E eu ouvia as músicas lindas que você me mandava, e assistia aos filmes que indicava. Você tirava meu sono todas as noites e eu nem me importava.

Nós saímos mais vezes e, quando percebi, alguns meses já haviam passado. A cada semana descobríamos, juntos, um novo cantinho para chamar de nosso em meio a essa selva de pedra chamada São Paulo. Você me levou para conhecer os barzinhos da República e as baladas da Augusta, e eu te mostrei Parques escondidos no Itaim e cafezinhos nos Jardins. Encontramos restaurantes maravilhosos no meio de Santana e cinemas perdidos em ruelas da Vila Madalena, cada vez vivíamos uma nova aventura particular. E o tempo inteiro eu me sentia dentro da letra de alguma música pop, ou então uma versão moderna de Eduardo e Mônica. Mal sabia eu que, no fundo, era um trágico e peculiar conto Shakesperiano.

Eu tinha uma viagem marcada há algum tempo, passaria quase um mês inteiro fora, quase um mês inteiro longe de você. Apesar de todas as suas súplicas para ficar, embarquei no avião, com a sua playlist mais recente explodindo dos fones de ouvido. Saí do chão com a testa na janelinha, sorrindo ao imaginar em qual dos pontos luminosos da cidade que se afastava cada vez mais você estaria. Fiquei imaginando se você também fazia isso, se também sorria lembrando de mim por cada coisinha boba. Estava a mais de dez mil pés de altura, mas me aconchegava da melhor forma possível na poltrona diminuta pensando em ti.

Te mandei centenas de fotografias, queria que soubesse de cada novo fato histórico e curioso que aprendia durante meu período longe, queria estar próxima e ignorava toda a distância e a diferença de fuso horário para te mostrar todas as novidades maravilhosas. Até que voltei para casa. Mas você sumiu.

Passaram alguns dias e eu mandei uma mensagem de “bom dia” como sempre, antes mesmo de sair da cama. Rolei pelas redes sociais, esperando o corpo recarregar. Naquela tarde, saí, encontrei pessoas queridas, deitei na grama sob o calor do sol, tomei muita água de coco e ri até a barriga doer. Mas você nem recebeu minha mensagem. Fui dormir um pouquinho mais vazia que na noite anterior.

Assim que acordei, um amigo seu havia postado uma foto de vocês dois no Instagram, e pensei que tudo fazia sentido, você também estava se divertindo, tudo estava bem. Mas mais um dia se arrastou e, quando a lua estava alta no céu, pesquei sua conversa na lista do Whatsapp: mensagem ainda não recebida. Li e reli nossa última conversa incontáveis vezes me perguntando onde errei. Nada fazia sentido para mim.

A saudade e a preocupação deram lugar à raiva, será que havia me bloqueado da vida virtual e de seu coração? Tinha certeza de que tudo estava bem, por que não me dava sequer um sinal? Uma semana inteira se foi, e eu saí na sexta-feira, disse para minhas amigas que não podia ficar assim. Ainda estava confusa e irritada e tão magoada que não era capaz de traduzir os sentimentos em palavras. Então, saí com elas, uma noite de garotas, e fiz o possível para afogar suas lembranças em copos cheios e bocas desconhecidas de pessoas vazias. Mas as lembranças jamais se vão. Passei o dia seguinte deitada, assistindo a séries e comendo brigadeiro de colher. No meio da madrugada, finalmente, você voltou.

Já não me recordo de sua desculpa qualquer. Meu coração voltou à vida com o simples emoji de carinha chorando que enviou, porque, quando você aparece, eu perco toda a razão. Brigamos, nos acertamos e, na semana seguinte, já estávamos sorridentes novamente. Foi a primeira vez.

Com o tempo, seus desaparecimentos se tornavam mais e mais frequentes, e eu já não sabia o que fazer. A cada vez eu me questionava qual havia sido o meu erro, e a cada vez você voltava com uma desculpa diferente. Eu me irritava, nós brigávamos, você dizia que eu era dramática e louca e que deveria aceitar seu modo conturbado de ser. Tudo o que eu pedia era que não me abandonasse assim, sem mais nem menos. Tudo o que eu pedia era que, quando fosse embora, colocasse um ponto final, não apenas reticências.

Fomos deixando as coisas acontecerem e seguirem seu rumo, fazendo nossas escolhas. Por que eu te perdoei tantas vezes? Apostei todas as minhas fichas na sua casa da roleta, mas você me enganou, me fez acreditar que iria conseguir. Apostei todas as minhas fichas e nem as vi serem sugadas, uma a uma, a cada desculpa esfarrapada, a cada vez que me taxava de maluca. Mas as suas apostas estavam em outra casa, em outro jogo. Seu coração estava em outra pessoa. E eu só notei quando era tarde demais.

Acho que depois de algum tempo em meio a maremotos cada vez mais fortes, a gente sabia que nossa história nunca poderia perdurar. A gente sabia, e nos recusávamos a enxergar. A gente sabia, mas continuamos tentando até um tsunami se formar e nos afogar. No fundo, acho que a gente sabia desde o começo, mas nunca quis admitir um para o outro, fomos insistentes e teimosos demais. Sempre fomos um turbilhão de acontecimentos e emoções, uma montanha-russa com altos e baixos, com adrenalina e risadas e frio na barriga e gritos. Mas sempre entramos em montanhas-russas sabendo que, eventualmente, a corrida acaba. E nós também.

Você foi o meu primeiro “e se”. E se fôssemos naquele lugar lindo que vimos na Internet da próxima vez? E se fizéssemos uma viagem à praia no fim de semana? E se, e se, e se… Tantos planos orquestrados em vão, tantas promessas que jamais se realizarão. Espero que saiba que foi você que desistiu de nós. Espero que saiba que poderíamos ter sido tanto, mas você não deixou. Agora, somos apenas uma memória distante, um “e se” que soa quase pedante.

Talvez seja muito frio dizer isso, mas meu coração já não bate mais forte por você. Sinto falta de seu toque, mas não sinto falta de sua alma. E posso achar toques melhores por aí. E posso achar melhores almas.

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Por Bruna Janz – Fala! PUC

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