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Confira as principais representações do sertão na literatura

O primeiro passo para pensar este texto foi ter lido Os Sertões, do Euclides da Cunha. Acho que, já pelo título do livro, há muito o que se debater sobre essa região do país: há representações tão múltiplas que não há apenas um sertão, mas vários. Escolhi algumas obras que impactaram a minha visão sobre o Sertão e o Nordeste de maneira geral. A ideia não é concluir nenhum debate, mas apresentar diversas representações do Nordeste que se consolidaram no imaginário popular. Obviamente, terão análises que ocorrerão fora desta pesquisa, porque não há lugar no mundo que caiba em páginas. 

O Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa define sertão como um espaço afastado da costa. Gustavo Barroso (À margem da história do Ceará, 1962) lembra que a grafia certão era corrente em Portugal desde o XVI e credita sua origem provável ao vocabulário angolano muceltão ‘interior, região distante da costa’ (donde celtão > certão > sertão). 

Sendo assim, podemos chegar à conclusão lógica de que o Nordeste e o Sertão não são sinônimos, até pela etimologia das palavras. A partir disso, eu fui levado a pensar duas coisas: por que existem tantas representações do Sertão que contrastam entre si e, principalmente, por que tanta gente se presta a retratar essa região?

O pesquisador Ângelo Leitão Junior – em A seca e o sertão sob o olhar de Raquel de Queiroz, fala: 

Os discursos literários expressam pensamentos geográficos. Esses discursos sedimentam certas concepções, engendrando uma espécie de “senso comum”. Sob essa perspectiva, destaca-se o fato de que a noção geográfica sertão não expressa uma realidade factício-material, distinta por seus elementos naturais ou por uma determinada especificidade de paisagem humanizada, tal noção não se refere, pois, a um local, mas a uma condição, em geral a ser superada, uma vez que o sertão só se expressa a partir do não-sertão.

Saindo do meio acadêmico, fui atrás de representações na arte, até para que o trabalho fique mais legal. Na literatura brasileira, o Sertão tem um destaque gigantesco em clássicos: Os Sertões, Grande Sertão Veredas, Vidas Secas, Auto da Compadecida e Morte e Vida Severina. E cada autor lida de maneira muito diferente com o local que retratam. 

Os sertões na literatura brasileira

Os Sertões
Os Sertões. | Foto: Reprodução.

Em Os Sertões, Euclides faz um mapeamento das pessoas e uma espécie de catalogação de cada um, tentando traçar um perfil comportamental e até de vestimentas de cada um, o que torna uma espécie de sumário para entender uma visão rígida e quase estereotipada do sertanejo.

Grande Sertão: Veredas
Grande Sertão: Veredas. | Foto: Reprodução.

O foco narrativo de Grande Sertão: Veredas está em primeira pessoa. Riobaldo, na condição de rico fazendeiro, revive suas pelejas, seus medos, seus amores e suas dúvidas. A narrativa, longa e labiríntica, por causa das digressões do narrador, simula o próprio sertão físico, espaço onde se desenrola toda a história.O espaço geral da obra é o sertão. Ela torna o enredo uma espécie de labirinto, como se fosse uma metáfora da vida. 

Nessa obra de Rosa, “o sertão é o mundo” e, de modo especial, um mundo que pode ser registrado, manipulado e transformado: é um mundo mítico, ativo, interativo. Se o interesse especial de Rosa pelo espaço natural e cultural do sertanejo salta aos olhos dos leitores em cada trecho de sua obra, esse interesse, porém, aparece, não ocasionalmente, apenas como o fio da meada, como pretexto apenas para uma discussão maior sobre o ser humano e sobre o mundo.

Existe, nesse sentido, uma ponte de ligação, de transcendência entre o regional sertanejo e o universal humano na obra rosiana que, muito propriamente, se dá no campo da linguagem e não apenas nos outros campos. 

Vidas Secas
Vidas Secas. | Foto: Reprodução.

Vidas Secas, romance publicado em 1938, retrata a vida miserável de uma família de retirantes sertanejos obrigada a se deslocar de tempos em tempos para áreas menos castigadas pela seca. O estilo seco de Graciliano Ramos, que se expressa principalmente por meio do uso econômico dos adjetivos, parece transmitir a aridez do ambiente e seus efeitos sobre as pessoas que ali estão.

O livro consegue, desde o título, mostrar a desumanização que a seca promove nos personagens, cuja expressão verbal é tão estéril quanto o solo castigado da região. A miséria causada pela seca, como elemento natural, soma-se à miséria imposta pela influência social, representada pela exploração dos ricos proprietários da região. Os retirantes, como o próprio nome indica, estão alijados da possibilidade de continuar a viver no espaço que ocupavam.

Morte e Vida Severina
Morte e Vida Severina. | Foto: Reprodução.

Já em Morte e Vida Severina, o Sertão árido e infrutífero é o principal personagem. É ele o motivo do personagem peregrinar, em busca de um trabalho, porque não há recordações de quando a terra foi boa. De maneira muito mais racional e menos emotiva, a obra caracteriza um lugar que torna as pessoas em todas iguais, sem individualidades, de pouco vocabulário, por serem lacônicas em geral. Apenas o rito religioso continua pujante e todos, mesmo sabendo da morte próxima, respeitam a divindade. 

Severino é um entre muitos outros, que tem o mesmo nome, a mesma cabeça grande e o mesmo destino trágico do sertão: morrer de emboscada antes dos vinte anos, de velhice antes dos trinta e de fome um pouco a cada dia. É uma poética muito forte que retrata uma afavilidade.

Os retirantes continuam a viver da terra, mas, em vez de ficarem cobertos de poeira de arar o solo seco, ficam cobertos de lama de caçar caranguejos no mangue. O livro ainda critica a disputa de terras e a luta desesperada pelo pouco.

Diante do cenário sórdido, o suicídio parece uma boa opção, interromper a vida que também é morte severina. E não é à toa que, no nome do livro, a Morte venha primeiro: é porque é mais certo morrer de morte severina do que viver em si. Muito racional, é uma obra que questiona os âmagos mais intimistas de uma terra que aparece como opressiva. 

O Auto da Compadecida
O Auto da Compadecida. | Foto: Reprodução.

Na obra Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, o sertão aparece repleto de conflitos e personagens marcantes, com um cotidiano bem delineado e, ainda que hiperbolizado, não flerta tanto com o estereótipo. Profundamente sertaneja, a obra abusa da linguagem verbal e reflete, mais uma vez, o dia a dia das pessoas. 

Na peça original, cada personagem carrega características que o delimitam. Chicó é corajoso e, na mesma medida, mente para satisfazer um desejo inventivo. João Grilo, personagem principal, tem na oralidade e na astúcia o sustento. É pela palavra que João Grilo sobrevive, por demonstrar inteligência acima da média e, com um carisma cínico, entrar e sair de situações tragicômicas. 

Contudo, por mais que não seja tão explícita, há uma crítica ferrenha ao modelo tradicional de cidade e ao capital de maneira mais ampla. O dinheiro aparece como o corruptor dos homens e todas as ocasiões que levaram alguém à morte ou perto dela tinham dinheiro envolvido. A crítica à Igreja também aparece, quando o padre e o homem da diocese literalmente disputam por dinheiro, mas com toda a educação que a batina os reveste.

No fundo do humor, Auto da Compadecida é perpassada por uma forma de resistência ao conceito do “senso comum” de Sertão. É uma forma de firmar o pé, e não ceder a concepções externas do que pode vir a ser o Sertão. E, com personagens propriamente sertanejos, mostra uma genialidade social difícil de se obter nas cidades, além de criticar os sistemas impostos. 

Todas as interpretações foram baseadas em pesquisas de teses acadêmicas, revistas especializadas em literatura e, claro, nas obras. 

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Por Gustavo Magalhães – Fala! PUC – RIO

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