Como as pessoas de baixa renda têm lidado com o coronavírus?
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Como as pessoas de baixa renda têm lidado com o coronavírus?

Como as pessoas de baixa renda têm lidado com o coronavírus?

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A situação das pessoas de baixa renda em tempos de crise sempre fora caótica, mas agrava-se mais ainda com o surgimento da pandemia do coronavírus no Brasil e o descaso do governo em oferecer recursos

Lidar com momentos de crise nunca foi o forte das autoridades brasileiras e, em meio ao surgimento de epidemias ao longo de nossa história, isso se mostrou cada vez mais evidente.

Durante uma das piores epidemias do Brasil, a da Gripe Espanhola em 1918, o país tentou enfrentá-la instaurando ordens de isolamento social, evitando aglomeração e pedindo cautela quanto a higienização de nariz e boca.

No entanto, o sistema de saúde da época, bem como os médicos, não estavam preparados para lidar com tantos infectados e, lamentavelmente, os mais pobres foram os mais atingidos, já que viviam em condições precárias de higiene devido à falta de saneamento básico e de acesso ao serviços de saúde.

Passado um século desde a Gripe Espanhola, o Brasil enfrenta, atualmente, uma crise epidêmica de maior proporção e seu descaso perante a saúde dos mais vulneráveis permanece o mesmo de 1918.

casos de coronavírus no Brasil
Pessoa de baixa renda sofrem consequências da pandemia de coronavírus. | Foto: Reprodução.

A pandemia do coronavírus chegou no Brasil no final de janeiro, a princípio, atingindo aqueles considerados de classe média alta que, ao viajarem para países já infectados, contraíram o vírus. Porém, devido à demora para instaurar o isolamento social e para liberação de recursos para o sistema de saúde pública, o vírus rapidamente se espalhou para as áreas mais precárias de cada estado brasileiro e, até o dia 26 de abril, contava com 4.117 mortes e 60.311 infectados.

As cidades mais afetadas pelo vírus são São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Amazonas e dentre os principais afetados encontram-se os mais pobres que, em sua maioria, estão desempregados, vivem em condições precárias de habitação, sem acesso ao saneamento básico, e aqueles que vivem em comunidades onde não têm como evitar aglomerações.

Entre os meses de março e abril, o governo passou a liberar verbas para o Ministério da Saúde comprar mais leitos de UTI e Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) para hospitais públicos e criou um pacote de auxílio emergencial de R$600 durante 3 meses para aqueles que se encontram desempregados, são trabalhadores informais ou autônomos e com uma renda familiar mensal de até 3 salários mínimos.

Para receber o auxílio emergencial, é necessário que o indivíduo instale um aplicativo de celular e cadastre-se para receber seu benefício, porém, há uma parcela considerável da população brasileira, mais especificamente 145,2 milhões de habitantes, que não possui telefones celulares e, ainda, 30% da população não tem acesso à internet.

Desta forma, boa parte da população ainda não tem consciência da existência desse auxílio, e os que já conseguiram se cadastrar no programa reclamam da demora para receberem a quantia e mostram que não têm como lidar com a crise provocada pelo coronavírus, já que há descaso do governo.

Por isso, muitos trabalhadores informais ainda saem às ruas, se arriscando, para tentar lucrar, ao menos, uma pequena quantia para garantir o sustento de sua família, até o governo liberar o auxílio. Em entrevista exclusiva para o Fala Universidades!, uma moradora, de 48 anos, do bairro Jardim Helena, no extremo leste de São Paulo, que se encontra desempregada há 4 anos, conta que fez o cadastro para receber o auxílio há 2 semanas, mas ainda não o recebeu.

Eu tenho em casa dois netos, uma filha desempregada e tá difícil porque ainda não recebi o auxílio, mas ainda bem que tenho dois filhos que têm me ajudado com as despesas da casa e o pagamento do aluguel, porque se fosse esperar pelo governo, estaria na rua pedindo socorro ou passando fome porque os R$600 ainda não chegaram. 

Diz Cícera Amara da Silva

Ainda, é necessário levar em conta outra parcela vulnerável da sociedade, os moradores de rua. Em São Paulo, os moradores de rua da região central da cidade conseguiam o mínimo de alimentos pois recebiam esmolas das pessoas que por ali passavam. Agora que grande parte da população encontra-se em quarentena, os moradores de rua contam, então,  com auxílio de voluntários que fornecem a eles alimentos, água e higienizam suas mãos e rosto em lavatórios espalhados pela região e na periferia instalados pela prefeitura.

Felizmente, moradores de comunidades, em São Paulo e no Rio de Janeiro também, têm recebido o auxílio de voluntários e ONGs que doam cestas básicas. Ainda que este seja um gesto de solidariedade, não se pode tirar a responsabilidade do governo em auxiliar aqueles que precisam. 

Além disso, as cidades mais atingidas pelo novo coronavírus já contam com mais de 70% dos leitos de UTI ocupados dos hospitais públicos, implicando no provável colapso do SUS e colocando em risco mais de 150 milhões de brasileiros que já dependem desse sistema, que nunca fora tão eficiente quanto deveria.

Então, mais uma vez na história do país, a parte mais vulnerável da população brasileira vai sofrer as consequências causadas pela falta de investimento na saúde, e consequente mal funcionamento do SUS, e pelo descaso do governo em fornecer condições básicas de higiene e moradia, já que, enquanto o vírus se espalha rapidamente, o governo age de forma gradual e indiferente.

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Por Júlia Brito Maciel – Fala! Cásper

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