Opinião: Como a CPI da Covid-19 tem impactado o governo brasileiro?
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Opinião: Como a CPI da Covid-19 tem impactado o governo brasileiro?

Opinião: Como a CPI da Covid-19 tem impactado o governo brasileiro?

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Os 90 dias iniciais estabelecidos para a atuação da CPI da Covid-19 estão se aproximando do fim. Como em toda boa trama, porém, a história apenas se ramifica cada vez mais, e o que antes se limitava basicamente a uma investigação acerca da falta de oxigênio em Manaus com foco na desmistificação da existência de um chamado Gabinete Paralelo, se tornou um verdadeiro palco para a desconstrução do sistema que já matou mais de meio milhão de brasileiros. 

A CPI da Covid-19 revelous casos de corrupção dentro do governo brasileiro.
A CPI da Covid-19 revelou casos de corrupção dentro do governo brasileiro. | Foto: Reprodução/Jefferson Rudy/Agência Senado.

O incêndio começa na CPI da Covid-19

A Comissão Parlamentar de Inquérito, instaurada no Senado em abril deste ano, possuía um prazo de validade de três meses. Apesar disso, diante da proporção de fatos e esquemas emergindo durante a investigação, foi aprovada uma prorrogação de mais três meses, o que garantiu um segundo volume digno das descobertas feitas durante o período. O propósito da CPI da Covid-19, porém, apenas se acentuou com o passar das sessões: encontrar um adjetivo e um culpado para nomear a crise sanitária durante a pandemia de 2020, fato que comprovadamente poderia ter sido evitado. 

Nesse sentido, nomes vêm sendo diariamente queimados, formando uma trilha de chamas que se aproxima perigosamente do Palácio do Planalto. Os efeitos desse incêndio, iniciado em Brasília e que já rasga o mapa do Brasil de Norte a Sul, estão se manifestando de diversas formas e afetando o governo de diferentes direções. É por esse motivo que, entre áudios, escândalos, prisões e acusações, os números ilustram bem a situação em que se encontra a gestão e a figura de Jair Bolsonaro aos olhos do povo, quando, no início de julho, a rejeição ao seu governo bateu mais um recorde, chegando a 51%, segundo pesquisa realizada pelo Datafolha. 

O fato é que a conclusão dessa pesquisa, publicada uma semana após a acusação do vice-presidente da CPI da Covid-19, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), ao presidente da República por crime de prevaricação, ocorreu em meio aos momentos mais tensos da CPI. Isso porque, pela primeira vez, os olhares saíram do Gabinete Paralelo e focalizaram um alvo ainda maior (que mais tarde ocasionaria a acusação de prevaricação): uma suposta pressão sobre o irmão do deputado Luis Miranda (Dem-DF), Luis Ricardo Miranda, servidor do Ministério da Saúde, para a compra de vacinas com contratos irregulares. Uma revelação que queimou ainda mais a imagem de Jair Bolsonaro, que, conforme o servidor, foi notificado da tentativa de corrupção sem mais efeitos.

Combatendo fogo com fogo

Nesse contexto, para o cientista político e jornalista Márcio Juliboni, a emersão desse fato a público gerou a reação já esperada sobre os números que, afinal, refletem o pensamento da sociedade brasileira sobre o governo. Na opinião de Juliboni, isso ocorreu pois:

Quando o Luis Miranda levanta a tese de que poderia haver corrupção na compra dos medicamentos, e pior ainda, quando ele declara que ele e o irmão foram até Bolsonaro e o comunicaram pessoalmente dessa suspeita de fraude e de corrupção, a CPI muda de objeto: de negacionismo científico para corrupção. […] Você dizer que o governo pode ter roubado na compra de vacina, ter superfaturado, exigido propina e pagamento, é muito mais intuitivo para as pessoas comuns, que têm uma compreensão diminuta da realidade, do que falar em teses científicas, estudos e amostragens. Isso tudo é uma bomba no colo de Bolsonaro. 

A relação entre a Comissão e a dispersão dos fãs do presidente, entretanto, não se limita apenas aos resultados das pesquisas, pois já na Constituição está descrita a natureza minoritária e opositiva de uma CPI – investigação que pode ser instaurada por uma minoria parlamentar, justamente para garantir a fiscalização entre os poderes – o que por si só já é o suficiente para deixar qualquer chefe de Estado na defensiva. É o que o Presidente da República exprime em várias declarações feitas em sua página oficial no Twitter e em lives em seu canal do YouTube, desde que a Comissão foi aprovada em abril.

Fizeram uma festa lá embaixo na Presidência, né? Entregando um documento para eu responder. (…) Vocês sabem qual é a minha resposta, pessoal? Caguei. Caguei pra CPI. Não vou responder nada.

 Declaração feita em live nas redes sociais do presidente no dia 8 de Julho, referente à carta protocolada pelos membros da CPI em que reclamam resposta do Palácio do Planalto quanto às acusações de corrupção nas negociações da Covaxin.

Categoricamente, conforme a investigação toma ares mais profundos e conspiratórios, essencialmente para a gestão da pandemia, mais presente se torna o tom autoafirmativo e desmoralizante de suas falas. Como, por exemplo, em um de seus últimos tweets sobre a CPI em que usa “otários” para nomear o presidente, o vice-presidente e o relator da Comissão.

Esses são apenas alguns exemplos de declarações atacando a Comissão, sua legitimidade e a de seus membros, em discursos semelhantes a acessos digitais anteriores contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e episódios em que contava com a blindagem inabalável de apoiadores e políticos do centrão. Apesar dos bons resultados provenientes deste método de defesa em ocasiões pregressas à CPI, o cenário não poderia estar mais desfavorável e fora de seu controle, com a faixa presidencial sendo citada em diversas investigações e seu curral eleitoral se esvaziando proporcionalmente.

Nesse sentido, esse é o ponto em que a estratégia agressiva de seus discursos passa a soar incoerente e a afastar eleitores ao invés de agregar. É o que conclui o cientista político sobre a queda brusca dos índices de aprovação do presidente:

Se você precisa se explicar dentro da política, você já está perdendo. Então, quanto mais explicações sobre o que aconteceu no Ministério da Saúde ele precisa dar, mais essa crise sobe a rampa do Palácio do Planalto junto com ele. Não é à toa que a popularidade de Bolsonaro está caindo muito rapidamente no último mês, pois foi nesse mês que a CPI mudou de direção e agora apura casos de corrupção. Então, os apoiadores que não são fanáticos começam a perceber que, se ele está berrando muito, é porque não tem argumento para se explicar.

Termina.

Os bombeiros do Centrão

Como se pode constatar, popularidade não é algo que se sustenta sozinho, e quanto mais ela se perde, menos apoio se tem sobre a própria imagem. Basicamente, a Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid-19 tem sido, para Jair Bolsonaro, o mesmo que uma infiltração nas estruturas de seu governo. Assim como em uma casa desabando, portanto, há um fluxo ininterrupto de pessoas passando pela porta, já que ninguém quer ser atingido por pedaços encharcados do teto ou estar no interior da construção quando ela desabar e levantar a poeira da tragédia anunciada. Seguindo a linha de raciocínio dessa analogia, portanto, é de se esperar que, além da aprovação pública, mais pilastras da figura do presidente estejam se desfazendo. A principal delas é o apoio político da própria chapa.

É o que Juliboni adiciona à lista de impactos no governo vindos da CPI. “O preço para apoiar o governo aumentou. […] Todos os presidentes desde a redemocratização, uns mais a contragosto e outros mais à vontade, acabaram se alinhando ao centrão. Um grupo bastante coeso e numeroso no congresso, e nada passa no congresso sem o apoio do centrão. E o Bolsonaro corre para o centrão no momento em que o impeachment dele é posto na mesa. O centrão aceita dar seu apoio e barrar o impeachment em troca de acessar cargos públicos. (Esse apoio) ficou mais caro, o centrão gosta de governo fraco, gosta de governo sangrando, porque é esse o jeito que eles têm de extrair o máximo de benefícios para eles próprios. […] Então, o centrão se tornou o último pilar de sustentação e, quanto mais o Bolsonaro se afastar desse grupo, mais frágil fica o governo dele.” Com isso, o presidente cai em uma de suas maiores contradições ao, escancaradamente, negociar cargos com o centrão para se manter de pé, indo contra uma de suas principais promessas de campanha ao se nomear “escravo da Constituição”. 

Qualquer presidente que distribua ministérios, Estado ou diretorias de banco para conseguir apoio dentro do parlamento está infringindo o artigo 85 inciso 2 da Constituição. […] O que fiz durante uma campanha dizendo que não aceitaria o ‘toma lá dá cá’, fiz baseado na Constituição. Por isso que eu sou escravo da Constituição.

 Declaração feita pelo presidente, enquanto candidato, em live em suas redes sociais no dia 27 de outubro de 2018 (um dia antes do segundo turno das eleições presidenciais daquele ano).

Quem brinca com fogo se queima na CPI da Covid-19

É nesse antro de incoerências que a chapa de Jair Bolsonaro fica cada vez mais vazia para 2022, ilustrando a principal consequência da queda livre de sua popularidade. Dentro desse cenário, Márcio Juliboni explica como o apoio à imagem maculada do presidente apresenta perigo para qualquer partido que ambicione um lugar entre os eleitos no ano que vem:

O mundo político não é feito só do congresso. […] E já tem um movimento, ainda que embrionário, de antigos bolsonaristas avaliando que é o caso de abandonar Bolsonaro nas eleições de 2022 por causa da má popularidade. […] Quando um presidente vai mal, ele é tóxico para as campanhas políticas, reduz monumentalmente as chances de um candidato ser eleito quando se atrela à imagem de um presidente impopular. […] Isso diminui bastante as chances de Bolsonaro de criar palanques e alianças competitivas nos estados para poder concorrer à reeleição.

Finaliza ele citando o movimento de prefeitos da baixada fluminense, que consideram retirar todo e qualquer apoio ao atual Presidente.

Como um castelo de cartas, a história prova que desde que essa terra se chama Brasil, nossa frágil política nunca precisou de muito para desabar. Ela é narrada como um efeito em cadeia, que se desenrola diante de um povo que, ao ouvir palavras como corrupção, não mais se surpreende. No capítulo de Jair Bolsonaro, a CPI da Covid-19 ficará para sempre lembrada como a primeira fagulha do verdadeiro incêndio que se tornou o Brasil no início da década de 2020. A Comissão que reverteu os números e que, mais uma vez, exibe do que é realmente feito o governo brasileiro: páginas arrancadas da Constituição e papel-moeda, altamente inflamáveis.   

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Por Letícia Sant’Ana Cassiano – Fala! Cásper

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