CARLOS LACERDA DE 1945 A 1954: UM AGENTE DO CAOS
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CARLOS LACERDA DE 1945 A 1954: UM AGENTE DO CAOS

CARLOS LACERDA DE 1945 A 1954: UM AGENTE DO CAOS

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Carlos Frederico Werneck Lacerda foi um importante jornalista e político brasileiro, que conquistou notoriedade após se envolver em várias polêmicas, realizando ataques políticos e pessoais a nomes respeitados do Brasil. Durante sua vida, sempre buscou se afirmar como sujeito em oposição a outro personagem, aproveitando-se dos momentos mais conturbados da história brasileira para se projetar massivamente.

Nos anos de 1945, 1950 e 1954, destacou-se, principalmente, pela sua postura antidemocrática e golpista, atuando como fomentador de intrigas e desestabilizador dos governos vigentes. Em 1945, fez oposição a Eurico Gaspar Dutra, antes e depois da sua eleição. Assim como atuou de maneira semelhante com Getúlio Vargas em 1950, perseguindo-o até os seus dias finais na Presidência da República. Conhecer a trajetória desse agente do caos durantes os anos citados e entender sua importância na história brasileira são os objetivos deste artigo.

Carlos Lacerda
O jornalista e político Carlos Lacerda discursa em comício. | Foto: Reprodução/ Acervo UH/Folhapress

A atuação de Carlos Lacerda na política brasileira 

Para compreender sua atuação política, é crucial determinar que ela sempre foi radicalizada, mas nem sempre de direita. Na verdade, tomou uma direção oposta e contraditória em 1945, quando Carlos Lacerda se alinhou a uma postura conservadora e anticomunista, mesmo que uma década antes, tenha participado da Aliança Nacional Libertadora (ANL) e se associado ao comunismo. A mudança de direção da esquerda para a direita foi resultado gradual de seu desencantamento com o comunismo,  entre outras coisas, devido ao desprezo que recebeu depois de publicar um artigo sobre a história do Partido Comunista Brasileiro (PCB) na revista  O Observador Econômico e Financeiro, em 1939. De acordo com a historiadora Marina Gusmão, Lacerda tentou várias vezes retomar relações com a esquerda, na intenção de defender o nome do brigadeiro Eduardo Gomes para a eleição de 1945, mas com a rejeição dos partidos desse espectro político, restou-lhe como saída se filiar à União Democrática Nacional (UDN).

Mas é preciso contextualizar o que estava acontecendo em meados de 1945. Com o fim do governo de Getúlio Vargas, restou um questionamento sobre quem seria o substituto ideal para dar seguimento ao desenvolvimento do Brasil e se afastar das lembranças ditatoriais do Estado Novo. A UDN lançou o nome do brigadeiro Eduardo Gomes, candidato apoiado por Carlos Lacerda, e o Partido Social Democrático (PSD) defendeu a candidatura do general Eurico Gaspar Dutra. Ambos tinham dificuldades de se comunicar com o povo de maneira tão eficiente como o antigo governo fazia.

 Os dois candidatos não agiam como políticos, mas como militares — da ativa

Lilia Schwarcz e Heloisa Starling

Nessa disputa, ganhou aquele que obteve o eleitorado de Vargas: Dutra. Lacerda se revoltou com a vitória daquele que achava ser o herdeiro do getulismo e das atrocidades cometidas pelo antigo presidente, mas nada pode fazer de substancial para impedir a posse do presidente eleito. Décadas depois, em um livro de lembranças, ao falar sobre essa época, insinuou que as massas populares eram facilmente manipuladas por terem elegido o candidato que não o agradava, ao afirmar que elas trocavam a própria liberdade por gratificações:

A derrota do Brigadeiro acabou de me abrir ​os olhos, porque eu vi que uma ditadura bárbara, como foi a do Getúlio, conseguia ter o apoio das grandes massas populares, na medida em que lhes dava algumas coisas de que elas precisavam e que não tinham; e que portanto bastava melhorar um pouco materialmente a vida do povo para você conseguir que ele abrisse mão da liberdade

Carlos Lacerda 

Carlos Lacerda durante o Governo Dutra 

Com o governo Dutra, adotou uma postura desconfiada ao  presidente, por este manter antigos dirigentes de Vargas em seus cargos mais importantes. Assim, ao cobrir os eventos ligados à Constituinte de 1946 para o jornal Correio da Manhã, Lacerda lançou a tese de que não houve ruptura entre o Estado Novo e a República de 1946, bem como destacava que a presença de aliados de Vargas na Constituinte gerava a suspeita de um retorno ao antigo estado político,inclusive pelo meio democrático. 

Depois de se aproximar do campo político com a cobertura da Constituinte, Carlos Lacerda se identificou ainda mais com a UDN, que representava ,no momento, tudo no que ele acreditava ser o ideal.

Quem não arredou o pé da UDN desenhou seu perfil definitivo: um partido conservador, moralista, antidemocrático e com indisfarçável vocação golpista. A UDN tinha o costume de defender a democracia enquanto cozinhava em banho-maria o golpe de Estado, seus membros eram incapazes de ir além de uma visão estritamente moral da vida pública e valorizavam ao extremo o comportamento pessoal de quem ocupava o poder. O partido dispunha de um bom número de oradores competentes, radicais e afinadíssimos entre si — a Banda de Música, como o grupo de parlamentares ficou conhecido — , e capaz de se organizar de maneira a não deixar passar um dia sem atazanar a vida dos adversários: Adauto Lúcio Cardoso, Oscar Dias Correia, Afonso Arinos, Bilac Pinto, Aliomar Baleeiro. Quem capitaneava a UDN era Carlos Lacerda.

Lilia Schwarcz e Heloisa Starling

 Devido ao seu comportamento instável e ácido, sem respeitar a autoridade dos proprietários dos jornais nos quais trabalhava, Lacerda perdia empregos com frequência. Em 1948, com as discussões iniciais em torno da exploração dos recursos naturais brasileiros, usou seu cargo dentro do Correio da Manhã para defender o investimento estrangeiro na economia nacional, escrevendo artigos críticos à família Soares Sampaio, proprietária da empresa brasileira Alberto Soares Sampaio-Corrêa e Castro – titular da Refinaria e Exploração de Petróleo União S/A. Lacerda criou um mal-estar para o dono do jornal, Paulo Bittencourt, que era amigo dos Soares Sampaio, e foi demitido por causa disso. Mas continuou com o direito sobre sua coluna Na Tribuna da Imprensa.

Jornal Tribuna da Imprensa 

Então, em 1949, convencido pelos amigos Aluísio Alves e Luís Camilo de Oliveira Neto, criou seu próprio jornal, a Tribuna da Imprensa, de tendências contrárias ao getulismo, nacionalismo e populismo. Com esse jornal, conseguiu perseguir intensamente seus adversários, com destaque para Getúlio Vargas e seus aliados, além dos antigos companheiros do PCB .Uma de suas afirmações mais antidemocráticas veiculadas em seu jornal foi a que direcionou a Vargas durante as disputas eleitorais de 1950: 

O sr. Getúlio Vargas, senador, não deve ser candidato à presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar

Carlos Lacerda​

o final da campanha presidencial de 1950, Carlos Lacerda já era um grande líder da UDN, que compartilhava com seus colegas udenistas a decepção de não ter conseguido eleger um presidente pelo partido. Mas pior do que perder, foi perder justamente para Getúlio Vargas, aquele que, na sua visão, usou e abusou do poder e mesmo assim saiu impune. Depois do resultado das urnas, Lacerda se empenhou em tentar anular o resultado da eleição com o argumento de que a vitória não foi decidida pela maioria absoluta, mas o Supremo Tribunal Eleitoral confirmou a posse de Vargas. E ele não parou por aí, perseguiu cada decisão tomada por Vargas, sua família e seus ministros. 

Assim, Carlos Lacerda influenciou muito nos acontecimentos entre 1945 e 1968, pois quando não estava totalmente envolvido, contribuiu para que ocorresse. 

Foi, porém, a paixão que gerou tudo, o grande orador, o grande líder, a personalidade controvertida, amada e odiada, a inspiradora de um dos homens que mais influíram com eficácia na história brasileira entre 1945 e sua cassação em 1968, quando ainda sonhava ser Presidente da República.

José Honório Rodrigues

Mas ele se afirmava politicamente a custos caríssimos para a estabilidade nacional. E foi isso que aconteceu quando acusou o jornal a Última Hora de ter sido beneficiado com empréstimos especiais junto ao Banco do Brasil. Sua atuação contribuiu para que se formasse uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar esse caso em 3 de junho de 1953. Essa denúncia abalou a imagem de Vargas,já cambaleante, e colocou os demais jornais da época contra o governo, o que criou um verdadeiro caos. Porém não foi suficiente, pois Lacerda tentava punir Getúlio Vargas pelos crimes que achava conveniente, e em nenhum conseguia chegar diretamente ao nome do presidente.  Com isso, Lacerda denunciou Samuel Wainer, proprietário do jornal Última Hora, por  descumprir a lei brasileira que não permitia que estrangeiros fossem proprietários de veículos de comunicação. Claro que tentava atingir Wainer, que era seu desafeto por situações pretéritas, mas pretendia envolver Vargas com toda a confusão que criava. A obsessão por Wainer foi refletida em várias edições  do Tribuna da Imprensa, em uma delas, a manchete dizia “Wainer não é brasileiro” em letras garrafais, que tentava denunciar uma fraude, mas também estimular o nacionalismo e a xenofobia.

Carlos Lacerda
Carlos Lacerda fez manchete que atacava Samuel Wainer. | Foto: Reprodução

Contudo,a situação pela qual o jornalista seria muito lembrado ainda estaria por vir. No dia 5 de agosto de 1954,  Carlos Lacerda sofreu uma tentativa de homicídio  em frente ao seu edifício na  rua Tonelero, em Copacabana, que causou a morte do major aviador Rubens Vaz, o qual estava como guarda-costas do jornalista naquele dia. A investigação ficou a cargo de oficiais da Aeronáutica, que tiveram liberdade para desenvolver o caso como quisessem, e em pouco tempo descobriram os principais suspeitos.

Para infelicidade de Vargas, seu chefe da Guarda Presidencial, Gregório Fortunato, era o mandante e estava envolvido não só neste ato criminoso, como em um esquema de corrupção, lucrando às escuras com a posição que exercia dentro do Palácio do Catete. Embora estivesse envolto em corrupção, Getúlio Vargas não foi citado em nenhuma das transações descobertas nos arquivos de Gregório Fortunato, apreendidos pela Aeronáutica. A tese da autoria de Vargas no atentado era uma invenção de Lacerda, que obcecado em comprometê-lo para depô-lo, não se importava em mentir para atingir seu objetivo. Seja como for, as Forças Armadas estavam no centro de mais uma crise, os udenistas preparados para derrubar o presidente e o líder do partido mais eloquente do que nunca. Lacerda acusava de maneira direta o chefe do executivo sem ser punido por isso: 

Mas, perante Deus, acuso um só homem como responsável por esse crime. É o protetor dos ladrões, cuja impunidade lhes dá audácia para atos como o desta noite. Esse homem se chama Getúlio Vargas.

Carlos Lacerda

Mas o suicídio de Vargas estragou os planos golpistas dos udenistas e militares em todos os sentidos, pois  a notícia inesperada chocou o país e colocou o povo contra a oposição. Carlos Lacerda sentiu diretamente o impacto da euforia do povo, teve que se esconder na embaixada norte-americana, temendo a multidão que se propagava em fúria pelas ruas do Rio de Janeiro. Tudo isso aconteceu, principalmente, após a carta testamento de Vargas ser divulgada massivamente,  pois ela conseguiu lançar a oposição aos brasileiros como motivo da crise instaurada e da morte do presidente:

Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.[…] Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate.

Getúlio Vargas

Portanto, é possível compreender que  Carlos Lacerda não se consagrou na história do Brasil de 1945 a 1954 como um jornalista comum que falava sobre política, era um político que usava o jornalismo como arma para destruir seus adversários e se projetar no imaginário nacional. Com sua oratória corrosiva, tentou desconstruir a imagem de várias pessoas importantes no cenário brasileiro e trilhar um caminho a postos mais altos da política, e não há dúvidas de que seu maior objetivo era a Presidência da República. Acreditava no seu poder de destruição e gostava de pensar que mesmo criando o caos, atuava para o bem da sociedade. “Ele defende que a civilização encontra-se ameaçada pelos que, ao tentar defendê-la, a renegam e não por aqueles que, desejando aperfeiçoá-la a destroem”. Desta forma, Carlos Lacerda é um importante personagem político brasileiro que influenciou muito na história do período em que viveu, e  seus interesses para o Brasil e atuação na sociedade são fundamentais para entender a política ocorrida entre 1945 e 1954.

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Por Geovana Souza – Universidade Federal Fluminense 

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