Aissatu Dabó: secretária da Liga Guineense Contra o Cancro
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Aissatu Dabó: secretária da Liga Guineense Contra o Cancro

Aissatu Dabó: secretária da Liga Guineense Contra o Cancro

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Aissatu Dabó é a responsável pela Liga Guineense Contra o Cancro, primeira e única organização que trabalha em prol dos doentes oncológicos na Guiné-Bissau. Conheça a história de Aissatu Dabó e confira uma entrevista completa! 

Aissatu Dabó
Aissatu Dabó é secretária da Liga Guineense contra o cancro. | Foto/ Reprodução: Acervo Pessoal

Entrevista com Aissatu Dabó

1) Como surgiu a ideia de criação da referida organização?

A ideia da criação da liga na verdade surgiu duma experiência pessoal minha quando, em 2011, fui diagnosticada um tumor benigno na mama em estágio dois (Fase inicial), e, durante o meu tratamento, tive oportunidade de participar em várias sessões de sensibilização organizada pelas organizações que lutavam contra esse flagelo naquele país. No final do meu  tratamento,  regressei ao meu país  e  tinha duas ideias fixas na cabeça: a primeira era  escrever um livro para imortalizar o que vivi e ao mesmo tempo uma forma de alertar a sociedade e as nossas autoridades sobre essa patologia (ideia não concretizada mas ainda de pé ,estou a trabalhar nisso). 

A segunda ideia era criar uma organização a imagem das que vi no Senegal, que iria encarregar na luta contra o cancro como maior desafio, e tendo em conta que na Guiné-Bissau não existia nenhuma organização ou estrutura estatal que ocupava especificamente esses tipos de casos .E foi a partir daí que partilhei essa ideia da criação da nossa organização com uma amiga que tem bastante experiência na área de projetos e ativismo social e ela abraçou a causa de imediato e foi assim que logo lançamos na criação da liga guineense de luta contra o cancro  denominada LIGCCA ,com outras pessoas especiais que aderiram a causa, isso permitiu  que no dia 26 de julho 2016 fosse criada  a  LIGCCA que conta hoje vinte e três (23) membros ativos.

Liga Guineense contra o cancro
Liga Guineense Contra o Cancro. | Foto/ Reprodução: Acervo Pessoal

2) Dado que na Guiné-Bissau não existe nenhum centro especializado nesta área, como tem sido o processo de diagnóstico e consequente tratamento?

Efetivamente a Guiné-Bissau não dispõe de centros especializados para tratamentos oncológicos  e nem possui especialistas na área da Oncologia, o que impossibilita organizações como a nossa ter acesso a dados reais sobre casos diagnosticados no dia, no mês ou num ano.

Baseia-se mais em casos suspeitos ou caso em que o paciente já se encontra em tratamentos paliativos (doentes terminais). No último estudo de projeção feito pela OMS, em 2020, na Guiné-Bissau, em 100% de casos descobertos e tratados,  90% dão em óbitos por falta de meios de diagnóstico e tratamento. 

Nos casos suspeitos diagnosticados no país o paciente  tem duas possibilidades: a primeira é recorrer a solicitação de uma junta médica para Portugal (os processos administrativos é muito burocrático e demorado) e a outra opção é um paciente ir por conta própria (infelizmente essa opção fica para os que mais possuem meios financeiros) e no final não tem como saber a nível das nossas autoridades sanitárias se o nódulo suspeito era um tumor ou não, pois não houve seguimento à nível local.

3) Quais são as estratégias que têm usado em termos de sensibilização e informação acerca desta doença?

Entre os campos de ações da nossa organização temos a promoção de campanha de sensibilização para prevenção do cancro, promoção de campanhas de angariação de fundos a favor das vítimas, vulgarização das informações especializadas, acompanhamento e assistência no processo de acesso ao diagnóstico e tratamento, apoio e assistência das vítimas de cancro (social e psicológico).

Acho que informar, conscientizar e sensibilizar é primordial nessa doença. Ė importante informar sobre a doença, visto que muitos ainda não sabem o que é um cancro (tumor) e por ignorância de não saberem, muitos cometem erros que no final podem ser-lhes fatal,  exemplos das mulheres que sentem nódulo na mama ao invés de irem para hospital  acham que foram amaldiçoadas  por feitiços e optam pelos tratamentos tradicionais enquanto a doença apodera o seu corpo. 

Conscientizar a sociedade é necessário para quebrar o estigma (o tabu) existente a volta do cancro até nas camadas da nossa sociedade mais esclarecidas, por vergonha preferem ficar calados ou porque acham que quem tem cancro é uma sentença de morte têm medo dos tratamentos,  da perda de cabelos etc… Acho que há vários fatores que têm de ser debatidos de uma forma aberta sem julgamentos para permitir quebrar essa ideia errada da doença e fazer passar a mensagem. Sensibilizar é uma ação recorrente na nossa organização que visa lembrar a importância de um diagnóstico precoce em caso de suspeita da doença como o cancro, incitar e ensinar  as mulheres a fazerem o auto exame (auto-apalpe) e fazer pressão as autoridades para que as condições necessárias sejam criadas a nível do país. A nossa organização tem realizado vários, encontros de sensibilização (Djumbai), palestras,campanhas de distribuição de panfletos, bazares, promoção de esportes (zumba,futebol,caminhadas etc…) tudo isso são diferentes formas que tentamos fazer passar as nossas mensagens, sem contar com meios de comunicação que utilizamos (SMS de massa, participação nos programas televisivos e radiofónicos e a nossa página oficial no Facebook ), de salientar que tudo o que fazemos até hoje são com os nossos próprios meios e as campanhas de angariação de fundos que às vezes realizamos.

4) Qual tem sido o papel das autoridades estatais nesta luta, sendo que ainda não há profissionais de saúde especializados nesta matéria? 

Até aqui, nada de relevante. Não sentimos ainda uma real proatividade, um real engajamento  das autoridades em relação aos doentes oncológicos do país.

5) Como sobrevivente deste flagelo, como se sentiu ao descobrir que tinha cancro?

Um choque né, é sempre angustiante quando recebemos um diagnóstico da confirmação do tumor a pessoa fica sem chão e vem logo aquela pergunta famosa ‘O POR QUE EU ??’ . Pois era muito nova na altura tinha 26 anos ,não tinha filhos, tudo estava correndo às mil maravilhas na minha vida até o dia que recebi o diagnóstico tudo virou cinzento na minha cabeça, achava que era o fim, passei a lutar contra o meu próprio corpo durante um ano,e graças a Deus o final foi feliz. Por isso que acho que estar viva hoje é uma segunda chance, um privilégio que não devo desperdiçar em vão, tenho que fazer tudo para ajudar no combate a esse flagelo para que haja mais Aissatu para contarmos juntas a história de que há uma vida pós cancro.

6) Como foi o seu processo de tratamento?

Posso dizer que tenho o privilégio de trabalhar numa multinacional que no quadro das suas responsabilidades sociais da empresa se preocupa com a saúde dos seus colaboradores, e o meu tumor foi descoberto graças a uma equipa médica do grupo que anualmente realiza um check up a todos  trabalhadores da empresa, e tendo em conta a falta de meios de diagnósticos e de tratamento no país, fui evacuada para Sénégal e foi aí que fiz todos os tratamentos desde exames preliminares até o último tratamento passei por uma biópsia, ressonâncias magnéticas, quimioterapias, 4 sessões em cada 21 dias de intervalos, cirurgias e 22 sessões de radioterapia, todo tratamento durou um ano.

Acompanhado de controle estrito e rigoroso por mais de dois anos  suplementares a cada trimestre, depois semestre e finalmente anual . 

7) Quem é a Aissatu e qual é a sua formação profissional/área de atuação?

Eu sou Aissatu Dabó, mãe de dois filhos, comprometida, licenciada em Marketing e management pela universidade das Empresas AFI/UE Senegal (DAKAR),  funcionária da empresa de telecomunicações Orange Bissau desde 2008, afeto a Direção da Responsabilidade Social da Empresa e parcerias como encarregada de projetos sociais da Orange Bissau.

aissatu dabó
Por meio da liga, Aissatu busca promover conscientização sobre o câncer. | Foto/ Reprodução: Acervo Pessoal
Liga guineense contra o cancro
A iniciativa é a primeira a lutar contra o câncer em Guiné Bissau | Foto/ Reprodução: Acervo Pessoal

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Por Benazira Djoco – Fala! UNIESP PB 

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