'Todos os Homens do Presidente' é um ode ao quarto poder
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‘Todos os Homens do Presidente’ é um ode ao quarto poder

‘Todos os Homens do Presidente’ é um ode ao quarto poder

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Em um ano de eleição presidencial estadunidense, o clássico Todos os Homens do Presidente mostra-se atual. Já que trata de uma das faces mais obscuras da política: a corrupção. Além, claro, de ser uma miniaula sobre os dois partidos que disputam os EUA: Democratas e Republicanos.

O Caso Watergate, investigado pelos jornalistas Bob Woodward (Robert Redford) e Carl Bernstein (Dustin Hoffman), se iniciou na invasão do prédio do Partido Democrata por um grupo de homens e culminou na crise do governo de Richard Nixon, em 1974. Mas o filme vai muito além, ele é um ode audiovisual ao bom e velho quarto poder, representado nas mídias e no jornalismo.

Todos os Homens do Presidente
Equipe principal do The Washington Post. | Foto: Reprodução.

Filme Todos os Homens do Presidente

 A narrativa é construída utilizando todo o potencial do audiovisual, abusando dos sons, enquadramentos, texturas de fotografia, experimentação de ângulos como um conjunto equilibrado e muito bem desenvolvido.

Na primeira e icônica cena, é encenado o primeiro passo para o desenrolar de toda a trama envolvendo dirigentes do partido Republicano, o FBI, a CIA e o próprio presidente. Cinco homens são presos por invadirem o edifício Watergate, ligado ao partido Democrata. Cena essa, que aparece nos últimos minutos do filme The Post, pois o que se segue em Todos os Homens do Presidente é uma continuação da história do jornal The Washington Post. Logo depois os suspeitos comparecem a uma audiência para se retratar, na qual Woodward começa a notar questões suspeitas sobre os envolvidos. 

the washington post
Carl Bernstein (Hustin Hoffman) à esquerda e Bob Woodward (Robert Redford) à direita. | Foto: Warner Bros. Entertainment.

Os dois repórteres mais jovens da redação, Woodward e Bernstein, se veem fisgados pelos detalhes do caso que não estão sendo notados pela maioria, como o nome de um dos invasores na folha de pagamento do comitê de reeleição do presidente Nixon, membro do partido republicano.

Mesmo assim, seus editores ainda duvidam de ter algo “maior” relacionado à invasão. “Howard, eles são famintos (pelo jornalismo). Se lembra de quando você era faminto?”, diz Harry confrontando outro editor-chefe, em defesa dos dois repórteres. Essa frase, parte de um diálogo sobre continuarem com as reportagens cobrindo Watergate, mostra como cada diálogo do filme é importante, parte essencial da narrativa.

Além disso, no desenvolvimento dos personagens, fica claro como o afirmado sobre eles serem famintos pelo jornalismo é um fato. Tanto pela maneira apaixonada como abordam o caso, evidenciada nas cenas da dupla lendo centenas de fichas de registros bibliotecários de um suspeito ou indo de porta em porta buscando entrevistar outras pessoas envolvidas. 

Diferencial da produção

Porém, o diferencial desse filme é transformar o clichê da jornada do herói em algo muito significativo: o quarto poder como camada da sociedade que transita pelas outras camadas. Principalmente demonstrado no jogo de fotografia com diversos cenários: das ruas escuras à Casa Branca, dos encontros noturnos no estacionamento entre Woodward e Garganta Profunda, seu informante,  aos painéis iluminados da redação do jornal.

Com seu papel de representante dos interesses sociais, o jornalista está presente em diferentes ambientes, absorvendo diferentes perspectivas dos fatos e, também, da realidade. Outro ponto a se pensar é que o tom sério presente não assusta, pelo contrário, ele prende a atenção do espectador e posso garantir: você vai se remexer de tensão algumas vezes.

A sonoplastia construída é o principal motivo desse engajamento saudável com a narrativa, pois, em algumas cenas de entrevista, pode-se ouvir até mesmo o barulho de um avião decolando. Alguns diálogos são feitos aos sussurros, outros são parte da cacofonia da redação, também com a trilha sonora marcadamente de suspense como pano de fundo. E comparando brevemente: assistir ao filme lembra bastante as sensações de ler alguma reportagem da revista Piauí, com a primeira cena sendo descrita em uma perspectiva de narrador-observador e a capacidade sinestésica que os dois possuem ao contar a história de um fato. 

Por trazer um lado mais realista do caso Watergate, crucial na corrida eleitoral entre republicanos e democratas, ele reflete a necessidade do quarto poder em ação. E mais do que isso, te faz lembrar que políticos e jornalistas, antes de tudo, são pessoas. Pessoas cujas escolhas se refletem em toda a sociedade.

Nesse caso, Nixon (juntamente do Partido Republicano) colocou tudo a perder quando escolheu abusar do exercício de seu poder, comprando pessoas e montando esquemas antidemocráticos. Woodward e Bernstein não deixaram para depois a oportunidade de desmascarar todo o sofisticado envolvimento político. Dê uma chance ao longa-metragem (é longo mesmo) para se sentir inspirado na cobertura do dia a dia de trabalho, fica a promessa de que vale a pena. 

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Por Raquel Pereira – Fala! UFRJ 

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