'Soul' - Celebre cada momento com o novo sucesso da Disney
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‘Soul’ – Celebre cada momento com o novo sucesso da Disney

‘Soul’ – Celebre cada momento com o novo sucesso da Disney

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Quando assisti pela primeira vez o trailer de Soul, fiquei surpreso. Jazz, protagonista negro, um viés existencialista. Criei expectativas. A Pixar costuma não decepcionar os amantes de suas obras. Aliás, qualquer pessoa que conheça o trabalho de Pete Docter (diretor de Divertida Mente e Up!), e dos estúdios da luneta saltitante, fica um pouco ansioso quando anunciam uma nova produção.

A animação foi lançada em dezembro de 2020, no Disney Plus, e já foi considerada um dos melhores trabalhos da Pixar. O que não faltam são especulações de que o filme será indicado a diversas premiações em categorias como melhor animação, melhor trilha sonora, melhor roteiro original e, até mesmo, melhor filme do ano.

A animação já se tornou um dos grandes premiados do 1º Critic Choice Super Awards, levando os prêmios de melhor animação, melhor dublador (Jamie Foxx) e melhor dubladora (Tina Fey). | Foto: Reprodução.

Soul traz um músico além de si

Joe Gardner, um professor de música de meio período, busca crescer em sua carreira profissional após frustrações na jornada. Ao ser convidado por seu amigo Curley, o pianista recebe a oportunidade de participar de uma audição para ser integrante do quarteto de Dorothea Willians, musicista de jazz admirada por ele. Assim, depois do teste em que apresentou uma ótima performance, Joe consegue o emprego e aproxima-se de realizar o sonho de ser um músico renomado.

No entanto, ao caminhar alegremente pela rua depois de ter alcançado sua grande chance, ele sofre um grave acidente ao cair em um bueiro – que o deixa desacordado – e uma nova jornada começa. Após o ocorrido, acompanhamos a alma de Joe no Além-Vida, um lugar para onde todas almas vão após deixarem seus corpos na Terra. Contudo, o jazzista busca retornar para continuar a viver.

Na busca por um escape, Joe chega a um mundo transcendental: o Pré-Vida, local onde as almas são formadas e recebem suas personalidades antes de seguirem para a Terra. É nesse espaço que ele conhece a 22, uma alma que não tem nenhuma vontade de experimentar a vida humana.

No Pré-Vida, as almas recebem um tutor para que sejam orientadas a encontrarem uma paixão que fará parte de sua personalidade. Joe torna-se responsável por guiar 22 na descoberta por sua “faísca”, ou seja, um propósito para viver, enquanto tenta encontrar maneiras de retornar ao seu corpo.

Assim, os dois embarcam em uma aventura que traz reflexões sobre qual é o sentido da vida e a origem dos desejos humanos.

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Com uma abordagem existencialista, a Pixar traz uma produção voltada para adultos e jovens. | Foto: Reprodução.

Entre dois mundos

Um dos pontos mais marcantes, capaz de elevar a narrativa e gerar o envolvimento do espectador, é o contraste bem estruturado entres os dois mundos.

De um lado, assistimos a um universo que apresenta uma estética de criações visuais inventivas. Personagens fantasmagóricos com cores brilhantes e outros com linhas desordenadas. Uma predominância de tons fortes de neon entre azul e rosa. Assim como em Diverda Mente, Pete Docter consegue mostrar um lugar surreal, que prende quem está assistindo e faz com que este esteja imerso nesse mundo metafísico.

Em contrapartida, a ambientação das cenas pelas ruas de Nova York, antes e após um twist que altera o enfoque, tem uma estética composta por uma minuciosidade vislumbrante. A qualidade da animação esbarra no real ao mostrar o cotidiano. Cada detalhe tem seu valor. Os fios de cabelo de Joe; a fluidez da movimentação das mãos de Dorothea Willians ao tocar o saxofone; a criação artística da cidade de Nova York e dos locais visitados pelo personagem como a estação de metrô e a barbearia; os alimentos comidos por Joe. Com essa estética, por vezes, você esquece que está assistindo a uma animação. Esse realismo tão preciso ainda não tinha sido apresentado pela Pixar.

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Os roteiristas Mike Jones e Pete Docter procuraram, cuidadosamente, não colocar em tela qualquer tipo de estigma racista ao falar sobre um homem negro. | Foto: Reprodução.

Para fortalecer ainda mais essa diferença entre os dois universos, a trilha sonora de Trent Reznor torna-se um recurso fundamental. Os sons de sintetizadores geram a atmosfera necessária para que o Pré-Vida e o Além-vida sejam um espaço misterioso e transcendental. No entanto, durante os momentos que acompanhamos Joe na Terra, o jazz é vibrante, movimentando a dinâmica do longa e realçando a harmonia com contexto do Brooklyn.

O trabalho de voz de Jamie Foxx e Tina Fey é sensacional por conseguirem transmitir com muita qualidade a personalidade dos personagens. A voz de Foxx se encaixa perfeitamente com Joe e mostra-o como um homem apaixonado pela música e que está buscando novos significados para a vida. Já Tina Fey, carrega um humor ideal para a 22 e todo o seu sarcasmo.

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Soul tornou-se o primeiro filme da Pixar a ser lançado em uma plataforma de streaming. | Foto: Reprodução.

Além disso, no encerramento da animação, há uma cena que se tornou uma das mais belas da Pixar e mostra como o estúdio possui o talento de construir partes memoráveis para seus filmes. Ao som da música Epiphany, de Reznor, Joe recorda os bons momentos vividos em sua história e entende como o verdadeiro sentido da vida é saber aproveitá-la. A simplicidade dessa cena com cortes suaves na edição, revelando pedaços do passado do protagonista, carrega uma emoção impressionante.

Essa é uma especialidade dos estúdios: criar cenas inesquecíveis. Como não lembrar de Miguel cantando Remember me (Lembre de mim) para sua bisavó em Coco (Viva — a vida é uma festa)? É possível esquecer da cena em que Andy se despede de seus brinquedos em Toy Story 3?

Apesar dos bons diálogos e da proposta inovadora, o enredo se apressa em seu desfecho. O encerramento do longa não desenvolve as consequências do ato final com profundidade. É possível que você termine de assistir desejando saber o que houve com a 22 e quais seriam os próximos passos de Joe.

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Os detalhes impecáveis da estética aproximam a animação da realidade do espectador, principalmente do público adulto. | Foto: Reprodução.

Representatividade em tela

Pela primeira vez na história da Pixar um homem negro é protagonista. Algo que marcou a trama foi a preocupação do estúdio em não apenas colocar esse personagem principal na tela, mas também ressaltar a importância do jazz na construção da cultura negra dos EUA. O que o estilo musical representa para Joe funciona ao mostrar elementos que fazem parte da história da comunidade negra.

A intenção de Pete Docter e Kemp Powers (codiretor e 1º diretor negro de uma animação da Pixar) foi mostrar a beleza da vida de pessoas afrodescendentes e desfazerem os pré-conceitos, algo que não ocorre em diversos filmes ao retratarem essa população. E para isso, a Pixar, antes de estrear o longa, convidou um grupo de pessoas negras para assistirem e analisarem, para dizerem se algum tipo de estereótipo foi introduzido.

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Com a pandemia da Covid-19, o filme terminou de ser produzido remotamente por toda equipe. | Foto: Reprodução.

Quando assisti às cenas que revelam breves momentos do passado de Joe, trouxe à memória Moonlight: sob a luz do luar. Barry Jenkins, diretor do filme, procurou mostrar a trajetória de um homem negro com olhar poético, utilizando alta vibração das cores e um forte contraste de luz e sombra. A fotografia faz você enxergar a vida do protagonista como uma poesia durante toda sua exibição. Existe encanto no dia a dia de um homem negro, e não apenas dor e sofrimento.

A proposta foi diferente, visto que várias produções que mostram o cotidiano de comunidades mais pobres do EUA com um tom infeliz e sombrio. Não à toa que a obra, por sua excelência visual, foi indicada ao Oscar de melhor fotografia.

De igual forma, Docter e Powers tiveram a preocupação de desconstruir estigmas associados à comunidade negra por intermédio da estética visual. A representação da vida simples de Joe carrega beleza e vigor.

A expressão jazzar, usada algumas vezes nas conversas do filme, é significativa. Quando a 22 diz que está jazzando, ela sempre diz em um momento em que está curtindo o que está fazendo. Quando está transbordando e escapando do tédio que as pessoas tornam seus dias ao seguirem padrões. Do mesmo modo, essa sempre foi uma necessidade dos negros diante da discriminação racial. Jazzar, ou seja, viver além dos pré-conceitos. Ser quem quer ser sem importar com o que dizem.

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Soul já atingiu a marca de 95% de aprovação no Rotten Tomatoes, website que reúne diferentes críticas de cinema e séries. | Foto: Reprodução.

A vida ainda é bela

O longa-metragem traz reflexões que não serão tão bem assimiladas pelo público infantil. Apesar do leve humor da trama, Soul demonstra como, mais uma vez, o alvo da Pixar não está exclusivamente em crianças. Certamente, adultos compreenderão com mais profundidade a premissa do filme.

O filme estreou no final de 2020. Algo simbólico. Um ano difícil, atípico, mas que trouxe novos significados e fez muitas pessoas refletirem sobre o valor da existência. Um ano em que as lembranças trouxeram força em meio aos dias tão caóticos. A saudade foi intensa diante de momentos tão tristes.

E esse é um dos aprendizados que Joe Gardner nos deixa: não viva apenas por uma paixão, mas encante-se por tudo que a vida é. Sendo assim, as recordações nos darão paz para seguir adiante e nos lembrarão do que realmente importa.

Soul é um convite para celebrar os pequenos pedaços da vida e fazê-la memorável. Desfrutar cada instante para sentir, sorrir ou simplesmente contemplar as folhas caindo das árvores após uma brisa suave. A vida ainda é encantadora. Basta saber para onde olhar.

Ficha técnica de Soul

Título Original: Soul
Lançamento: 2020
Direção: Pete Docter, Mike Jones e Kemp Powers
Elenco: Jamie Foxx, Tina Fey, Questlove, Angela Bassett
Duração: 101 minutos

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Por Lucas Kelly – Fala! UFF

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