Silenciados pela ditadura: artistas brasileiros que foram exilados
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Silenciados pela ditadura: artistas brasileiros que foram exilados

Silenciados pela ditadura: artistas brasileiros que foram exilados

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De Caetano Veloso a Oscar Niemeyer, a partir de 1964, todos os artistas considerados subversivos ou alinhados aos ideais de esquerda tiveram seus trabalhos censurados, foram presos, torturados ou exilados como tentativa de manter a ordem política. Iniciava-se o longo período de 21 anos da história brasileira, conhecido como Ditadura Militar

Após o golpe que depôs o presidente João Goulart (PTB), os militares assumiram o poder e passaram a governar através de Atos Institucionais até 1985. Durante os anos de repreensão contra todos que se mostravam contrários ao regime, muitos intelectuais fizeram o autoexílio, por não concordarem com a política da época.

No entanto, o exílio, na maioria dos casos, era feito de maneira forçada. A perseguição de grandes nomes da música, arquitetura e dramaturgia se tornou a única solução encontrada pelos militares para manter longe a oposição da classe artística. 

Artistas brasileiros que foram exilados na Ditadura Militar

Caetano Veloso

Caetano Veloso
Caetano Veloso. | Foto: Tereza Eugênia.

Um dos maiores nomes da Música Popular Brasileira (MPB) e formulador do tropicalismo, Caetano Veloso foi preso junto com Gilberto Gil em 1968, logo após a prorrogação do AI-5 – Ato Institucional mais repressivo que deu início aos Anos de Chumbo da ditadura.

Sem motivos aparentes, os dois foram julgados como subversivos pelas suas músicas libertárias, mesmo sem ter ligação com qualquer entidade política. No entanto, após rumores, os militares acusaram os músicos de terem desrespeitado o hino nacional e a bandeira do Brasil durante um show. 

Os dois músicos foram presos e transferidos para o Rio de Janeiro, e soltos dois meses depois, já inocentados das acusações de desrespeito ao hino nacional e à bandeira. Mas, ao voltar a Salvador, foram novamente presos, submetidos à prisão domiciliar por 5 meses, proibidos de fazer shows e dar entrevistas. Em meados de 1969, os militares decidiram que o exílio seria o ideal. Caetano e Gil partiram para Londres, na Inglaterra. 

Em entrevista para o Correio Braziliense, Caetano conta o momento exato de sua partida:

Nunca quis morar fora do Brasil. Ser exilado me deixou meio deprimido. Lembro-me de que um cara da Polícia Federal (acho que era da PF: tudo relativo a nossa prisão e exílio era muito desorganizado e obscuro) me levou até dentro do avião e me disse: ‘Não volte. Se voltar, nos poupe do trabalho de um dia procurar você’. Numa ida a Paris, já no segundo ano de exílio em Londres, a 12 abaixo de zero, chorei na rua e cantei, aos berros, Apesar de Você.

Gilberto Gil

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Gilberto Gil. | Foto: Reprodução/ Portal Terra.

Gil foi preso e exilado junto com Caetano, sob acusação de “desrespeito à pátria”. Presos no Rio de Janeiro, Gil conta que chegou a desenvolver uma relação com os militares, foi autorizado a ter uma dieta vegetariana e chegou a ganhar um violão de presente.

Gilberto Gil compôs, enquanto preso, as canções Futurrível, Cérebro Eletrônico e Vitrines. Segundo o jornal Correio Braziliense, o cantor chegou até mesmo a fazer uma apresentação para os militares durante um jantar.

Ainda no exílio na Inglaterra, Gil gravou outras canções e, em 1970, gravou a trilha sonora do filme Copacabana mon amour, de Rogério Sganzerla, que foi censurado no Brasil. Tanto Gil quanto Caetano só voltaram para o Brasil em 1972. 

Oscar Niemeyer 

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Oscar Niemeyer . | Foto: Reprodução/ Portal UOL.

O arquiteto responsável por projetar Brasília era assumidamente membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB) desde 1945. Após o golpe militar, Niemeyer foi proibido de trabalhar no Brasil e se exilou, em 1967, na França. O arquiteto só retornou para o país de origem em 1980. 

Chico Buarque 

Chico Buarque
Chico Buarque. | Foto: Reprodução/ Unasp.

O compositor de Cálice foi um dos maiores alvos dos militantes durante a ditadura. Os militares costumavam ter os seus alvos preferidos na MPB, depois de perseguir Geraldo Vandré, o preferido deles passou a ser Chico Buarque de Hollanda.

Buarque teve muita dificuldade de lançar suas canções sob a mira dos censores da ditatura, grande parte de suas músicas eram vetadas. Por isso, passou a usar o pseudônimo Julinho da Adelaide para ter suas canções aceitas. Uma das canções lançadas com o pseudônimo foi Jorge Maravilha.

Em uma viagem a Roma com Marieta Severo, com quem foi casado, Chico descobriu que, caso voltasse ao Brasil, seria preso pelo regime militar. O músico se autoexilou na Itália entre 1969 e 1970. No exterior, compôs as canções Samba e amor, Apesar de Você, Agora Falando Sério e Samba de Orly

Raul Seixas

artistas exilados na ditadura
Raul Seixas. | Foto: Marcos Machado/Estadão Conteúdo.

O cantor de Maluco Beleza também foi alvo do regime militar. Raul Seixas contou que foi preso no Aterro do Flamengo, enquanto voltava de um show. Segundo ele, o carro do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) parou seu táxi e o deixou nu com o rosto tapado. Quando percebeu, estava em um local subterrâneo com as paredes sujas de limbo. O compositor afirmou que ficou no local por três dias sendo torturado e interrogado pelos militares. 

Na época, o músico tinha uma ligação muito forte com o escritor Paulo Coelho, chegando a criar canções como Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás. Conforme reportagem da Folha de S. Paulo, o jornalista Jotabê Medereitos afirma que encontrou um documento que convocava Coelho para prestar esclarecimento no DOPS, após Raul já ter prestado informações. Paulo Coelho precisou dar explicações sobre o disco Krig-ha, Bandolo! e a Sociedade Alternativa, de Raul. 

De acordo com o relato do jornalista e a reportagem da Folha, Raul entrou na sede do DOPS, ficou lá por meia hora e retornou tentando dar algum recado cifrado ao amigo, que o esperava. Coelho não entendeu e foi chamado para o interrogatório. O escritor chegou a ficar preso e foi torturado por duas semanas. Após a reportagem, surgiram rumores de que Raul havia delatado Paulo Coelho para o regime militar. 

O escritor usou as redes sociais para se manifestar: “Fiquei quieto por 45 anos. Achei que levava segredo para o túmulo”, logo depois, tentou amenizar seu comentário: “Não confirmei e não confirmo nada. Eu apenas vi o documento e me senti abandonado na época”. Após a repercussão, a própria Folha de S. Paulo desmentiu os rumores no ano passado. 

O músico saiu do país junto com sua esposa Edith Wisner, Paulo Coelho e sua esposa, Adalgisa Rios. Os quatro se exilaram nos Estados Unidos no início de 1974. 

Outros artistas que foram exilados na ditadura e a lei da anistia

Além dos principais artistas brasileiros que passaram pela repressão e pelo exílio durante o regime militar, também destaca-se outros nomes importantes que foram obrigados a se refugiar em países estrangeiros. Dentre eles: o cineasta Glauber Rocha, o expoente do movimento conhecido como Cinema Novo chegou a ser preso por protestar contra o regime militar. Glauber se exilou em Nova Iorque em 1971, por conta das repressões do governo de Médici.

O escritor e jornalista Carlos Heitor Cony, preso diversas vezes na ditadura por conta de suas denúncias no jornal Correio do Manhã, também se exilou em Cuba, no ano de de 1967. Geraldo Vandré, cantor e compositor da música Pra não dizer que não falei das flores que, mais tarde, se tornaria um hino contra a ditadura militar, teve que se exilar no Chile, logo após a instauração do AI-5, em 1968.

Muitos artistas e intelectuais brasileiros só puderam voltar do exílio a partir de 1979, ano em que o presidente João Batista Figueiredo, após uma grande mobilização da sociedade civil, decretou a Lei da Anistia, que permitiu o retorno de todos os acusados de crimes políticos durante o regime militar. 

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Por Maria Júlia Melo – Fala! Uerj 

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