Nutrição e identidade: Como costumes alimentares se encaixam na sociedade
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Nutrição e identidade: Como costumes alimentares se encaixam na sociedade

Nutrição e identidade: Como costumes alimentares se encaixam na sociedade

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Somos familiarizados com a ideia de associar a comida apenas ao seu valor nutricional, observando a gastronomia cotidiana nas combinações de ingredientes, métodos e gostos. Mas é fácil notar que a alimentação não se limita apenas a isso, sendo comum que a memória afetiva das pessoas passe pela cozinha, tornando a comida uma expressão de cultura, identidade e memória, uma vez que ela é capaz de produzir e reproduzir afeto.

De acordo com a cientista social, Luciana Patrícia de Morais, a comida é elemento de cultura material, pois representa circunstâncias e condições em que se reproduz a vida social, sendo, por meio dela, que o mundo adquire concretude e representa valores, símbolos e costumes. 

identidade
A alimentação pode ser uma expressão da cultura e da identidade. | Foto: Unsplash.

Identidade e cultura

A alimentação é um importante símbolo representativo de culturas e constitui parte da identidade de grupos sociais, sendo muito associada a diferentes estilos de vida.

É comum, por exemplo, associar a feijoada ao Brasil, mas uma análise mais aprofundada mostra que cada região ainda tem sua especialidade: o Rio Grande do Sul é popular pelo churrasco; Minas Gerais destaca-se pelo famoso pão de queijo; a Bahia tem o acarajé; o Amazonas oferece o pirarucu de casaca, e por assim vai. São comidas chamadas “típicas” que constituem as diversas identidades dentro do país.

E não se trata apenas dos ingredientes que formam o alimento, mas também o modo de preparo e como as pessoas o consomem. Segundo a doutora em Antropologia Social, Maria Eunice Maciel, em seu artigo Identidade Cultural e Alimentação, a transformação e reinterpretação da natureza está na base de todos os sistemas alimentares: é cozido, frito ou cru? É utilizado o elemento todo ou é extraída alguma substância? É inteiro, picado, moído, ralado, em pó? Também depende da disposição de ferramentas necessárias durante o processo. Ao longo do tempo, evidenciaram-se entre as sociedades diferenças estruturadas a partir de sua cultura e de suas condições geográficas e socioeconômicas.

Anteriormente ao processo de globalização, sabe-se que, em diferentes regiões geográficas, desenvolveram-se diferentes culturas agropecuárias. Dessa forma, cada área do globo tinha seu cereal de preferência e mais adequado ao respectivo solo: o milho predominou nas Américas; o sorgo na África; o trigo na região mediterrânea; o arroz na Ásia. Assim, o cereal mais abundante em cada região, logo, se tornou base da alimentação em suas respectivas localidades, enraizando-se na cultura de seus povos.

É por meio da culinária que as culturas vão se mostrando, uma vez que a refeição naturaliza as referências simbólicas de um grupo, acostumando-o a determinados comportamentos e, por isso, acaba passando despercebido.

Através da repetição diária, a comida e a gastronomia começaram a representar uma estrutura base da identidade, perdurando nos costumes e tradições de diversos povos mesmo com outros cereais à disposição. Muitos descendentes japoneses residentes em outros países que não o Japão, por exemplo, ainda incluem em suas refeições o arroz japonês — aquele sem tempero e mais molinho. Ocorre o que é chamado de naturalização: o contato com esse alimento foi tão frequente, passando de geração em geração, que seu consumo foi firmado no cotidiano dessas pessoas.

Contudo, não só desse arroz se constrói uma alimentação. Com a grande disponibilidade e variedade de produtos devido à globalização, e ao intercâmbio de culturas, foram formadas inúmeras outras identidades alimentares, mostrando que elas não surgem como algo espontâneo e predefinido, mas são construídas ao longo do tempo, e se diferenciam dependendo de onde e com quem as pessoas crescem e amadurecem.

Um indivíduo pode, por exemplo, ter uma refeição se identificando com determinado grupo e sua tradição alimentar — macarrão no almoço — e, na refeição seguinte, estabelecer laços com outros grupos — sushi no jantar— e nenhuma das duas é excludente, pois, juntas, compõem a identidade desse sujeito.

A representação dessa mistura — ou não — de diversas culturas é muito bem representada em um projeto feito por Gregg Segal, denominado Daily Bread. Nele, Segal fotografa crianças de diversos países com o que seria ingerido por elas ao longo de uma semana. Mesmo tendo surgido como um alerta às questões nutricionais de alguns países, o projeto acabou mostrando, também, a diversidade alimentar entre povos e grupos sociais complexos e distintos.

alimentação como identidade
Projeto Daily Bread do Brasil. | Foto: Reprodução.

Mas, mesmo com essa mistura de culturas de diferentes partes do globo, ainda há muitos desencontros que podem ser motivo de conflitos e, até mesmo, preconceitos, tendo em vista que, uma vez associada ao imaginário social, a comida também está sujeita a estar presente na consolidação da hierarquia de poder entre diferentes classes e sociedades.

Poder e preconceito

Seria natural que um elemento associado a questões sociais logo se afetasse pelas estruturas de poder existentes no mundo. Muitas vezes, a diferenciação de classes ocorre por meio do valor que se paga por um prato de comida ou até mesmo se uma pessoa pode ou não comer na mesma mesa que seu patrão, por exemplo.

Joyce Fernandes (ou Preta-Rara, seu nome artístico), rapper e arte-educadora, criou a página Eu Empregada Doméstica no Facebook, em meados de 2016, a fim de abranger a discussão acerca do racismo e do machismo que sofrem muitas das mulheres que atuam como empregadas domésticas.

Lá, muitas vezes, se reforça a ideia de que a comida enfatiza as relações de superioridade entre patrão e empregada. Muitos dos relatos contam que só comia o que sobrava; só podia comer do lado de fora da casa; ou que o patrão sentia estar realizando um ato de solidariedade ao deixar que comesse na mesma mesa que ele, e ainda tendo que escutar comentários sobre “contratar mulher dar prejuízo porque elas engravidam”.

Em 2019, Preta-Rara lançou o livro Eu, Empregada Doméstica — A Senzala Moderna É O Quartinho Da Empregada, mostrando quão valioso é o trabalho realizado por essas mulheres, fazendo analogia com as escravas no Brasil colonial.

escravidão moderna
Preta-Rara lança o livro Eu, Empregada Doméstica — A Senzala Moderna É O Quartinho Da Empregada. | Foto: Reprodução.

Em 2017, foi publicado um estudo denominado “A gourmetização em uma sociedade desigual”, feito por Valter Palmieri Júnior, na época doutorando da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mostra que o crescimento econômico e social que se deu entre os anos de 2004 e 2008 foi responsável pela ascensão da classe média. Tal fato incomodou as classes mais altas, o que consolidou o movimento de gourmetização de diversas áreas da culinária, pois faz com que a comida se torne um elemento de diferenciação: as pessoas se propõem a pagar um preço mais elevado apenas para se distanciarem, mesmo que só de fachada, das classes inferiores.

Mas não é somente desse jeito que o afastamento entre grupos ocorre. Há, ainda, maneiras de se subjugar culturas por meio de relações com a alimentação de diferentes povos.

Em maio de 2016, Ranier Maningding publicou um texto em sua página no Facebook, The Love Life Of An Asian Guy (ou simplesmente LLAG), no qual dizia que “para entender o racismo, você precisa entender de comida”. Nele, o autor cita diversas situações em que sofreu algum tipo de discriminação por conta de sua tradição alimentar, como ter alguém olhando para a sua comida e dizer “eca, o que você está comendo?”; ter dificuldade em achar alguma comida “étnica” porque não há em mercados locais; ou ter que escutar de pessoas brancas que sua comida é, provavelmente, super suja e insalubre. Numa simplificação, trata-se de um racismo guiado pelo etnocentrismo, que classifica refeições de outras culturas como inferior ou nojenta.

preconceito oriental
Ranier Maningding é dono da página The Love Life Of An Asian Guy, do Facebook. | Foto: Reprodução.

A relevância desse repúdio vem à tona, também, no final de 2019 e início de 2020, com o advento do coronavírus. Surgiram boatos dessa suposta insalubridade dos alimentos orientais ter sido o motivo de disseminação da Covid-19. Nas redes sociais, memes e comentários racistas diziam ser “tudo culpa daquela sopa de morcego”, quando, na realidade, a ingestão de morcegos na China é considerada tão exótica quanto no Ocidente.

Buscando expor alguns fatos sobre as tradições da China e seus costumes alimentares, a youtuber Cymye postou um vídeo explicando toda essa confusão: o vídeo que circulava nas redes na época teria sido gravado há alguns anos em Palau, na Oceania, mas devido ao estereótipo que se tem em relação à alimentação dos chineses, a informação foi tomada como verdade e motivo para destilar ódio contra esse povo.

Questionamentos tomados em cima disso levaram à discussão sobre os hábitos alimentares dos brancos nos Estados Unidos, por exemplo. Eles sentem orgulho de sua comida, não costumam sentir vergonha por conta dela e é muito raro que tenham sido segregados por conta da aparência ou do cheiro dela, pois nunca sofreram com estereótipos racistas por sua culinária.

Muitos indivíduos de diversos grupos ocidentais escancaram seu desgosto pela tradição alimentar de outras culturas: repudiam a ingestão de carne de cachorros ou porquinhos-da-índia, mas não refletem sobre seus hábitos de consumirem carne de vaca ou de porco. É um tipo de julgamento que surge com base em como ela se compara às normas culturais vigentes em seu próprio país: o etnocentrismo.

Eu preferiria não comer o dia todo a ter que pegar minha comida iraniana favorita na frente dos meus colegas de classe não iranianos.

Monicka Morady, em um depoimento na publicação de Ranier Maningding

Na realidade, é muito comum que as pessoas sejam etnocêntricas por pura ingenuidade. É necessário ser muito aberto para abandonar valores que guiaram uma vida inteira para entender outras culturas. Os americanos, por exemplo, costumam dizer que os ingleses dirigem do lado “errado” da estrada, e não do “outro” lado, assim como alguém cuja alimentação tenha como base a carne de vaca ver outro povo tratando-a como sagrada e estranhando.

De fato, com a globalização, houve um processo de descentralização cultural e muitos hábitos foram mesclados e renovados, criando identidades culturais variadas e heterogêneas, misturando elementos que não seriam colocados juntos se não fosse por esse fenômenos — o sushi com cream cheese que o diga. Entretanto, ainda há muito para se refletir acerca da alimentação. O “outro” continua muito distante do “eu”, o que gera estranhamento, e esse estranhamento pode gerar fascinação ou repúdio.

A partir do momento em que a comida é utilizada como ferramenta de identidade e imaginário social, está sujeita a todas as mazelas que esses assuntos trazem consigo, mas também a todas as manifestações e reivindicações pelas quais as minorias lutam.

Comida é política, comida é racista, comida é classista, comida é conflito, comida é solidariedade. Comida é tudo.

Ranier Maningding

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Por Fernanda Tiemi Tubamoto – Fala! UFMG

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