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“Eu ainda não morri dos quadrinhos!” – Um papo sobre HQs

“Eu ainda não morri dos quadrinhos!” – Um papo sobre HQs


As dificuldades da cena de HQs independentes brasileiras.

O mundo das HQs brasileiras não é feito só da Turma da Mônica e super-heróis. Existe, na verdade, um mercado independente que muitas vezes não está nas grandes redes de livraria, trabalha com tiragens consideravelmente pequenas e tem paixão por quadrinhos, independente do retorno financeiro. No segundo semestre de 2015, segundo dados do portal Meio & Mensagem, a tiragem foi de 223.000 exemplares, por exemplo. Sem brincadeira, você consegue encontrar edições da “Turma da Mônica” em qualquer banca de jornal do país.

Ao conversarmos com escritores e roteiristas do ramo, fica claro que estar no mercado independente é uma escolha de abrir mão de certos aspectos, em prol de outros. Mas também tem as suas vantagens. O orçamento é pequeno, o alcance é menor, mas a capacidade de se fazer uma obra mais artística e menos comercial é um diferencial.

As maiores dificuldades, quando se está fora do mercado mainstream, têm a ver com distribuição e divulgação. “Eu ainda não morri dos quadrinhos!”, foi a primeira coisa que Daniel Esteves, roteirista e dono do Selo Zapata Edições, disse em tom risonho, quando perguntado se é possível viver só de quadrinhos. Mesmo suas histórias não tendo o alcance que teriam em uma editora maior, a recompensa vale a pena. “Quando você edita seu próprio livro, é uma relação diferente de trabalho”, disse com paixão nos olhos. “O livro deixa de ser apenas um em meio a tantos outros e adquire um significado. Você pode deixar o trabalho com a sua cara, do seu jeito e ainda tem um retorno diferente do público e do investimento. É uma relação muito mais próxima do que a impessoalidade de se comprar qualquer coisa de grandes editoras”, completa o artista.

O selo independente Zapata Edições foi criado a partir do HQ em Foco, o estúdio e escola fundado por Daniel e mais dois colegas em 2002.  Lá eles criaram um espaço para ensinar e produzir quadrinhos e publicaram diversos trabalhos roteirizados por Daniel e desenhados por diversos artistas ao longo dos anos. Foi só em 2016 que as obras passaram a ser publicadas pelo selo Zapata Edições. O nome mudou, mas o objetivo era o mesmo: publicar quadrinhos autorais sem preocupações comerciais.

Zapata Edições
Zapata Edições

Nem sempre é possível viver só da venda de HQs, às vezes é preciso diversificar o seu negócio. É isso que Lobo Ramirez fez. Ele é desenhista e tem a sua própria editora, a Escória Comix. Vai em feiras do ramo, tem seu tempo de produção e consegue fazer uma coisa que para ele é fundamental e impossível de fazer em uma empresa maior: valorizar o artista. “Eu converso com quem está comprando o quadrinho e depois produzo pensando neles”, disse ele.

A Escória Comix é uma editora nova ainda, surgiu em 2016 como uma iniciativa independente de Lobo. Feita para “aniquilar a raça humana”, ela publica quadrinhos e zines com uma temática mais ácida, sempre priorizando autores novos e dando para eles uma oportunidade no mercado. Lobo acredita que se ater a uma linha editorial é importante, pois torna a empreitada única, com o seu próprio jeito. Além dos quadrinhos, o site da editora tem uma aba chamada “trecos”, onde você pode encontrar bonés, camisetas e posters. “Não acredito que eu fiz pochete, mas eu fiz pochete”, contou Lobo rindo. Para a Escória, vender esses produtos é essencial, pois eles ajudam a bancar o custo de produção de quadrinhos.

Para esse custo de produção ser baixo, é preciso fazer tiragens de no mínimo 1000. A Escória não consegue atingir esses números, suas tiragens são de 300 a 500 exemplares e para conseguir cobrir o custo de produção, a editora precisa vender pelo menos 30 quadrinhos. Parece pouco, afinal devem existir 30 pessoas no país inteiro que vão querer comprar essas obras. Mas não, até mesmo atingir 30 pessoas é um trabalho difícil para uma editora pequena.

Eu faço quadrinho, o pessoal não compra, mas compra a camiseta”, completou ele. Grandes estúdios lucram mais com merchandising do que com filmes em si e se eles fazem isso, por que não uma editora independente o fazer também? Uma pessoa estar usando uma camiseta da Escória, segundo ele, também serve como divulgação da marca, o que definitivamente ajuda na sua sobrevivência.

Uma forma de fomentar não apenas os quadrinhos independentes, como também a cena inteira de quadrinhos brasileira, são os incentivos públicos.

Temos muitos autores que deveriam estar fazendo integralmente quadrinhos, mas infelizmente não conseguem devido à necessidade de trabalhar em outras áreas também.

Disse Marcelo D’Salete, professor e quadrinista, autor do premiado Angola Janga.

Ele acredita que ações como as do Programa de Ação Cultural de São Paulo são essenciais para impulsionar o quadrinho no Brasil. O ProAC costuma  lançar um edital para concurso na área de criação e publicação de histórias em quadrinhos. Em 2018, foram 14 obras selecionadas para serem contempladas pelo projeto, sendo sete de autores estreantes e sete de não estreantes e cada um ganhou 40 mil reais para financiar a publicação dos seus trabalhos. Sabe o que isso significa? Nada menos que 14 histórias em quadrinho que talvez nunca fossem ver a luz do dia, ganharam uma ajuda para serem publicadas.

Daniel Esteves compartilha dessa opinião e falou um pouco disso enquanto seu cachorro Zapata (xará do selo independente) tentava cavar um buraco no chão ao seu lado. Algumas de suas ideias só se tornaram realidade com o incentivo do ProAC, como os quadrinhos KM Blues, Por Mais um Dia com Zapata e, o mais recente, O Último Assalto.

Espero que os incentivos, não só aos quadrinhos, mas ao cinema, teatro, artes plásticas, literatura, cultura de uma forma geral sobrevivam a esse inverno tenebroso que a gente vai passar.

Comentou ele e, acreditando no dever do Estado de investir em cultura, ainda adicionou:

A gente tá vendo os caminhantes brancos de Game of Thrones, a gente tá enxergando eles há bastante tempo e não podemos deixá-los devastarem a cultura brasileira.

Tanto a Zapata quando a Escória são editoras independentes, mas com nichos específicos. Enquanto a Zapata tem as HQs históricas e outras com temas mais cotidianos, a Escória já tem outra cara, um humor mais irônico e sarcástico. Elas retratam bem o mercado editorial de quadrinhos independentes. Cada história nova nasce de uma vontade, uma ideia que precisa ser colocada no papel, não tem certo ou errado, o que vai ser mais lucrativo e o que vai dar prejuízo – é isso que torna esse ramo tão diverso.

Além dos diferentes gêneros que as histórias em quadrinhos podem ter, o cenário das HQs também está espalhado pelos quatro cantos do país. Mas em uma galeria da Rua Augusta, em São Paulo, o mundo independente têm um ponto de encontro: a Ugra.

A Ugra, antes se ter sua loja física na Galeria Ouro Velho, era um ZineFest, uma feira de publicações. Com o independente e underground no coração da feira, Daniela e Douglas primeiro resolveram fazer uma loja online, mas eles não abandonaram (e nem queriam abandonar) os pequenos artistas, conta a proprietária. O andar térreo, por exemplo, só tem quadrinhos brasileiros e nenhum de super-heróis internacionais.

A loja – que também trabalha com publicações nacionais de editoras grandes – é um abrigo para pequenos selos e artistas. As pessoas já olham o catálogo da Ugra sabendo que vão encontrar um material que não existe em grandes redes de livraria. “Acaba servindo como uma vitrine e um espaço de convivência”, explica Daniela. Eles não só vendem quadrinhos, também realizam feiras de divulgação, palestras e tardes de autógrafo com escritores, tudo para dar vida ao mundo das HQs brasileiras.

Mas essa é só uma pequena parte da cena de quadrinhos brasileira. Existem diversas editoras independente, muitos autores lutando para produzir os seus trabalhos e uma série de obras só esperando para serem descobertas e lidas.

Quadrinho não é só Marvel, DC e super herói, quadrinho é uma mídia, como o cinema é uma mídia, e dentro dele tem vários gêneros.

Completou Lobo.

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Beatriz Salvia e Madalena Derzi – Fala!Cásper

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