Entre racismo e machismo, mulheres negras resistem
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Entre racismo e machismo, mulheres negras resistem

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Neste Dia Internacional da Mulher, não basta apenas homenageá-las, mas sim, entender suas trajetórias e dificuldades no decorrer dos anos. Pensando nisso, faz-se importante entender como o racismo e machismo estruturais influenciam na vida das mulheres negras.

Diante disso, Djamila Ribeiro, filósofa e escritora, explica como o racismo funciona e de que forma o feminismo se estrutura na sociedade em Aula Magna ministrada na Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP). Sob o título de Autoras Negras: Uma outra Geografia da Razão, a mestre em Filosofia Política ilumina o panorama histórico e os dilemas enfrentados por escritoras negras há séculos.

Djamila Ribeiro. | Foto: Reprodução.
Djamila Ribeiro. | Foto: Reprodução.

Graduada em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e com forte linha de atuação nas relações raciais e de gênero, além de presença marcante nas discussões feministas, Djamila traça um cenário de exclusão sistemática feminina no âmbito acadêmico, principalmente da população afrodescendente. Assim, Djamila relata os desafios enfrentados em sua própria formação intelectual.

Em uma das ocasiões em que ainda era graduanda da Filosofia, a escritora recordou que, ao perguntar para um dos docentes do curso se não havia alguma escritora negra que tratasse sobre o assunto apresentado, ele respondeu rapidamente que não existia. Pouco tempo depois, a estudante encontrou vários nomes em uma busca simples pela internet.

Desta forma, Djamila critica a própria Academia, que dá preferência aos pesquisadores e escritores brancos – visão eurocêntrica e perspectiva embutida pelo “darwinismo social” majoritariamente. Assim, diz que o ambiente acaba inviabilizando projetos que não contenham os homens mais conhecidos e prestigiados pelo próprio meio acadêmico. Contesta ainda o fato desse grupo específico dominar o poder do ‘saber’ e propõe, como alternativa viável ao problema, a busca por epistemologias diferentes dessa dominante.

Sobre isso, a filósofa também discorreu em relação à sua iniciação científica, a qual exibia um assunto na pesquisa enviada à aprovação e, no final do trabalho, apresentava um conteúdo completamente divergente do apresentado no início. Tal atitude foi necessária para que ela pudesse conquistar a bolsa-auxílio.

Diante desse horizonte, reafirma que ser mulher, até mesmo nos dias atuais, é um constante desafio, principalmente se for negra.

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Interseccionalidade

De acordo com Djamila Ribeiro, a interseccionalidade é o estudo da intersecção de identidades sociais e sistemas relacionados à discriminação ou dominação. “[Estudo da interseccionalidade] indica como os sistemas discriminatórios funcionam, servindo como uma ferramenta analítica”, completa.

Esse conceito desenvolvido primariamente por mulheres negras começou a se popularizar em 1989, quando foi utilizado na tese de Kimberlé Crenshaw. Segundo a norte-americana, “Ela [interseccionalidade] trata especificamente da forma pela qual o racismo, o patriarcalismo, a opressão de classe e outros sistemas discriminatórios criam desigualdades básicas que estruturam as posições relativas de mulheres, raças, etnias, classes e cultura”.

Sendo assim, contrapõe a ideia de que todas as situações de preconceito referentes à raça devem ser compreendidas da mesma maneira. Portanto, nega a questão da universalização ou generalização do racismo, entendendo que cada pessoa apresenta pensamentos diferentes e sofrem discriminações também divergentes.

No entanto, vale ressaltar que o estudo não se restringe ao campo da raça, mas sim, abrange para qualquer dominação ou preconceito destinado a qualquer outra minoria ou grupo. Neste sentido, vai de encontro com a universalidade utilizada para se referir às mulheres, por exemplo.

Então, para a boa execução dessa ferramenta analítica, Djamila sugere pensar em políticas públicas que entendam cada caso de discriminação. Assim, a autora de Quem tem medo do feminismo negro esclarece que a invisibilidade pode ser tão letal quanto essas práticas preconceituosas, pontuando a necessidade de entender as estruturas do preconceito de cada circunstância.

Empoderamento

A origem da Teoria do Empoderamento foi por volta da década de 1960, quando Paulo Freire pensou a Teoria da Conscientização. Assim, Freire desencadearia, adiante, uma análise da temática aplicada em função da realidade de povos oprimidos. Sendo assim, o empoderamento condiz com a concessão da participação social em um dado ambiente.

Diante dessa definição, Djamila alerta que ser uma mulher empoderada “não é ser uma CEO de uma empresa”, mas sim, ser alguém que possui uma voz e é ouvida pela sociedade. Ou seja, é quem tem acesso ao espaço político e tem a possibilidade de tomar decisões na esfera pública.

Autoras negras para se inspirar:

  • Angela Davis (1944  -) | Livro: Mulheres, Raça e Classe
  • Djamila Ribeiro (1980 -) | Livro: Quem tem medo do feminismo negro
  • Kimberlé Crenshaw (1959 -) | Livro: On Intersectionality: Essential Writings
  • Lélia Gonzalez (1935 – 1994) | Artigo: Racismo e sexismo na cultura brasileira
  • Carolina Maria de Jesus (1914 – 1977) | Livro: Quarto de Despejo
  • Carla Akotirene (1980 -) | Livro: Interseccionalidade

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Por Isabela Cagliari – Redação Fala! Universidades

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