Entenda de que maneira as empresas podem ser ativistas
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Entenda de que maneira as empresas podem ser ativistas

Entenda de que maneira as empresas podem ser ativistas

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Sob os holofotes dos protestos após o assassinato de George Floyd e do movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), diversas empresas se declaram ativistas e aproveitam o momento para a autopromoção. Em uma geração como a que vivemos, em que pessoas mais novas (Millenials, Gen Z e X) se destacam ao pedir mudanças, isso não é mais aceitável.

Ativismo é o simples ato de defender algo. Desde os anos 70, com o movimento de liberação LGBT+, companhias criam produtos voltados para minorias e lucram em cima de suas lutas sem, de fato, ajudar.

De acordo com Gijs Corstens, fundador da escola de coding HackYourFuture, existem diferentes tipos de ativismo corporativo (como é chamado quando empresas usam movimentos sociais em seu funcionamento) e esses tipos dependem de quando e por que os empresários decidem fazer isso.

Como exemplo, em 2018, a Nike utilizou a imagem de Colin Kaepernick e a frase “Believe in Something. Even if it means losing everything” (“Acredite em algo. Mesmo que signifique perder tudo”) como propaganda.

ativismo de marcas
Campanha Nike de 2018, com o astro do futebol americano Colin Kaepernick. | Foto: Reprodução.

O jogador da NFL ficou famoso após ajoelhar durante o hino nacional em um jogo de futebol americano, como protesto às mortes de pessoas pretas nas mãos de policiais, e perdeu seu emprego. Apesar de algumas pessoas terem se filmado queimando seus sapatos Nike, a venda dos produtos da empresa aumentaram em 31% naquela semana.

Um outro exemplo é o da campanha que nunca existiu da L’Óreal Paris com a modelo Munroe Bergdorf em 2017. Demitiram-na depois de ter escrito um texto no seu Facebook sobre a violência racial de pessoas brancas após o comício de nacionalistas brancos em Charlottesville (que Trump defendeu). Três anos depois, a empresa de beauty and fashion postou uma foto em seu Twitter com as palavras “Speaking out is Worth It” (algo como “Falar ‘para fora’, ousadamente, vale a pena”). A modelo transsexual e negra respondeu, apontando a hipocrisia.

ativismo falso
Em seu Twitter, a modelo respondeu ao “ativismo” da L’Óreal Paris. | Foto: Reprodução Twitter.

Pelo Twitter, Munroe escreve: “Vocês me tiraram de uma campanha, em 2017, e me jogaram aos lobos por falar sobre racismo e supremacia branca. Sem o dever de se importar, sem pensar duas vezes. […] Eu disse, ontem, que era apenas uma questão de tempo para marcas racistas pra c****** vissem uma janela para uma oportunidade de relações públicas. Vão se f****. F****** a sua solidariedade”.

Corstens afirma que a maioria das empresas entram na militância após um momento chamado por ele de tipping point, quando a questão já é socialmente aceitável na maioria da sociedade — de modo que ajuda em vendas. São raras as companhias que fizeram tal escolha antes do tipping point ou somente pela ética.

Ativismo corporativo é bom para a sociedade?

No entanto, mesmo que apenas lucros sejam visados, é possível que o ativismo corporativo seja bom para a sociedade — só precisa ser muito bem feito. Um modelo exemplar é o filme Pantera Negra, da Marvel. Sobre o rei de Wakanda, país africano que nunca foi colonizado e, portanto, só tem pessoas pretas e todos os seus recursos, o longa-metragem gerou U$1.34 bilhão para os produtores e deu representação para crianças e adultos negros de sucesso, sem estereótipos ultrapassados e com muita cultura africana.

Melhor ainda é quando se usa o ativismo para estampar seus produtos e utilizar parte do lucro para doar para ONGs e grupos do movimento que foram utilizados, como a marca de sorvete Ben&Jerry’s fez com o sabor Pecan Resist. Além disso, os donos da empresa sempre publicam em seu site oficial sobre os movimentos e seu apoio, como esse artigo, e vão aos protestos.

sorvete Ben & Jerry's
Novo sabor limitado da marca Ben & Jerry’s. | Foto: Reprodução.

Há várias maneiras de apoiar um movimento, além de só usar a sua imagem. A L’Óreal Paris, após os argumentos de Munroe Bergdorf, entrou em contato com a modelo e, depois de uma conversa com um time de mulheres de diversas etnias, ela foi contratada para trabalhar com eles para ajudá-los a melhorar na questão racial. A empresa também concordou em doar uma grande quantidade de dinheiro para uma caridade de sua escolha.

Postar uma imagem preta em defesa ao Vidas Negras Importam e uma frase vazia não é mais o suficiente em um mundo onde pessoas se importam com o que é certo e estão dispostas a ajudar e mudar. É necessário tomar ação para honrar as palavras. Felizmente, é possível fazer isso tanto individualmente como corporativamente.

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Por Domitilla Mariotti – Fala! UFRJ

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