Desigualdade à reinvenção: como a pandemia afetou os universitários
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Desigualdade à reinvenção: como a pandemia afetou os universitários

Desigualdade à reinvenção: como a pandemia afetou os universitários

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Quatro estudantes universitários contam suas experiências de estudo e vivências durante a pandemia

Após mais de um ano de pandemia, universidades de todo o país adotaram suas próprias estratégias para dar continuidade às atividades acadêmicas, mas essas medidas têm impactos diferentes em cada estudante. Para entender como a pandemia afetou a vida dos jovens universitários, conversamos com quatro deles, que contam suas experiências com cada medida aplicada pelas suas faculdades.

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Descubra como a pandemia afetou a vida dos estudantes universitários. | Foto: Freepik.

Dedicação intensa dos universitários e atraso de bolsas

A estudante de engenharia de materiais da Universidade de São Paulo (USP), Giovanna Jaques, 19 anos, sempre enfrentou dificuldades financeiras, mas, durante a pandemia, a questão ganhou novos contornos. Para tentar se manter na nova cidade sem a família, que mora no Rio de Janeiro, a jovem entrou em um projeto de pesquisa, porém sua situação econômica não ficou mais fácil, pois os pagamentos de bolsas e auxílios sofreram atrasos.

Diante desse cenário, a jovem desabafa: “Está tendo um descaso muito grande por parte da USP com os estudantes de baixa renda”. E segue: “Se você estivesse no presencial, isso não seria um problema, porque iria passar o dia fora. Iria comer café, almoço e janta no bandejão, mas e quando você está em casa? Não tem como a gente ficar se expondo, indo até a universidade pegar marmita”.

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Giovanna Jaques, 19 anos, estudante de engenharia de materiais da USP. | Foto: Reprodução.

O atraso de pagamentos não é a única barreira que Giovana enfrenta. Como mulher de baixa renda, ela chegou a pensar que o curso não era o seu lugar, mesmo gostando dele. “Quando a gente entra na faculdade, principalmente em um curso elitista, como engenharia, e um curso predominantemente masculino, a gente acaba pensando que ali não é o nosso lugar”, conta a estudante. A percepção de Giovanna não está desalinhada do que apontam outros 31% de brasileiros que participaram da pesquisa Global Student Survey, realizada pela entidade sem fins lucrativos Chegg.org com estudantes universitários de 21 países. Para eles, estudantes de baixa renda são muito mal representados em suas universidades.

Além dos problemas financeiros e da falta de sensação de pertencimento, os estudantes de engenharia de materiais esbarram nas barreiras linguísticas e de tempo para dar seguimento aos estudos. Alguns professores passam materiais em idiomas estrangeiros, obrigando os alunos que não dominam a língua a buscar tradução com os colegas. Se o material não estiver em outro idioma, pode estar sem som. As aulas de laboratório de química, que antes contavam com a reprodução dos experimentos por parte dos alunos, acontecem por meio de vídeos sem som no qual os professores são os únicos que realizam as reações. “Isso quando o experimento não é realizado de forma muita rápida, e a gente tem que ficar voltando o vídeo”, conta a estudante.

Na opinião de Giovanna, o modo como as aulas estão acontecendo na USP não é o mais apropriado. “É complicado, porque os professores estão perdendo a mão do quanto eles podem cobrar da gente. Você tem matérias que não só têm duas provas, como testes e trabalhos para apresentar ou entregar. Atrapalha bastante o desempenho, porque não está tendo uma adaptação das matérias de forma humanizada”, afirma a estudante.

A rotina mais intensa acabou tendo efeitos sobre sua saúde física e mental. “Manter uma boa saúde mental é um desafio. Eu, por exemplo, devido ao estresse da faculdade e por falta de tempo para cozinhar, desenvolvi gastrite”, conta Giovanna, que, desde setembro de 2020, faz terapia. Assim como ela, 87% de brasileiros ouvidos na pesquisa da Chegg.org afirmam ter tido aumento de estresse e ansiedade, enquanto 32% afirmam dedicar mais tempo aos estudos durante a pandemia.

Desigualdades reveladas e rostos universitários escondidos

Jonatan Fernando, 22 anos, mora no munícipio de Queimados, Baixada Fluminense, e estuda pedagogia no campus de Nova Iguaçu da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Ele não chegou a enfrentar problemas socioeconômicos para estudar, mas sabe que seus colegas, sim.

Alguns chegaram a deixar os estudos ao longo da pandemia por motivos de saúde física e mental. “Deixar esses colegas pelo caminho é como se um pedaço meu estivesse ficando para trás também”, lamenta o jovem. Enquanto estuda com um computador em seu quarto, ele lembra dos outros alunos que apenas têm acesso às aulas pelo celular e, às vezes, em transportes públicos cheios durante o trajeto entre trabalho e casa.

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Jonatan Fernando, 22 anos, estudante de pedagogia da UFRRJ. | Foto: Reprodução.

“As desigualdades educacionais que já existiam antes foram desveladas para quem, sob o véu de um discurso meritocrático, atribuía várias questões a apenas uma questão pessoal de basta querer que você vai conseguir”, avalia Jonatan. Assim como ele, outros 70% de universitários brasileiros, ouvidos na pesquisa Global Student Survey, consideram que o país natal não oferece condições de igualdade à toda a sua população. Entre alguns dos problemas socioeconômicos anteriores à pandemia, o estudante de pedagogia aponta a falta de equipamentos adequados e de internet. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), 21% da população acessa à internet apenas pelo celular e 19% não está conectada.

Esse não é o único desafio que Jonatan observa. Com uma rotina mais intensa, ele percebe a dificuldade de se afastar do trabalho. “Se antes a nossa casa era um lugar de descanso, agora é tudo. Então, a fronteira entre o trabalho e o não trabalho, entre o estudo e o não estudo está muito frágil”, constata Jonatan. Enquanto se esforça para seguir seu cronograma de estudos, ele tem suas relações com outras pessoas abaladas.

Apesar da curta distância física de alguns metros, a mãe do jovem reclama de não conseguir mais conversar com o filho, que passa o dia inteiro com fones. “É a ausência na presença”, resume ele que também faz queixas sobre outra falta: os rostos dos colegas de turma. “Tem sido um desafio viver olhando quadradinhos nas videochamadas nas quais, muitas vezes, as pessoas nem abrem as câmeras”, desabafa Jonatan.

Ao longo da pandemia, o jovem ainda teve mais uma questão para se preocupar. Viu os casos de infecção pelo Sars-Cov-2 se aproximarem de seu círculo social, atingindo amigos e o seu pai, que precisou de atendimento médico duas vezes. “Sempre parecia que a doença estava chegando mais perto”, relembra ele. Agora, com o núcleo familiar inteiro vacinado, a sensação é de: “Tá chegando a minha vez em termo de vacina”, fala Jonatan aliviado, enquanto espera ansioso pela imunização coletiva.

Apesar de sentir falta de algumas experiências do presencial, Jonatan também consegue enxergar os lados positivos que o ensino remoto gerou. Aproveitando a possibilidade de mudar de ambiente acadêmico sem gastar tempo com deslocamento, o estudante passou a participar de projetos de pesquisa, que permitem a expansão de seu conhecimento e da rede de contatos. “O ensino remoto tem suas potencialidades com certeza, mas não tem como fazer uma comparação”, relata o jovem, “Seria até uma comparação desigual”.

Amigos a distância

Antes do terceiro ano do ensino médio, quando sonhava com o dia em que estaria na faculdade desejada, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Letícia Santoro, 18 anos, não imaginava que cursaria comunicação social de sua casa. Aprovada no Sisu 2021.1, a estudante já teria terminado o primeiro período se não houvesse pandemia.

No entanto, com a suspensão das atividades durante oito meses em 2020, pessoas que ingressaram no mesmo período que Letícia sequer começaram os estudos. “Essa ociosidade me deixa um pouco ansiosa, já que a faculdade ainda não começou, e eu estou naquela do ‘o que é que eu faço?’”

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Letícia Santoro, 18 anos, estudante de comunicação social da UFRJ. | Foto: Reprodução.

Com a experiência de ter cursado o último ano do ensino médio de modo remoto, Letícia teme sentir falta de colegas de turma ao seu lado para compartilhar o momento das aulas e das dúvidas. “Parece que a gente está sozinho no barco. A gente não vê ninguém do nosso lado fazendo cara de dúvida quando o professor fala alguma coisa”, diz a jovem. Apesar da distância física, Letícia pretende adaptar os planos de fazer novas amizades e de expandir seus conhecimentos à nova realidade.

Para esse objetivo, ela pôde contar com a ajuda dos seus veteranos universitários que fizeram um trote virtual. Quando foi informada sobre o evento, Letícia não ficou muito animada, já que não poderia se pintar nem fazer outras atividades esperadas, mas com as dinâmicas de apresentação, videochamadas e cupido, ela acabou tendo suas expectativas superadas. “Isso é bem legal. A gente se sente um pouquinho mais próximo um do outro. A gente fala ‘Meu Deus! Eu não quero olhar para a cara de vocês quando tiver no presencial, porque a gente já vai ter tanta intimidade que vai ficar com vergonha”, conta a estudante.

No conforto do lar e na companhia dos gatos

A estudante de cinema e audiovisual da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Anna Mendonça, 19 anos, tem uma experiência com a pandemia diferente das outras pessoas ouvidas. A jovem mora em Nova Friburgo, Região Serrana do Rio, e para estudar presencialmente, teria que se mudar sozinha para a capital fluminense. Enquanto assiste às aulas em modo remoto, fica feliz pela oportunidade de continuar em sua casa, na companhia de seus três gatos, mas ainda pensa com medo e ansiedade no dia em que terá que sair de seu município. “Eu vou ter que aprender a me locomover em uma cidade que tem uma dinâmica muito diferente”, relata a jovem, “Na minha cidade, você pode andar na rua às 2h da manhã e não vai morrer”.

Além da segurança do lar, a distância física entre Anna e seus colegas de turma faz com que ela se sinta mais confortável. A jovem conta que não costuma interagir com outras pessoas, assim, a experiência do remoto permite que ela curse a faculdade sem precisar desenvolver diálogos com os colegas de turma. Apesar de se sentir bem desse jeito, ela reconhece a dificuldade que pode ter na volta às aulas presenciais. “Eu acho que vou precisar me reacostumar a conversar com as pessoas, porque eu acho que isso me possibilitou ficar muito na minha, eu sou uma pessoa que adora ficar na minha e esse vai ser um problema.”

Outro desafio que a estudante terá que enfrentar será o seu aproveitamento nos estudos universitários. Mesmo considerando que se adaptou bem ao ensino remoto e tendo uma rotina de estudos bem definida, Anna tem dificuldade para se concentrar. “Talvez eu aprenderia muito melhor no presencial, em questão de estudo, porque eu acho uma coisa muito difícil você sentar aqui e prestar atenção 100%”, confessa a universitária que, às vezes, passa a jogar enquanto assiste às aulas.

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Por Rosamaria Santos – Fala! UFRJ

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