Desertos de notícias da capital - a cobertura jornalística no ABC Paulista
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Desertos de notícias da capital – a cobertura jornalística no ABC Paulista

Desertos de notícias da capital – a cobertura jornalística no ABC Paulista

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A gente fica sabendo das coisas pelos amigos e pelas pessoas mesmo. Nunca vi jornal aqui na cidade, acho não tem nem banca de jornal.

Francisca Paula Matos, 55 anos, não perde o sotaque cearense mesmo após 32 anos morando em Rio Grande da Serra, município que integra a região do Grande ABC Paulista. Com pouco mais de 48 mil habitantes (IBGE 2015), a cidade a 48 km de distância de São Paulo não possui veículo de imprensa dedicado à cobertura local, com exceção da página Rio Grande Notícias no Facebook e a sessão de notícias no site da prefeitura. Fran, como gosta de ser chamada, conta que só participou das eleições do Conselho Tutelar da cidade pois recebeu a notícia dos vizinhos.

Mesmo sem cobertura jornalística local, Rio Grande da Serra ganha espaço nos jornais e veículos dos outros seis municípios do ABC Paulista. A quantidade de veículos de imprensa na região não é baixa: ABCD Maior, ABCD Jornal, ABC Repórter, Rádio ABC, TV Eco ABC, Jornal Ponto Final, ABC do ABC, Clique ABC, Mais Notícias, Diário de Ribeirão Pires, Tribuna do ABC, Tribuna do ABCD, Folha do ABC, Giro ABC, entre outros que fazem cobertura no estilo hard news, além de publicarem conteúdos fornecidos por assessorias de imprensa e prefeituras locais.

O ABC é uma região com quase 3 milhões de habitantes, um dos maiores PIB regionais do Brasil, mas a cobertura jornalística em termos de veículos de comunicação fica muito aquém desses números.

Afirma o repórter Leandro Amaral, jornalista e apresentador com mais de dez anos de cobertura regional.

Leandro integra a equipe dos programas Jornal ABC, Café com Fatos, 30 minutos e Repórter Diário, além de ser colunista político no jornal ABC Repórter e possuir sua própria página com mais de 14 mil curtidas no Facebook.

Nós não temos emissora de TV aberta, não temos emissora FM de rádio, apenas AM. Temos com circulação diária na região um único jornal consolidado, que é o Diário do Grande ABC, com tiragem entre 12 ou 15 mil exemplares para uma região com quase 3 milhões de habitantes.

Relata Leandro.

Criado em 1958 por Fausto Polesi, Ângelo Puga, Edson Danilo e Maury de Campos Dotto, o Diário do Grande ABC (DGABC) já abrigou jornalistas reconhecidos como Joaquim Alessi, Nilton Valentim, Léo Junior, Célio Franco, Reinaldo Azevedo, assim como Ademir Medici e Edson Motta – vencedores do Prêmio Esso em 1976 na categoria regional, com a série de reportagens “A Metamorfose da Industrialização”.

O DGABC foi comprado em 2004 pelo empresário Ronan Maria Pinto, atual proprietário. Em 2017, o empresário foi alvo da Operação Lava Jato por receber R$ 6 milhões do esquema de corrupção da Petrobrás, parte do empréstimo feito pelo pecuarista José Carlos Bumlai junto ao Banco Schahin. Ronan foi preso em Curitiba, e migrou para o regime semiaberto em março deste ano.

Quem também fez parte da redação do DGABC foi Airton Carvalho de Resende, que deixou o jornal e fundou em 2005 o Repórter Diário, também em Santo André. O veículo é conhecido por ser um dos pioneiros da região a utilizar as ferramentas digitais para divulgação de conteúdo. Há dez anos, a redação já utilizava câmeras para registrar reportagens escritas e disponibilizá-las em vídeo no site do jornal, o que mais tarde viria a se tornar a RDTV.

Nós temos um cenário de imprensa muito limitado aqui na região do ABC. Até o jornalismo online, que poderia ser uma alavanca para ajudar nesse processo, também é muito limitado.

Relata o jornalista e professor Robson Gisoldi.

Com 19 anos de atuação no jornalismo local, passando pelas redações do Diário do Comércio e Diário Regional, Robson acredita que a maior audiência local se concentra nas redes sociais.

Os grupos e páginas chamam a atenção pela cobertura em tempo real, como o Viva ABC. Eles chegam a ter mais repercussão que os próprios jornais impressos e online daqui.

Se grandes veículos de mídia sofrem com a sustentabilidade financeira de suas redações, veículos locais acabam por depender ainda mais do modelo tradicional de negócio do jornalismo. “Basicamente, quem dita a pauta são as próprias prefeituras locais com seus releases e conteúdos diários, não existe mais aquele furo de reportagem”, comenta Robson, que hoje é diretor de comunicação na agência de marketing digital RLGComunica, em Santo André.

O repórter Leandro Amaral também faz leitura semelhante sobre as redações na região.

O profissional hoje da imprensa local é sobrecarregado de pauta. Além de fazer a apuração do texto jornalístico, ele deve fazer fotos, vídeos curtos e conteúdos que o tornam um profissional multimídia, porém cada vez mais atarefado devido ao fato das redações estarem enxutas.

Para ele, a falta de investimento em cobertura local somada à sobrecarga de trabalho fazem das redações produtoras de hard news.

Falta mais profundidade no material jornalístico. Os jornais da região publicam notícias nas redes sociais. No dia seguinte, o leitor do jornal quer ver algo mais analítico, mais aprofundado, e muitas vezes as redações não conseguem ofertar esse material.

Jornalismo regional é o mais difícil de fazer. Qualquer coisa que vá contra alguém mais influente e incomodar, já pedem a sua cabeça.

Afirma o jornalista Marcos Savoy, apresentador à frente do programa Sem Limites, transmitido pelo jornal ABC Repórter.

Perguntado sobre os riscos de ter uma imprensa dependente de agências de notícias e assessorias de imprensa, Savoy diz ser

muito difícil fazer reportagens críticas a nomes de peso na região quando os jornais locais dependem de verba publicitária e editais públicos impressos em suas páginas.

Um jornalismo local forte contribui muito para chamar atenção para os problemas de corrupção na cidade”, ressalta o professor Robson Gisoldi. “O jornalista local está próximo da rotina local, ele é de suma importância para a cidadania dos habitantes daquela região.

Completa

Segundo Leandro Amaral, o acesso rápido a informações de diferentes partes do mundo acaba desviando a atenção com “o que acontece no quintal de casa”.

A imprensa local cumpre o papel de oferecer um cardápio do que acontece na esfera pública da região: notícias sobre serviços de saúde, transporte, educação, entre tantos outros.

Apesar das dificuldades e desafios da cobertura jornalística do ABC, a região está longe de se tornar o que ficou conhecido como deserto de notícias, uma ocorrência nacional segundo Atlas da Notícia 2.0, atualizado em janeiro de 2019. De acordo com o projeto, desenvolvido pelo Volt Data Lab, 51% das cidades mapeadas não possuem veículos de imprensa – rádios, telejornal, impressos e sites de notícias. São aproximadamente 30 milhões de pessoas que não tem acesso a fatos que acontecem em suas próprias cidades, boa parte delas nas regiões Norte e Nordeste.

Muitos são os obstáculos sobre o progresso da imprensa regional, como escreve o jornalista de dados coordenador do Atlas da Notícia 2.0, Sérgio Spagnoulo, em artigo no Medium. Além das dificuldades do modelo de negócios apontado por Robson Gisoldi, da sobrecarga nas redações relatada por Leandro Amaral, e dificuldades para cobrir assuntos locais relacionados a nomes relevantes na região, como disse Marcos Savoy, o problema na qualidade ou ausência de cobertura jornalística em regiões do Brasil pode estar relacionada não apenas a quem produz, mas também a quem consome.

Em entrevista coletiva no escritório do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, em São Paulo, a repórter Bianca Vasconcelos, premiada por diversos trabalhos no programa Caminhos da Reportagem, da TV Brasil, ressaltou que “toda falta de informação vem da falta de investimento estrutural e cultural em educação”. Para ela, a educação é essencial para que a população perceba a ausência de notícias em sua região e crie senso crítico e participativo.

É um movimento banalizado, de considerar que determinadas regiões não tem jornalismo mesmo, ou só tem um veículo, que é do coronel, do fazendeiro, do político.

Comenta

Uma mudança nesse panorama da imprensa regional pode partir das faculdades de jornalismo, segundo Robson Gisoldi.

As universidades tem o papel de fomentar a produção jornalística voltada para o contexto regional, com trabalhos que tenham a região como tema que ressaltem a importância e valorizem o jornalismo local.

Francisca Paula Matos, moradora de Rio Grande da Serra, diz que a ausência de veículos de comunicação na cidade não é sentida.

Pra mim não faz falta porque eu não leio jornal, fico sabendo tudo pela boca do povo.

Afirma Fran, que não poderá ler este texto por ser semianalfabeta.

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Cauê Colodro – Fala!UMSCS

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