Crônica: Os encontros de domingo
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Crônica: Os encontros de domingo

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O domingo tende a ser um dia mais preguiçoso. Apesar de marcar o começo de uma semana, é aquele dia em que a família se reúne e a mesa é posta com a maior fartura de alimentos. Risadas e histórias tomam conta do ambiente e misturam-se aos barulhos dos copos tilintando e das garfadas de comida incessantes. Para dona Clélia, não é diferente.

Logo, o domingo é o dia em que almoça com parte da família, sua filha mais nova, o genro e a neta. Para completar a mesa, vem Mira, sua fiel escudeira e irmã de criação. Uma cadeira permanece vaga e, com certeza, é a maior saudade de Clélia. Hoje, aos 90 anos, ainda sente falta da presença do marido Nelson, que se foi há quase uma década.

Por mais que tenha saudade, a senhora não se abala com o aperto no peito. Já se acostumou com a ausência porque, no centro da sala, com a mesa virada à estreita varanda do nono andar, mantém a memória do companheiro viva. Lembranças, piadas, falas e até situações constrangedoras surgem durante o almoço. Se não conta alguma pérola de Nelson, ele é lembrado pelo majestoso prato de macarronada, seguido pelo pote metálico com queijo parmesão ralado, combinação indispensável para o italiano.

domingo
Domingo e seus encontros. | Foto: Pexels.

Nelson e Clélia tiveram seus caminhos cruzados entre o final dos anos 40 e o início dos 50. Ele era um jovem sonhador, com uma mãe batalhadora e um padrasto mais rígido. Já ela, era filha de farmacêutico, daqueles bem sérios e bravos, e de uma diretora de um orfanato. Pouco tempo depois que se conheceram, começaram a namorar. O jovem casal tinha pressa em viver, o que levou o bancário a pedir a mão de Clélia em casamento.

Mesmo que a época exigisse uma certa seriedade, Nelson não perdia a chance de fazer brincadeiras com a sogra. Após a oficialização do matrimônio, revelou a ela: “Dona Zezé, tomei banho com a Clélia”. Indignada com a confissão do genro e prestes a questionar seus modos, Zezé ouviu o complemento da frase: “tomamos banho de mar, dona Zezé, de mar”.

Quando relembra a cena, Clélia dá gargalhadas e conta outras histórias do marido. As piadas e graças sempre chamam a atenção, dificilmente passam batido na hora do almoço em família. Não há uma pessoa sequer na mesa que não dê risada ou comente outra situação em que Nelson estivesse envolvido. Sua presença, mesmo na ausência, é notória.

Hoje, seguindo o costume, Clélia comentou sobre Nelson, mas o assunto foi bem diferente do usual. Com o término da sobremesa e a retirada de Mira, relembrou os últimos dias do amado. Entre idas e vindas do hospital, cada dia vivo era um presente à esposa e àqueles que o amavam. Então, vestindo um casaquinho de frio fino, estampado com flores coloridas, rememorou as adaptações na casa para atender às novas necessidades do marido e as dificuldades daqueles cinco meses.

Na primeira vez que foi para o hospital, o homem sentia falta de ar. Dirigindo-se ao local por meio de uma ambulância, Clélia foi logo atrás, no carro com o filho e Mira. No tempo em que esteve internado, a esposa insistia em ficar ao seu lado, comia e dormia todas as noites com ele e não se deixava abater pelo cansaço, nem mesmo pelo medo da morte.

Após a primeira ida ao hospital, voltou mais duas vezes. Por mais que não estivesse em sua melhor condição, o homem ainda conseguia fazer piadas e alegrar à família. Dias antes de falecer, fez todos gargalharem ao imitar pessoas conhecidas e recontar ocasiões em que passou grande vergonha.

Depois de quase oito anos que Nelson encerrou sua jornada na terra, os olhos de Clélia ainda brilham quando alguém fala dele. Os mais de sessenta anos juntos não foram suficientes, se tivessem vivido o dobro, também não bastaria. A verdade é que o amor de Clélia pelo eterno namorado é daqueles de cinema, que dão arrepios nos braços e frio na barriga, daqueles que nem mesmo a partida pode separar.

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Por Isabela Cagliari – Redação Fala!

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