Crítica: 'Quem vai ficar com Mário' tem um propósito e esse é o seu maior problema
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Crítica: ‘Quem vai ficar com Mário’ tem um propósito e esse é o seu maior problema

Crítica: ‘Quem vai ficar com Mário’ tem um propósito e esse é o seu maior problema

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Quem vai ficar com Mário é uma comédia romântica lançada em junho de 2021, mês do Orgulho LGBTQIA+. A história acompanha o roteirista Mário, que após anos vivendo sua vida dos sonhos no Rio de Janeiro, decide voltar ao sul do país para contar à família que é gay. Ao chegar a sua cidade natal, ele acaba tendo seus planos desviados devido a uma revelação feita por seu irmão, Vicente, e por conta da presença de Ana, uma consultora de empresas contratada para modernizar a cervejaria da família. 

O filme Quem vai ficar com Mário falha em suas propostas iniciais.
O filme Quem vai ficar com Mário falha em suas propostas iniciais. | Foto: Reprodução.

O filme, infelizmente, tropeça frequentemente no caminho. A começar pelo fato de que como comédia, ele tem um humor fraquíssimo, suportado em atores que não tem a veia cômica necessária para o gênero. Já com relação ao romance, ele falha ao ter casais com pouca química e falta muito cuidado na forma como os dilemas dos relacionamentos são resolvidos. Fora isso, outros problemas técnicos abundam. O roteiro é de mediano para ruim e todas as questões parecem ser trabalhadas sem muita dedicação. A direção não ajuda e parece que nenhum problema é realmente importante na história — mesmo a expulsão de um filho de casa devido a sua sexualidade ou a descoberta de que o homem (gay) que você namora há anos te traiu com uma mulher que ele mal conhecia. 

Algumas falas são estranhas, robóticas, e as tentativas de conscientizar o público sobre o preconceito são excessivamente didáticas. É latente que o objetivo de Quem vai ficar com Mário é menos se conectar com pessoas que enfrentam o preconceito da sociedade e mais educar aqueles que reproduzem essas formas de discriminação. O exemplo mais claro é quando a personagem de Elisa Pinheiro, Bianca, perde a paciência ao ser constantemente interrompida pelos homens na mesa e esbraveja “Do que adianta serem um bando de gays se não deixam uma mulher falar?!”. Toda a sequência onde ela começa várias vezes uma frase e em todas elas é interrompida por um dos rapazes fazendo um comentário irrelevante já deixava gritante (quase professoral) como as mulheres podem ter sua voz calada mesmo por pessoas que também sofrem preconceito, logo, sua fala é apenas uma tentativa de deixar bem claro ao telespectador que aquela era uma situação de machismo, para o caso de isso ainda não ter ficado claro. 

Mas um dos maiores problemas do longa é que ele se esforça tanto em criticar a homofobia e o machismo que é inevitável não identificar momentos onde ele mesmo falha em combater essas formas de opressão. O machismo de Fernando, namorado de Mário, contra Ana, ofendendo-a e culpando-a pelos erros do seu namorado, é tratado como uma questão quase engraçada. Já os personagens homossexuais e pansexuais tem alguns problemas. Além do fato de os três centrais serem interpretados por atores heterossexuais, dois deles são completamente masculinos (os irmãos Mário e Vicente, vividos respectivamente por Daniel Rocha e Rômulo Arantes Neto) e outros dois vão no caminho oposto: afeminadíssimos, loucos por homens, cheios de trejeitos, histéricos, chamativos, descontrolados. É uma caricatura completa do homem gay que não performa masculinidade. 

Não bastasse isso, Mário descobre sua bissexualidade ou pansexualidade traindo o namorado, o que se conecta a uma percepção errada de que bissexuais e pansexuais são promíscuos, infiéis por natureza ou confusos. No final da história, depois de trair o namorado de anos com Ana e de ser traído por Fernando com o próprio irmão, fica a sugestão de que talvez Mário inicie uma relação não-monogâmica com seus dois interesses amorosos. Uma “solução” divina, que propõe que em casos de traições muito melhor do que o diálogo e a honestidade, é abrir o relacionamento.

Quem vai ficar com Mário falha em tantos aspectos que é difícil considerar que ele atingiu algum de seus objetivos. Enquanto comédia, falta-lhe humor, os romances não geram qualquer torcida e, talvez por conta desses dois fatores, a maneira pouco cuidadosa e fútil como o machismo e a LGBTQfobia são tratados é gritante. Se a intenção é o que conta, o filme merece sim certa ressalva pela proposta que traz, no entanto, isso não anula suas falhas técnicas e a maneira como ele não parece levar a sério a vivência de mulheres (cisgênero e transexuais), gays e bissexuais em um Brasil que ainda arrota preconceito, e que não vai parar apenas bebendo cerveja cor-de-rosa.

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Por Joabe Andrade – Fala! UFMG

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