Coronavírus: Racismo e xenofobia com a comunidade asiática
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Coronavírus: Racismo e xenofobia com a comunidade asiática

Coronavírus: Racismo e xenofobia com a comunidade asiática

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Como o advento do vírus trouxe à tona um preconceito há muito tempo velado

Ao final de 2019 e início de 2020, com o surgimento do Covid-19, um novo tipo de coronavírus, e o alastramento da doença em quase todos os países, emergiu um movimento racista e xenofóbico em relação aos asiáticos e descendentes no mundo inteiro.

Histórico

França, Itália, Reino Unido, Canadá, Estados Unidos e, até mesmo, Malásia e Coreia do Sul estão na listagem dos países em que a reação primária ao surgimento do vírus foi o repúdio aos chineses e descendentes de orientais em geral. O resultado disso está presente em atitudes no cotidiano, como distanciamento dos que possuem o fenótipo oriental, olhares tortos em ambientes públicos e até mesmo brincadeiras que ultrapassam as barreiras do bom senso.

No Egito, de acordo com a Embaixada do Japão no Cairo, balconistas têm se recusado a atender clientes japoneses e “corona” tem sido usado como uma forma de xingamento contra pessoas que apresentam o fenótipo do leste asiático.

No próprio Japão, a situação já é diferente. A hashtag #ChineseDontComeToJapan (#ChinesesNãoVenhamParaOJapão, em tradução livre) se popularizou nas redes sociais, ocasionalmente chamando turistas chineses de “sujos”, “bioterroristas” e “insensíveis”.

Isso leva ao pensamento de que os chineses – e os indivíduos cujo fenótipo se assemelha ao deles em outros países – sejam caracterizados como o vírus em si, mesmo nunca tendo contato com ele, levando a uma estereotipagem ainda mais forte dessas pessoas e sua cultura.

Essa categorização de grupos orientais não é recente. Jeff Yang, escritor, jornalista e empresário, em uma coluna escrita para a CNN, conta que essa caracterização do chinês como “sujo”, “come qualquer coisa” e “espalha doenças” serviu para legitimar, nos Estados Unidos, a xenofobia imposta durante o período de migração desses povos em território norte-americano. Esse discurso serviu para perpetuar e justificar certa segregação e exclusão desses grupos ao longo da história, e não só nos EUA.

Pessoas que estão atacando asiáticos por conta do coronavírus não acreditam realmente que essas pessoas estejam doentes. Elas só estão procurando uma desculpa para atacar asiáticos.

Joseph Kahn, artista musical, em seu Twitter

No Brasil, por exemplo, ainda há uma distinção entre grupos do leste asiático. O chinês é visto de maneira desagradável, associado ao “pastel de flango” – expressão extremamente racista e estereotipada -, enquanto o japonês é visto como modelo exemplar de disciplina. Contudo, a partir do momento em que surgiu a pandemia do Covid-19, a generalização foi natural e o repúdio de ambos e mais alguns, espontâneo.

chineses sofrem com xenofobia e racismo devido ao coronavírus
Chineses sofrem com práticas racistas por conta do coronavírus. | Foto: Reprodução.

Racismo ou xenofobia?

Muitas vezes, ainda, o racismo anti-asiático é confundido com a xenofobia, justamente porque o corpo amarelo ainda é visto como exótico em muitos países. Ele foi construído dessa maneira para que sempre fosse visto como distante da cultura dominante, sendo considerado “inferior” ao branco dominante e civilizado.

Dessa forma, é comum associar a discriminação e o preconceito contra as comunidades amarelas à xenofobia, mesmo tendo nascido no país em que residem. É comum ver, no Brasil, por exemplo, um certo distanciamento até mesmo cultural entre os considerados “brasileiros” e os “japoneses”, por mais que todos pertençam à categoria de brasileiros.

O bairro da Liberdade é um exemplo perfeito. Lá, há letreiros, culinária e decoração típicos do Japão e onde reside grande parte da população nipo-brasileira (brasileiros com ascendência japonesa), mas é, também, considerado um bairro turístico.

E é com esse distanciamento que surgem as dúvidas sobre o preconceito que se desenvolveu com o advento do coronavírus. Muitas vezes, não é o estrangeiro que sofre com essa discriminação, mas sim o próprio residente, nascido naquele mesmo país. E isso é caracterizado como racismo.

#EuNãoSouUmVírus

Em reação a essa onda de preconceito, a hashtag #JeNeSuisPasUnVirus (#EuNãoSouUmVírus) tomou força na França, em janeiro de 2020, e já circula nas redes em diversos idiomas, como o inglês, o português e o espanhol.

Um episódio famoso do uso dessa hashtag foi na Mercedez-Benz Fashion Week Madrid, em que Chenta Tsai Tseng, músico e arquiteto taiwanês, mais conhecido por seu nome artístico Putochinomaricón, desfilou com o peito descoberto com os dizeres “I Am Not A Virus” como forma de protesto contra os episódios de racismo contra a comunidade asiática causados pelo advento da pandemia de coronavírus.

eu não sou um vírus
Protesto “#JeNeSuisPasUnVirus” contra racismo à comunidade chinesa. | Foto: Reprodução.

No cotidiano

Relatos de quem sofre com o racismo pelo coronavírus ainda são muito frequentes e são muitas as denúncias encontradas em praticamente todas as redes sociais.

Recentemente, uma usuária do Instagram, @vanillako, relatou ter recebido inúmeras mensagens de um estudante da Pennsylvania College of Technology contendo abusos verbais que, no caso em questão, configuram racismo.

Se você acha que o racismo contra asiáticos americanos acabou só porque ‘Crazy Rich Asians’ (Podres de Ricos no Brasil) foi um sucesso, você é ingênuo.

Vanessa denuncia em suas redes sociais

Nos relatos de Vanessa, nota-se que Zach Seiler, o autor das mensagens, fala muito sobre ela precisar “voltar para casa”, como se a origem dela não fosse os próprios Estados Unidos. É comum escutar um “Volte para o seu país”, mesmo tendo nascido onde mora.

E ela não é a única a relatar esse desconforto de, mesmo estando em casa, ser tratada como estrangeira. Enzzo Sato, estudante da USP, diz que mesmo em seu grupo da faculdade, há diversos memes xenofóbicos e racistas. Ao defender-se, a resposta foi “descansa militante” em tom de ironia, invalidando sua fala e diminuindo sua autoridade sobre o assunto.

As pessoas não são antirracistas; elas só perceberam que existem alvos que ‘pegam mal’ na opinião pública e outros que podem execrar praticamente impassíveis de reprovação.

Enzzo conta sobre o acontecimento

E é justamente dessa forma que o advento do coronavírus está sendo usado como uma desculpa para o racismo anti-asiático nos últimos tempos. Alimentando-se de uma suposta inferioridade criada pelo olhar exótico em cima dos corpos asiáticos, o preconceito contra asiáticos e descendentes existe já há algum tempo, mas tem crescido de maneira assustadora no mundo inteiro.

A respeito disso, vários movimentos foram criados em defesa da comunidade asiática e descendentes, e líderes de vários governos já manifestaram seu repúdio sobre as ações discriminatórias, mas muito ainda deve ser feito para que haja a aceitação desses corpos na sociedade como iguais.

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Por Fernanda Tiemi Tubamoto – Fala! UFMG

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